AS HEROÍNAS DA RESISTÊNCIA

Como a Status tornou-se a primeira publicação masculina do Brasil e, junto com estrelas inesquecíveis, conseguiu driblar a censura em um dos períodos mais duros da Ditadura Militar em um tempo em que mulher pelada era questão de segurança nacional, apresentamos ao Brasil a nudez feminina como nunca antes vista em páginas de revista

Por Gonçalo Junior

 

A PRIMEIRA VEZ QUE A REVISTA STATUS chegou às bancas, em agosto de 1974, com o selo da Editora Três, o Brasil estava em guerra. Guerra contra o comunismo. Guerra contra o sexo. De um lado, a ditadura militar. Do outro, os últimos focos de guerrilha daqueles que pegaram em armas contra o regime. Os generais estavam ganhando esse confronto. Mas havia um tipo de subversão a mais a ser combatido que se mostraria duro de combater: as revistas e os filmes com sexo. Os livros de história ainda não contaram essa versão daqueles tempos, mas os militares consideravam publicações com mulheres seminuas – porque o nu frontal era totalmente proibido – nada menos que um esquema criado pelos comunistas para destruir a família por meio da pornografia e instaurar o regime de Moscou no País.

A primeira nudez de Sônia Braga na imprensa brasileira foi um clique perfeito: a folha esconde parte do mamilo da atriz

De nada adiantava dizer que em Moscou se dizia o mesmo: a pornografia era um mecanismo dos capitalistas para destruir o socialismo. Desde janeiro de 1970, os generais declararam a sensualidade como um dos principais inimigos da ditadura. No dia 26 daquele mês, foi imposto o Decreto 1077, que estabeleceria censura prévia a qualquer revista ou livro que trouxesse fotos ou desenhos de mulheres nuas. Ao mesmo tempo, mais de uma centena de títulos foi proibida de circular. A Portaria 209, de 6 de fevereiro, ampliou a repressão e estabeleceu que nenhuma revista poderia ser distribuída e vendida no Brasil se não tivesse sido registrada na Polícia Federal. As que traziam material “obsceno” ou “violento” – como algumas revistas em quadrinhos – deveriam mostrar na capa o número do registro, o nome e o endereço do editor e a frase em destaque “Proibida para Menores de 18 anos”.

Nada menos que 104 títulos foram imediatamente proibidos. Até 1978, aproximadamente 500 livros e duas mil revistas tiveram sua circulação proibida. A partir de abril de 1973, com a Portaria 219, qualquer publicação do gênero deveria ter seu registro aprovado pela censura. Além de vendidas em sacos “hermeticamente fechados”, as revistas deveriam trazer na capa o número de registro, nome da portaria, da editora e o endereço, apenas para facilitar a fiscalização e prisão de alguém – o editor.

Alguns dos macetes da revista para driblar os censores incluíam publicar Sandra Bréa em decotes generosos

Antes de Status estrear, José Madeira, chefe da censura em São Paulo, mandou um ofício à Editora Três com uma lista de proibições quanto às fotos de mulheres com qualquer conotação sensual que já era aplicada em EleEla, revista da carioca Bloch Editores. O regulamento, dividido em quatro partes, determinava que só seria permitida foto com a exposição de “um seio apenas”, “estando o outro não visível, mediante qualquer recurso técnico (tecido, espuma de sabão, flanco, corte, escurecimento etc.). A exposição de “ambos os seios está totalmente PROIBIDA pelo Ministério da Justiça, que já forneceu instruções ao Diretor Geral do DPF/Brasília (para fazer a censura prévia da revista)”.

Nas chamadas “partes genitais” das mulheres fotografadas ou desenhadas, era “totalmente proibida qualquer forma de exposição, mesmo em sombra”. E as nádegas? “A exposição deve ser diluída através dos recursos técnicos supracitados ou outros equivalentes.” O regulamento da censura também incluía o uso de palavrões nos textos, legendas e cartuns: “Está merecendo atenção especial do Ministério da Justiça. Portanto, deve ser eliminado, mesmo que, aparentemente, haja ‘encaixe’ dentro da situação focalizada.”

