A SOCIEDADE SECRETA DO PRAZER

Festas em castelos e em mansões nas principais cidades do mundo fazem parte do roteiro do “Madame O Libertine Society”, um misterioso clube italiano que já promove eventos no Brasil. Nossa repórter esteve lá e conta como funciona essa espécie de mundo paralelo onde quase tudo é permitido

Por Mariana Onfray

 

AS SOCEDADES SECRETAS nasceram praticamente junto com a nossa civilização. Apesar da aura de mistério que as torna ainda mais atrativas ao longo do tempo, muitas delas não se escondem. Maçonaria, Cavaleiros Templários, Illuminati e Skull and Bones são alguns exemplos de diferentes sociedades secretas compostas por pessoas que tiveram – e ainda têm – acesso a determinados “mistérios” que envolvem de religião a sexo. Esses “sócios” acreditam que os segredos revelados a eles, ou por eles descobertos, não devem ser compartilhados com um mundo de pessoas vulgares e profanas, incapazes de compreender o que eles tanto cultuam. Desvendar esses segredos, portanto, é privilégio de pouquíssimas pessoas. Mas Status entrou nessa espécie de mundo paralelo ao participar de um encontro da sociedade secreta italiana Madame O Libertine Society, que, há seis anos, organiza festas fechadas no circuito Milão-Ibiza-Côte d’Azur (Cannes e St. Tropez)-Paris. São eventos inspirados no filme De olhos bem fechados, lançado há pouco mais de uma década pelo cineasta Stanley Kubrick (1928-1999).

Quando o filme foi reproduzido, muita gente ficou vidrada com a história que retratava as festas libertinas, como a que Bill Harford, personagem da trama interpretado por Tom Cruise, entra de bicão. Esses encontros fechados, com pessoas mascaradas, mulheres lindíssimas e muitos jogos de sedução e sexo, acontecem sempre entre as paredes de uma mansão ou castelo alugado para a festa, mas é proibido aos participantes comentar sobre o assunto. Uma amiga minha fugiu à regra e me falou sobre a Madame O Libertine Society, o que me deixou intrigada a ponto de ir atrás de informações. Segundo Alberto, fundador da sociedade e que não revela seu sobrenome (uma das regras do jogo), as festas da Madame O na Europa – até agora foram realizadas 28 – são sempre em lugares glamorosos, de preferência castelos, normalmente com 200 a 300 pessoas. “As outras sociedades libertinas têm conexão com o mundo da troca de casais, ou swingers. Nós não gostamos desse universo. Somos representantes de um reservado, exclusivo e internacional mundo libertino, dedicado a pessoas refinadas e que têm uma visão liberal e hedonista da vida”, diz ele.

No começo deste ano, aconteceu uma dessas festas em São Paulo – a terceira que eles fazem na cidade – e eu estive lá. Mas não basta querer participar. Para entrar em uma das festas da Madame O, é preciso preencher um cadastro no site http://madameo.com.br com dados simples e anexar uma foto de corpo inteiro (aqui as roupas ainda são permitidas) e outra de rosto, mascarado, uma das exigências do clube. Além disso, o candidato deve responder a perguntas do tipo: O que espera encontrar numa sociedade libertina? Que tipo de experiências sexuais você já teve? Como chegou até a festa? Finalmente, se for aceito, como eu fui depois de três meses, recebe uma senha por e-mail para ter acesso às partes secretas do site, que incluem perfis, como no Facebook. O e-mail, que funciona como um passe de entrada do evento, aparece em sua caixa de entrada no dia anterior à festa, com explicações básicas para iniciantes, que vão do traje adequado até o comportamento a ser adotado, passando por explicações de como é inapropriado encher a cara ou forçar alguma situação com outro participante. O mais esperado também chega nesse e-mail: o endereço da festa.

Comportem-se, meninas
Com o objetivo de fazer tudo o que puder antes dos meus 30 anos que estão chegando, convidei uma amiga adepta da mesma filosofia para me acompanhar. Seguimos as dicas fornecidas: vestidos elegantes (a ideia não é parecer uma garota de programa) e máscaras que nos transformavam em desconhecidas. Duas taças de rosé per capita e estávamos em um táxi, rumo ao endereço fornecido. Para aumentar a ansiedade, quando chegamos à rua especificada no centro de São Paulo, ali não tinha nenhuma festa, só um homem com uma fantasia caricata do século 18, que incluía até peruca branca, prancheta e rádio em mãos. “Bem-vindas”, disse ele. Entregou-nos um pedaço de papel enrolado, preso por uma fitinha, que tinha a intenção de parecer um pergaminho – quem organiza a festa deve ter um fetiche pelo século 18. No papel, estava escrito: “Vos espero na rua…” Enfim, o endereço correto!

Duas esquinas depois, chegamos a uma mansão da década de 1940. Na entrada, um homem de terno e máscara nos esperava para dar as boas-vindas: “Comportem-se, meninas.” Com o esforço de quem caminha por um campo minado, fomos direto ao porto seguro: o bar. Peço uma taça de espumante e resolvo deixar meus olhos passearem um pouco pela festa.

