CONFIDENCIAL

Ele tem o maior orgulho em dizer que, em Sao Paulo, virou “o pai da Erika”. Em Belo Horizonte, ele ja era “o marido da Sheilla”.

Por Vivi Mascaro

 

Vivi ao lado de Walfrido

CABEÇA DE UM IMPÉRIO educacional que vale mais de R$ 1,4 bilhão (“hoje, nesta terça-feira17, exatamente agora, vale 1,448 bi”, diz ele, acessando no Blackberry o portal da bolsa de valores), ex-vice governador de Minas, ex-ministro do Turismo e, depois, de Relações Institucionais do governo Lula, Walfrido dos Mares Guia sabe tudo dos bastidores da política brasileira dos últimos 30 anos, mas gosta mesmo é de encarnar o tipo mineirão low profile e boa gente.

“A Erika me deu emprego e me botou na sociedade”, brinca, muito a sério, o pai coruja. Erika é hoje o glamoroso motorzinho à frente da M&Guia, herdeira da confecção que a mãe, Sheilla, abriu nos anos 80, no bojo da revolução fashion promovida pelo Grupo Mineiro da Moda. Até recentemente, as pessoas diziam da M&Guia: “É a Daslu de Minas.” Hoje, dá para dizer, sem desmerecer a original: “É a Daslu do Brasil.”

Encontrei Walfrido para almoço no Nonno Ruggero, a trattoria do Hotel Fasano. Dia frio em São Paulo – experiência que, me parece, é a última coisa que um mineiro gosta de ter. Ele trouxe mulher, filha e filho (Leonardo). Comemos um portafoglio de filé com um tinto do Dão. A conversa escorreu fácil, contrariando aquele mito de que mineiro fala pouco e esconde o jogo. Tão gostoso e revelador o papo que a gente acabou, em comitiva, se transferindo para aquelas poltronas de couro inglesas do lobby do Fasano. Walfrido abriu o coração. “Adoro política, mas não volto mais”, assegura, com certo ressentimento, mas ante a ostensiva aprovação (alívio?) da família.

Na época em que pendurou as chuteiras da política (indiciado por causa de um empréstimo que fez a um político amigo e acabou chegando às mãos do Marcos Valério, aquele do Mensalão), Walfrido frequentava não só o ministério mas também a copa e cozinha do Lula. Fim de semana sim, outro não, lá estavam ele e a Sheilla no Alvorada ou na Granja do Torto, as residências do presidente da República. “Ele sabe como ninguém separar o trabalho da família, fazia questão de, quando estava em Brasília, ir almoçar com a Marisa”, diz o ex-ministro. Nos encontros descontraídos, era um tal de Lula tratar Sheilla de “Sheilinha” e o próprio Walfrido adotou o casual “Marisa”, sem o protocolar “dona”, para a primeira-dama. “Mas o Lula eu nunca chamei de Lula, nem quando eu o assistia pescando jaú no laguinho do Alvorada.”

Noblesse oblige, até hoje ele diz “presidente” ou “senhor presidente”. Walfrido preserva a cerimônia porque só conheceu Lula, cara a cara, no próprio dia em que foi convidado a ser ministro. “Em 2002, apoiei o Ciro Gomes no primeiro turno, apoiamos o Lula no segundo.” Entrou no ministério na cota do PTB. “O Lula chamou, fui lá.” Empatia imediata. “Perguntei para ele: ‘Presidente, qual é o limite até onde posso ir?’ Ele entendeu: ‘Você tem toda a liberdade para nomear quem quiser. Só peço para não nomear só do seu partido.’” Sentiu firmeza. Descobriu, ali na hora, que Lula é um daqueles animais políticos de sabedoria especial. “Tive como mentor o Hélio Garcia (ex-prefeito e ex-governador de Minas). Ele ouvia, ouvia, mas a decisão era sempre dele. O Lula é da mesma estirpe. Ele é de uma genialidade absoluta. Gênio não é quem é capaz de pensar. É também quem é capaz de ouvir. O Lula aprende ouvindo.”

Nem na época em que estourou o drama do Mensalão – e que Walfrido, por sua habilidade de articulador, assumiu o ministério mais político do governo Lula – nem naquele momento, ele sentiu o Lula vacilar. “Acho que ele tinha um senso de missão”, pensa. “Se eu tivesse que definir o Lula numa única palavra, eu diria: gênio. O Lula é um gênio.” E a Dilma? “A Dilma, a Sheilla conhece desde adolescente. Eram vizinhas em Belo Horizonte. Posso dizer que é quase da família.”

Walfrido dos Mares Guia, o empresário, é um dos fundadores do grupo educacional Pitágoras (265.000 alunos, 17 faculdades, 720 escolas, seis no Japão, uma no Canadá). “Quando fui secretário da Educação de Minas, me acusavam de ser um ‘tubarão do ensino’. Agora, felizmente, as pessoas começam a admitir que educação também pode dar lucro.” Ele conta que é um engenheiro que nunca construiu uma casa, uma ponte. O começo foi como professor de matemática. Há testemunhas – e a Sheilla é apenas uma delas – de que Walfrido era adorado pelos alunos. Taí uma coisa mais difícil do que – como ele fez até poucos anos atrás – administrar deputados e senadores ansiosos por verbas: ensinar matemática e ser adorado pelos alunos.