Roupas molhadas e semitransparentes, como neste roupão que veste Susana Vieira, deixavam a nudez mais discreta

Esses fatos mostravam que, se em 1974 a censura afrouxaria o cerco à imprensa diária, ao suspender a “verificação” prévia nas redações – desde janeiro –, sua relação com qualquer aspecto ligado ao sexo ainda levaria muito tempo para ser amenizada. Mais que nunca, mulher “pelada” era um problema de segurança nacional, um tema indissociável do comunismo. A partir do segundo semestre de 1975, tanto EleEla quanto Status e Revista do Homem – as três maiores revistas dirigidas ao leitor masculino – se tornaram reféns da censura. Com o passar dos meses, cada vez que um novo número chegava às bancas, os ofícios com restrições vindos de Brasília mostravam a luta constante das editoras para até mesmo manter suas revistas em circulação.

Em 15 de setembro de 1977, o diretor do departamento de censura da Polícia Federal, Rogério Nunes, reforçou as restrições à nudez com mais um ofício às redações. Não seriam permitidas fotografias “fixando: a) atos sexuais; b) nádegas completamente nuas; c) seios totalmente à mostra; d) região púbica descoberta (sem sunga, tanga, biquíni ou qualquer peça de vestuário; e) modelos em poses lasciva (sic); f) relacionamento de homossexuais; g) indumentária transparente, permitindo visualizar partes íntimas do corpo”. Na mesma mensagem, vinha uma ameaça do censor: “A falta de observância dessas recomendações é revelada pela persistência dessa empresa em apresentar fotografias nas indicadas condições, apesar de cientificada das restrições a elas impostas.”

A estrela do pioneiro primeiro ensaio, com frases da protagonista do filme Emmanuelle

As restrições da censura levaram o editor de arte de Status, Marcel Richar Raillet, a desenvolver com sua equipe uma série de meios para fazer as fotos serem aprovadas – todo mês, um representante da editora ia a Brasília negociar textos e imagens com Rogério Nunes. A mais comum era o retoque de fotolitos, que exigia a busca de uma cor próxima à da pele da modelo e permitisse apagar o mamilo sem parecer um retoque grosseiro. Cada operação dessa tomava até três dias de trabalho. Quando não havia tempo, se colava uma foto menor e mais comportada sobre a parte vetada. Um recurso sempre usado nos três primeiros anos da revista foi a aplicação de frases entre aspas sobre o mamilo.

Jornalismo
Status nasceu como uma publicação sofisticada, para um público de formação universitária e classes média e alta, que apreciavam literatura, gostavam de saber de temas atuais de cultura e política e ler longas entrevistas. Como atrativo maior, óbvio, podia ver um pouco de sensualidade nas fotos rigorosamente censuradas de belas garotas. A publicação masculina que a Editora Três queria lançar seguia o modelo da Playboy, cujos direitos estavam sendo negociados com a Editora Abril. À frente estavam os editores Domingo Alzugaray e Luis Carta. Status iria longe e se tornaria uma das mais importantes revistas masculinas e de jornalismo do Brasil da década de 1970.

No editorial de estreia, Carta escreveu que pretendia levar ao público masculino toda a fantasia erótica que ele não encontrava no dia a dia. “Uma revista dedicada ao status. E muito mais ao seu significado. Mostrar a vida como ela é, possivelmente os seus aspectos melhores e mais profundos, o que todos desejamos ter, conquistar, sem receios de frivolidades ou sofisticações que somente são mal interpretadas onde existem recalques. Com a firme intenção de fazer ver o que de bom, de inteligente, de certo, o homem deve conhecer”.

O editor buscou qualidade com colaboradores conhecidos como Ignácio de Loyola Brandão e Paulo Francis e importou artigos de nomes consagrados internacionalmente, como o italiano Umberto Eco. A publicação chegou com a ambição de ousar no jornalismo, com entrevistas e reportagens que buscavam sempre o furo jornalístico. Foi nas páginas do primeiro número, por exemplo, que o leitor leu em primeira mão o capítulo de abertura do inédito livro Todos os homens do presidente, dos jornalistas norte-americanos Carl Bernstein e Bob Woodward, sobre o escândalo político que derrubou o presidente Richard Nixon (1913-1994).