Pessoas mascaradas conversam em grupos, outras circulam enquanto cumprimentam umas às outras. Começo a divagar sobre sexo. Você já deve ter mentido, perdido uma noite de sono, gastado mais do que podia ou até mesmo jogado para o alto um relacionamento por causa deste sublime prazer. Eu, que já estive presente em todas essas alternativas, me encontrava entre um grupo de pessoas que se reúne com um único objetivo em mente: ter prazer sem nenhuma regra. Aliás, sobre regras, cada um inventa a sua, e, logo no começo da festa, descobri que deveria procurar pelas minhas. Pelo menos foi o que me explicou um casal com quem conversei por alguns instantes. Casados e com filhos, vieram do Rio de Janeiro. Elegeram como única regra não se separar. Queriam transar com outra mulher – que poderia ser eu, como vim a descobrir logo depois. Perguntei se eles transariam com outro homem, olhando diretamente para ele. “Eu faço qualquer coisa que me dê vontade”, disse ele.

Volto com o olhar para minha amiga e sua taça vazia. Estávamos visivelmente tensas. Decidimos criar coragem e nos separar um pouco, para ver se atraíamos algum tipo de approach mais interessante. Em uma sala, duas garotas contratadas pintavam o corpo uma da outra com pincéis, enquanto alguns convidados entravam na brincadeira e uma fotógrafa registrava tudo. Me encostei numa parede e fiquei observando. Um homem mascarado se aproximou e perguntou se eu iria pintar as garotas como todos faziam. Respondi que não estava nos meus planos e ele não conseguiu dizer mais nada. Definitivamente, o ponto forte da festa não eram as conversas. Que venha então a ação.

Àquela altura, muitos já estavam com as máscaras na testa ou tinham dispensado completamente o disfarce. Eu não quis me afastar da minha por nenhum minuto, nem mesmo quando uma mulher se aproximou de mãos dadas com um homem e pediu que eu tirasse. Respondi que fazia parte da minha fantasia e sorri. Enquanto isso, pessoas conversavam em círculos e gargalhavam, dando para perceber que era um evento gregário. Fora do ambiente, fui procurar minha turma, alguém que parecesse iniciante ou pelo menos não estivesse bancando a socialite.

Single lady
Uma mulher lindíssima, de vestido longo preto e máscara com plumas, extremamente elegante, estava sentada num pufe desacompanhada. Andei em direção a ela quando as garotas contratadas invadiram o salão principal e iniciaram o tal ritual, que havia sido mencionado no e-mail. Elas começaram a se beijar, se acariciar e simular uma cena de sexo que não deve ter convencido nem o mais tarado da festa. Depois do “show”, os casais – sim, eles eram a maioria na festa, e eu e minha amiga, a minoria (fomos como single lady, como é admitido no site. Homens solteiros são proibidos) – desceram as escadas iluminadas por velas e ficamos todos em um andar de três ambientes com camas, pufes e ventiladores.

Alguns casais começaram a se beijar, mas a grande maioria só circulava, de mãos dadas, pelos ambientes da casa. Menos de dez minutos depois, vi a primeira cena mais quente da noite: uma mulher ainda vestida estava sentada na beira de uma das camas e fazia sexo oral em um homem, completamente vestido. Senti um desconforto inicial, mas logo fiquei animada, a festa havia finalmente começado. Em menos de meia hora, núcleos se formaram e os agregados se entrelaçavam nas camas, cadeiras, pufes e até em pé. Numa das salas, um grupo de pessoas parecia estar encenando um conto do Marquês de Sade. Em outra, dois casais transavam lado a lado, enquanto as mulheres se beijavam, encenando uma coreografia de um balé sexual. Então, um dos homens começou a acariciar os seios da outra mulher e, sem muitas explicações, trocaram de parceiras. Assisti ao espetáculo por um tempo.

Reencontrei minha amiga engatada num papo com um casal. Me aproximei e em poucos segundos de conversa o marido abraçou sua mulher de um lado, minha amiga de outro e nos espremeu em uma tentativa de beijo quádruplo. Foi um desastre, as três recuaram, menos ele. Ninguém que vai a uma festa desse tipo espera romance, mas clima é indispensável. Resolvi abandonar o casal e minha amiga fez o mesmo. Convidei-a para assistir a uma cama que julguei ser a mais animada da festa. Era a mais afastada, fora da circulação geral, o fim da linha, em vários aspectos. Ali, três homens envolviam a mesma mulher, todos nus. Ao lado da cama, um cara, sentado em uma cadeira com as calças até os tornozelos, seduzia outra dama, montada de frente para ele, com o vestido na cintura, se remexendo em um vaivém violento que excitava os espectadores.

A essa altura, gritos tomavam conta do lugar e o dress code tinha sido substituído por calças abertas e vestidos na cintura. Eu e minha amiga nos perdemos uma da outra, cada qual indo buscar suas próprias experiências. Eu estava atrás das expressões dos rostos. Não há nada que me excite mais do que ver alguém agonizando, aquela doce agonia de prazer. Essa expressão não aparece em atores de filme pornô e ninguém fica bonito com esse sutil sofrimento. Mas é sexo de verdade, e era disso que eu estava a fim. E foi no meio de todos aqueles corpos nus, gemidos e suor que me dei conta de uma coisa: todo homem já teve uma orgia para chamar de sua, por mais bagaceira que fosse.

Já as mulheres, à sombra da moral, negam em nome dos bons costumes. E foi ali, rodeada de desconhecidos nus que entendi que aquela festa, que leva o nome de uma dama também, foi feita para mulheres. Afinal, esse tipo de experiência é um direito de todos. Já eram quase cinco da manhã e a festa já estava acabando. Puxei minha amiga pelo braço – que tinha um inconfundível sorriso – e entramos num táxi, de volta para casa.