A CEO MAIS GATA DO BRASIL

Não menospreze Cristiana Arcangeli. Por trás do rosto bonito, se esconde uma das executivas mais talentosas do país. Além de criadora da grife Phytoervas, é uma empreendedora em série

Por Vivi Mascaro

 

É UM PERIGO FAZER para Cristiana Arcangeli aquela perguntinha dos encontros sociais – “E aí, Cris, alguma novidade?”. Novidade é com ela mesma. “Sou movida a desafios, vivo me transformando”, diz. Cristiana, que fundou e foi por 12 anos corpo, alma, coração e mente da grife Phytoervas, acaba de dar mais uma pirueta empresarial e lançar a beauty’in (assim mesmo, com inicial minúscula), linha de balas de colágeno, cubinhos de cereais com poderes antioxidantes e antiflacidez e chás que aliviam da ressaca à TPM. São, ao mesmo tempo, alimento e cosmético. Daí o nome “aliméticos” – que Cristiana inventou e registrou para ninguém se apropriar.

“É uma novidade revolucionária esse conceito de beleza que vem de dentro, que tem a ver com alimentação e saúde, produtos complexos, testadíssimos, que não existem em lugar nenhum do mundo”, diz ela. “E a próxima, não vai contar?”, cutuca o namorado, Álvaro Garnero, que acompanhou nossa conversa nos curtos intervalos em que o celular o deixou em paz, e vice-versa. “E aí? Conta” – insiste Álvaro, a meu favor. Bem, saí da conversa sem saber qual será esta novíssima cartada, mas percebi nas entrelinhas que deve ser alguma coisa relativa ao fim da cláusula de non competition que ela teve de assinar ao vender, em 1998, a Phytoervas – e que agora caducou.

Novidade relativamente recente é o próprio Álvaro Garnero, bonitão de raro pedigree (é filho do empreendedor Mario Garnero e descende, por parte da mãe, Ana Maria, do clã carioca dos Monteiro de Carvalho). O encontro foi do tipo coup de foudre, instantâneo, recíproco, tanto que Álvaro logo se mudou para a casa dela, no Jardim Europa, em São Paulo, levando o filho Alvarinho a tiracolo. Agora Cris e Álvaro tramam, entre beijos que não acabam mais, uma festa de casamento para antes de 2011 acabar. “Vamos convidar uns 200 amigos”, ela se antecipa. Sendo assim, não deve ser no Brasil. Seus amigos não cabem no estádio do Morumbi nem no Maracanã. Será o terceiro casamento da empresária. Cris já tem duas filhas do primeiro.

Desde que abandonou a Odontologia pelos cosméticos, nos anos 1980, Cris e beleza andam juntas. Ela podia ser o próprio display, o outdoor, a cara (e o corpo) de tudo o que faz. Malha todas as manhãs na academia de casa, o que compensa um ou dois copos de vinho, eventuais noitadas em clubes (“cada vez mais raras”) e o descompromisso com dietas radicais (“como o que gosto”).

“Ser bonita ajuda ou prejudica nos negócios?” – a pergunta é obrigatória. “Não ajuda nem prejudica”, ela afirma, com conhecimento de causa. “O que acontece é que os homens gostam, numa mesa de negociação, de testar a mulher, ver até onde ela vai, se ela se intimida…” “Aquela velha história da burrinha?” – eu interrompo. “É, mas, se você responde à altura, se mostra que sabe o que está fazendo, os homens passam a tratá-la com respeito e até admiração.” Cantadas na hora do expediente? “Que me lembre, uma vez, no Rio, um cara me convidou para almoçar e, no caminho, me perguntou: ‘Mas você quer almoçar mesmo?’. Eu ironizei: “É melhor não, né?’”

Beleza chama moda e, não por acaso, Cris está nos primórdios do fenômeno que hoje se multiplica numa infinidade de fashion weeks. O Phytoervas Look of the Year nasceu em 1993 quando ela soube que John Casablancas, o dono da Elite, queria vir para o Brasil. Cris patrocinou. “Queria vender meus produtos para o Exterior e achei que a moda era um bom veículo”, diz ela. Sabem o Paulo Borges, hoje, a cara do São Paulo Fashion Week? Cris o lançou como diretor do evento. Enumere aí os estilistas brasileiros do primeiro time, e você verá que muitos deles – Walter Rodrigues, Alexandre Herchcovitch, Fause Haten – começaram ali. E foi na passarela do Phytoervas que debutou uma certa Gisele Bündchen.

A venda da Phytoervas, cinco anos depois, é desses cases antológicos em que a sensibilidade da mulher dá de goleada nas artimanhas do homem. “Eu estava tranquila, não queria vender. Eles é que queriam comprar”, lembra. Eles: o megalaboratório americano Bristol-Myers. Se não fosse assim, seria de dar calafrios na espinha. As negociações envolviam, de um lado, uns 40 senhores carrancudos, advogados de Wall Street, economistas do Swissbank, representantes do escritório brasileiro Pinheiro Machado; e de outro, “quatro gatos pingados”, incluindo a própria Cristiana e o sábio e perspicaz advogado Renato Ochman.

Para assegurar o sigilo (Cristiana tinha 600 funcionários, 18 mil pontos de venda e faturava mais de R$ 100 milhões/ano), a CEO gata pegava o avião para Nova York às sextas-feiras, trabalhava sábado e domingo e voltava na segunda direto para o escritório. “Como era fim de semana, os americanos anunciaram que o dress code seria casual”, recorda. “Pensei comigo: cada um entende casual a seu jeito”. Decidiu arrasar. Aconselhou Renato Ochman a pôr a melhor gravata e o melhor terno (o que, no caso dele, um gentleman à inglesa, não foi nem um pouco difícil) e foi, ela própria, vestida para matar – quer dizer, para impressionar. O que era uma negociação duríssima virou um derretimento só. Os gringos fecharam negócio rapidinho para pedir o champanhe e brindar efusivamente com aquela deusa do Olimpo.