Por causa dos vetos da censura, o número 1 trazia minguadas quatro páginas com fotos levemente sensuais da atriz Silvia Krystel, protagonista do proibidíssimo (no Brasil) e escandaloso Emmanuelle, que boa parte dos brasileiros sonhava ver nos cinemas – duas décadas depois, o filme seria classificado apenas de erótico “soft”. O material da atriz foi suficiente, porém, para esgotar a edição. A mesma atriz voltaria em dezembro de 1976 e ajudaria a consolidar Status com mais uma tiragem esgotada em poucos dias.

As fotos mereceram até um editorial. Segundo o editor, foram tiradas exclusivamente para a revista pelo fotógrafo Francis Giacobetti e só saíram depois de uma longa negociação com a censura que se arrastou por meses, tratada pelos editores Gilberto Mansur e Murcio Borges da Fonseca. As poucas imagens permitidas por Nunes foram publicadas com um único mamilo à mostra e, mesmo assim, escondido por uma frase da atriz em letras grandes e impressa sobre cada foto.

Nuno Leal Maia em ensaio de moda para a Status

Estrelas nuas
A edição com Sylvia Kristel apontou o caminho para o sucesso editorial de Status: tirar a roupa das maiores estrelas da televisão, do cinema e da música. Brasileiras, principalmente. Ou seja, as mulheres mais desejadas do País. Por anos, Status disputou a nudez de lindas mulheres com a Playboy brasileira (chamada de Revista do Homem até julho de 1978). Em suas páginas, apareceram nuas pela primeira vez Christiane Torloni, Angelina Muniz, Fafá de Belém e muitas outras. Inclusive Xuxa, antes de se transformar em apresentadora de programas para crianças.

Mas Status não tinha só mulher bonita. E muitas vezes desafiou a censura. Como, por exemplo, quando peitou os censores no segundo semestre de 1977 e publicou em capítulos, pela primeira vez sem cortes, o livro integral do Kama-Sutra, com suas posições sexuais. A repercussão na imprensa foi grande e levou à apreensão da primeira parte – editada com as páginas lacradas – em várias cidades do País. Mesmo assim, a editora não recuou. Política também era um tema importante e a revista se transformou numa tribuna para se pregar a abertura e a anistia dos presos políticos que tinham deixado o País. Por suas páginas, desfilaram com contos e novelas os maiores escritores brasileiros, como Jorge Amado, Osman Lins, João Ubaldo Ribeiro e Rubem Fonseca.

Dina Sfat foi uma das musas a mostrar sua nudez

Fim de censura
Um ofício enviado por Rogério Nunes, no dia 26 de fevereiro de 1980, às redações das principais editoras que publicavam revistas com nus finalmente acabou com a “censura moral e de costumes” na imprensa brasileira. Num texto truncado, ele informava que, a partir daquela data, a verificação prévia das revistas de sexo estava suspensa por ordem do ministro da Justiça. Como acontecera em janeiro de 1975, ao pôr fim à censura nos jornais e revistas, Nunes manteve a ameaça: “Os possíveis abusos e a inobservância das normas censórias vigentes serão atribuídos à exclusiva responsabilidade do editor.”

Os editores, claro, entenderam que, a partir dali, o nu frontal estava liberado. E nunca se publicaram, imprimiram e consumiram tantas revistas de sexo com mulheres totalmente peladas como no decorrer dos anos 1980 e 1981. No mês seguinte, Status saiu com uma edição especial “Sem censura”, de 100 páginas, com as fotos que tinham sido censuradas. Até o fim da ditadura, em 1985, a revista amargou apreensões por todo o Brasil por ordem de juízes de menores. Status viveu para ver o País cair na democracia e provar que mulher linda e nua nada tinha a ver com comunismo. Apenas com prazer.

Elke Maravilha não esconde nada