CENAS OBSCENAS

Sussurros escandalosos no escurinho de um cinema do Quartier Latin

Por Reinaldo Moraes

Homens não podem fingir um orgasmo se não estiverem de pau duro

Homens não podem fingir um orgasmo se não estiverem de pau duro. E não podem ficar de pau duro se não estiverem com tesão, mesmo tendo tomado alguma dessas pilulinhas mágicas, cujo princípio ativo só funciona se turbinado por alguma dose de genuíno desejo sexual, certo? Já a mulher pode fingir um orgasmo, a hora que quiser. Um simples gel lubrificante introduzido na vagina antes do lesco-lesco pode ajudá-la bastante nesse mister, embora nem seja assim tão necessário, sobretudo se se tratar de um orgasmo fonográfico. É o caso da Jane Birkin, por exemplo, que não fez outra coisa diante de um microfone de estúdio de gravação, 40 anos atrás, ao coprotagonizar num dueto sexual com seu então marido e espantalho particular, o compositor, bebum profissional e anarquista da pá-virada Serge Gaisnsbourg, no Je t’aime, moi non plus, clássico romântico de bailecos, boates, motéis e programas de rádio de fins dos anos 60.

Era uma loucura o que tocava essa música em absolutamente todos os lugares. Até no mingau dançante da paróquia de Santa Rita de Cássia, em Carambolinhas do Sul, apesar da condenação enfática por parte das autoridades inquisitoriais do Vaticano. É que aqui no Brasil, apesar de todo ver – ouvir, na verdade – que tinha sacanagem da boa no lance, ninguém entendia o maluco do Gainsbourg narrando pra sua parceira sexual que “como a onda irresoluta, eu vou e venho entre teus rins”. (Comme la vague irrésolue / je vais et je viens / entre tes reins.) Esse era o espírito da época.

Aliás, grande Jane Birkin, inglesinha xantocroide gostosoide, a simular na música a gemeção orgástica de uma trepada em slow motion com o Gainsbourg, que já havia gravado a mesma música, de sua autoria, junto com a sua namoradinha anterior, que não era aquela sua prima bonitinha de Bauru, amigo leitor, nem a minha de Carambolinhas do Sul, mas ninguém menos do que a Brigitte Bardot, mora. Só que, terminado o affaire, La Bardot pediu ao Gainsbourg para não soltar a música, por ainda estar casada com o millionaire alemão Gunther Sachs, que talvez não apreciasse em demasia ouvir nos rádios sua famosa e trigostosa mulherzinha francesa soltando lânguidos ganidos a cada vez que o francesinho orelhudo, narigudo e baixinho entrava com fé e força entre seus rins. (Que bela imagem nefrológico-poética essa, pensa bem. Talvez você se anime a tentar essa fórmula com a próxima gata que for abordar numa balada: “Oooi! Tava muito afinzão de entrar aí no meio dos teus rins hoje, mina! Rola?” Escreva depois aqui pra redação contando o que rolou depois, ok?)

Danado, esse Gainsbourg. Preguiça de fuçar no Wikipedia pra saber mais sobre a bio dele, mas posso contar rapidamente o dia em que conheci o figura e sua então parceira, que não era mais nem a Bardot nem a ninfa Birkin. Não está na internet. E foi assim, meninos. Tava eu, no inverno de 1979, em Paris, vendo o começo do filme “Anjos de cara suja” (Michael Curtiz, 1938) num cineminha da rue Christine, no coração do Quartier Latin, quando um casal barulhento, gargalhento e pigarrento adentra o escurinho da sala. Necessário explicar que, em Paris, os cinemas de arte são reverenciados como templos do sagrado culto da alta cinefilia, onde o mais absoluto silêncio deve ser observado sob risco de apupos, porradas e uma eventual expulsão da sala, não raro aos pontapés. No mínimo o infrator será alvo de um “Ta guêle!” (“Cala a boca!”) por parte de dois ou três irados fiéis.

