ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ

Status foi à campo investigar o submundo da maior obra pública da Amazônia, a usina hidrelétrica de Jirau. Encontrou no interior de Rondônia uma terra sem lei marcada pela ação de pistoleiros, traficantes e cafetões, entre outros personagens em rota de colisão

 

Por Felipe Milanez e Pisco Del Gaiso (fotos), enviados especiais a Jaci-Paraná (RO)

 

Rua em Jaci-Paraná, distrito de Porto Velho próximo da obra de Jirau, concentra trabalhadores, criminosos e aventureiros em busca de diversão

Jaci-paraná, ou simplesmente Jacy , assim mesmo, com ípsilon –, é uma festa. Mas, para todos os que circulam pela vila do norte de Rondônia de quatro mil habitantes – que recebeu outras 16 mil pessoas por conta da construção da usina hidrelétrica de Jirau no rio Madeira –, Jacy é uma festa perigosa. Uma de suas principais vias, a chamada “rua do amor”, é iluminada pela fiação improvisada e neons coloridos de seus inúmeros bares. A luz reflete nas paredes de madeira dos botecos e brilha nas poças da rua de terra. Verde. Rosa. Azul. Laranja.Verde-claro e amarelo. “Parece época do garimpo”, comenta nosso motorista, ex-garimpeiro. “Melhor a gente ir embora.Câmera chama muito a atenção.” Há uma tensão silenciosa no ar.

Brega. Funk. Tecnobrega. Sertanejo. Em cada um dos bares, um estilo de música no mais alto volume. Cada um dos estabelecimentos tem também sua marca da violência que tem trazido notoriedade para Jacy. Em um deles, três pessoas foram assassinadas numa briga generalizada há poucos meses. Sete foram parar no hospital, esfaqueadas. Em outro, um grupo de extermínio que seria composto por policiais militares teria matado uma pessoa por encomenda – e, depois, mais quatro por terem sido testemunhas desse crime. Neusa, a dona do boteco onde estamos, o Pica-pau, nos serve uma cerveja. “Aqui, se a gente não sabe se defender, apanha. Se mostrar que é covarde, não vive.”

O Madeira, rio traiçoeiro, inspira respeito e lendas assustadoras entre os ribeirinhos

Assassinatos em brigas de bar. Execuções cometidas por esquadrões da morte envolvendo policiais militares e civis. Prostituição de mulheres. Tráfico de drogas pela fronteira com a Bolívia. Madeira ilegal. Grilagem de terras. A ficha é muito extensa para esse pequeno distrito de Porto Velho, a capital do Estado localizada a cerca de 90 quilômetros dali. “Com o poder econômico crescendo e o Estado ausente, vai haver mais mortes”, alerta o promotor estadual Pedro Abi-Eçab, integrante do Grupo de Atuação Especial de Combate a Organizações Criminosas, com quem conversamos em Porto Velho.

Disputa pela terra
Jacy ganhou as manchetes em março deste ano, depois de uma rebelião dos trabalhadores da construção da usina de Jirau. Mas há muito mais violência em Jacy do que aparece nos telejornais. No começo do século passado, a vila amazônica era uma parada da estrada de ferro Madeira-Mamoré para escoamento da seringa. Depois, entreposto de garimpeiros e, mais recentemente, sede de serrarias clandestinas. Em sua sina de fronteira econômica – onde curtos ciclos de prosperidade começam com a chegada de migrantes, avançam até a exaustão das riquezas naturais e terminam em colapso social e ambiental –, Jacy segue sendo um cenário inexorável de “Velho Oeste”.

Desta vez, é a construção da grande barragem, a maior obra do governo federal atualmente em execução na Amazônia, com investimentos da ordem de R$ 13 bilhões, que atraiu à região cerca de 22 mil trabalhadores. O empreendimento, assim como a outra usina do Complexo Hidrelétrico do Rio Madeira, Santo Antônio, superaqueceu a economia local, o que reverberou na valorização da terra. Daí para a explosão de disputas fundiárias e outros conflitos latentes foi um passo.