Daí que, ao ver aquele casal estuprando daquela forma insana o silêncio litúrgico do Action Christine – só dava pra ver as silhuetas dos dois arrulhantes pombinhos recortadas contra a luminosidade da tela –, com o filme começado, como se estivessem na geral do Pacaembu em dia de Mirassol e Corinthians, antevi nada menos do que um ato de execução sumária, rápida e indolor, para não atrapalhar a projeção. Talvez o cinema dispusesse de uma guilhotina portátil para essas eventualidades. Era inacreditável aquilo. E o pior é que os caras falavam francês com sotaque francês, levando-me à atilada suposição de que seriam franceses legítimos, muito possivelmente parisienses.

Foi aí que notei algo de escandalosamente errado na cena. É que ninguém na plateia abria o bico para apupar a buliçosa dupla. Nem um réles shshsh! E mais: logo quem estava cochichando numa indisfarçável excitação eram os próprios espectadores que estavam ali para ver mister Bogart e dona Anne Bancroft ainda jovens evoluírem em branco e preto no drama regido pelo futuro diretor de Casablanca. Seriam os recém-chegados alienígenas com poder de controlar a mente dos terráqueos cinéfilos da Rive Gauche?

Logo a dupla dinâmica se despia de seus pesados sobretudos e, avançando aos tropeços e risadas pelo corredor lateral, tentava vislumbrar na penumbra cinematográfica da plateia dois assentos para se abancar. Pensei lá comigo: Cazzo, não é possível que esses dois pilantras vão inventar de sentar bem aqui ao meu lado, onde havia justamente dois lugares vagos, sendo que num deles eu tinha aninhado meu próprio anorak. Não deu outra: depois de passarem pelo carinha que estava na ponta da fileira, o vulto da mulher chegou até o meu assento e soltou um “S’il vous plaît,” apontando para o meu casaco, que recolhi com visível contrariedade. Mas que salope! Onde já se viu tamanha desfaçatez? E os dois se sentaram finalmente, a mulher do meu ladinho direito, ambos sempre às falas e risinhos, muito mais ele, que de porre. Fiquei estimando quanto tempo se passaria até que alguém da fileira de trás sacasse um canivete e degolasse o casal, pelo que muito lhe agradeceria. Mas isso estranhamente não aconteceu.

O que de fato aconteceu é que, reunindo coragem para virar meu rosto na direção dos intrusos, vi que eu estava sentado ali no cinema ao lado de uma linda mulher que de tão parecida com a Catherine Deneuve, só podia ser a própria Catherine Deneuve, a qual, por sua divina vez, achava-se ao lado de seu pétit ami, o mesmo Serge Gainsboug do Je t’aime, moi non plus. Gainsbourg até me disse alguma coisa, que eu não entendi, mas que arrancou novas risadinhas da Deneuve. Incroyable!

Para dar um fast forward na história, vimos o filme até o fim, sempre sob os comentários em voz alta de dois maiores astros da cultura pop francesa de todos os tempos. Ao fim da película, já no foyer – e agora vai ser bem mais difícil você continuar acreditando na minha história, mas faça uma forcinha, que vale a pena –, Catherine e Serge (saca só a intimidade) foram abordados pelas duas ouvreuses (lanterninhas) do cinema, que por acaso eram minhas queridas amigas Sabine Moisan e Leilinha Simões (esta, uma carioquinha casada com Jean, irmão da Sabine), que sempre davam jeito de me deixar entrar de graça no Action Christine. Ao ver que eu me aproximava do grupo com a timidez de praxe, a atrevida e simpaticíssima Leilinha não perdeu oportunidade de apresentar aos dois artistas notre ami brésilien, Reinaldô. Gainsbourg me deu um rápido aperto de mão, dizendo-me algo que eu novamente não entendi, e La Deneuve prodigalizou-me dois beijinhos, um em cada bochecha, que nunca mais foram lavadas desde então. Virei eu um dos anjos de cara eternamente suja do filme do Michael Curtiz.