Testemunhas na mira
Pistoleiros ameaçam e caçam pequenos agricultores e pescadores, como Maurete Nogueira Gomes. Ele teve que fugir dali para sobreviver. Presidente do conselho comunitário local, fundado para garantir o pagamento das indenizações decorrentes dos impactos das obras, está exilado em outro canto da Amazônia, protegido por agentes de segurança. “Minha situação não é fácil. Tem pistoleiro, tem empresário. Sou obrigado a fugir às pressas por medo de morrer”, disse ele em vídeo gravado por uma ONG local. A comunidade temia que Gomes tivesse o mesmo fim do tesoureiro da entidade, Osmar Lima dos Santos, assassinado em novembro de 2009.

As investigações conduzidas pelo Ministério Público e pela Polícia Civil sobre o esquadrão da morte que assombrou a área apontam para o empresário de Porto Velho Mário Gonçalves Ferreira, apelidado Mário Português. Há outras mortes sendo apuradas, como a de Natálio Félix, testemunha da execução de Osmar. Foi assassinado antes de fugir de canoa pelo rio. Félix trabalhava para Isaías Cassiano, secretário do conselho comunitário, cujo corpo foi visto pela última vez na carroceria de uma caminhonete. O cadáver nunca foi encontrado.

Neusa, dona de um dos bares de Jacy, diz que na vila covarde tem vida curta

Seriam todos vítimas do grupo liderado pelo tal Mário Português, que estaria interessado nas terras habitadas pelos ribeirinhos para ser ele próprio o beneficiário das indenizações pagas pelo consórcio da obra. Para isso, teria contratado policiais militares como “seguranças pessoais”. Todos foram processados pelo Ministério Público no âmbito civil. Já as investigações criminais seguem sem conclusões e os envolvidos estão até hoje circulando livremente pela região.

Usina do amor
A destruição do canteiro de obras durante a revolta dos peões fez com que o consórcio responsável pelo empreendimento anunciasse a demissão de milhares de trabalhadores e que muitos negócios na região reduzissem o ritmo. A Usina do Amor, principal bordel localizado ao lado do canteiro de obras de Jirau, por exemplo, foi fechada pela Força Nacional em ato contínuo à revolta dos funcionários. “Estou pegando a estrada para Belo Monte, lá serei feliz”, diz Adão, o dono do inferninho, tal qual um cigano do amor.

O ex-garimpeiro Raimundo viu muitos corpos descendo o rio Madeira

Televisão, parabólica, sofá. Muitas garrafas empilhadas de Velho Barreiro formam uma pirâmide – “não vendo porcaria”, comenta Sônia, mulher do dono. O caminhão está cheio. Todo o resto em ruínas, incluindo a piscina e a churrasqueira. Os quartos de madeira estão sendo desmontados. “Eu vim para juntar R$ 1 milhão”, diz Adão, que ganhou, “limpinho, limpinho, R$ 50 mil por mês”, durante o tempo em que ficou por ali.

Traficantes infiltrados
Ele aposta que ainda pode ganhar muito dinheiro oferecendo serviços “de entretenimento” para os trabalhadores de grandes obras. A seu favor, o tédio nos alojamentos e o dinheiro coçando no bolso dos peões. “Mas é preciso saber escolher as meninas”, diz. Moças gaúchas e catarinenses, “lindas”, eram convidadas para o serviço. “Quando pensei em montar uma boate, quis fazer de Primeiro Mundo.” A Usina do Amor era um consórcio entre Adão e o dono da fazenda, seu Códi, que havia sido indenizado em R$ 700 mil pelos 80 alqueires de uma propriedade sua que será inundada pelas águas do reservatório da usina. Com parte do dinheiro (R$ 285 mil) comprou outros 100 alqueires às margens da BR-364.

Adão e Sônia (acima) tiveram seu bordel fechado após os distúrbios no canteiro de obras. agoram rumam para Altamira (PA) para ganhar dinheiro com Belo Monte

A Usina do Amor atraía todo tipo de gente. O maranhense Ronaldo, funcionário da Enesa Engenharia, empresa responsável pela construção da usina de Jirau junto com a Camargo Corrêa, diz ter ido duas vezes ao bordel do Adão. “Quando saía o pagamento, a peãozada ia toda”, lembra. Do dormitório, levava 15 minutos andando por um caminho mal iluminado e sinistro. “Era cheio de gente usando e vendendo droga ali.” Seu parceiro no bar reclama dos preços. “Tinha mulher que queria R$ 200! E meia hora só. E o meu pau, não vale nada?”, questiona o peão, indignado. A cocaína, amplamente consumida tanto nas festas quanto no canteiro de obras, custa R$ 10 a “paranga” e vem diretamente da Bolívia. “Tem muito traficante infiltrado e peão que vai buscar lá para vender aqui, só para ganhar a parte dele.”

Cidade fantasma
O rio Madeira é o maior afluente do Amazonas. Um rio imponente, assustador, que carrega árvores inteiras, muita lama, e 35% dos sedimentos do Amazonas. Os moradores da área evitam tomar banho nele, preferem a segurança dos igarapés. Às margens do caudaloso rio, entre a vila de Jacy e o canteiro de obras de Jirau, existe uma cidade fantasma chamada Mutum Paraná. Seus moradores vêm sendo desalojados para a vila planejada de Nova Mutum, espécie de mini-Brasília na Amazônia. Pouco lembra a vila original, a comunidade mais próxima da futura barragem e morada de pescadores e ex-garimpeiros. “Esse lugar onde vão construir a usina é muito perigoso. Morreu bastante gente lá”, avisa Raimundo, que passou 20 anos trabalhando em garimpos no Madeira, parando em Mutum apenas para se recuperar das incontáveis malárias. “Vi muitos corpos jogados no rio, que desciam e ficavam girando num lugar que chamamos de Caldeirão do Inferno”, diz o sujeito, que luta para ser indenizado pelos impactos do megaempreendimento, até agora sem sucesso.

Lendas amazônicas
As histórias e lendas em torno do rio Madeira e seus povoados se misturam ao longo do tempo neste canto da Amazônia. Mas tanto ficção como realidade se apresentam tingidas de sangue. Quando Jaci-Paraná foi fundada, no caminho da ferrovia Madeira-Mamoré, a via cortou o território dos índios karipuna, que entraram em guerra com os trabalhadores. Cerca de 30 mil índios podem ter sido mortos, assim como centenas de operários. Uma rebelião na época fez com que milhares de migrantes deixassem o canteiro de obras, sofrendo de malária e em péssimas condições de vida. A história popular conta que há um morto para cada dormente – um provável exagero, mas quem há de questionar quando tudo na maior floresta do planeta é superlativo? Com a colonização promovida pelo regime militar nos anos 1970, Jaci-Paraná começou a receber migrantes vindos do Sul. Mas a fronteira econômica demorou para chegar ao norte de Rondônia.

Na última década, a economia girava em torno do tráfico de drogas com a Bolívia, a grilagem de terras públicas e a venda de madeira extraída ilegalmente da floresta. O novo ciclo econômico dos empreendimentos hidrelétricos fez renascer o antigo hábito da pistolagem como forma de imposição da lei – e a revolta dos funcionários de Jirau aumentou ainda mais a voltagem de violência na já conflituosa região. Os trabalhadores, claro, estão no centro da briga. Desde que a situação convulsionou-se, são revistados diariamente por homens da Força Nacional ao chegar ao trabalho. “Vim aqui para trabalhar, mas tratam a gente como presidiário”, diz um deles ao sair do ônibus, na entrada do serviço.

Desde que se rebelaram contra as condições de trabalho, os funcionários de Jirau encaram revistas diárias por parte de homens da guarda nacional ao chegar ao serviço

A fama de Jaci-Paraná e de seus personagens do submundo avança pela Amazônia e pelo mundo afora. Com ela, o preconceito contra as pessoas que foram para lá em busca de um sonho: melhorar de vida. Dias depois de o canteiro de obras ser destruído, uma menina em Porto Velho ouviu de um colega mais velho na escola: “Cala a boca senão eu vou chamar um peão de Jirau.” Ela chegou em casa e perguntou para sua mãe se um “peão de Jirau” viria mesmo buscá-la. A garota tremia.