CONFIDENCIAL

“Eu era feia, magricela, tímida, tinha vergonha do meu tamanho, me sentia queixuda e modelo era a última coisa que eu queria ser… Mas aí…” (Marcelle bittar)

Por Vivi Mascaro

 

SE EXISTE ALGUMA MODELO mais antimodelo do que Marcelle Bittar, eu não conheço. Ela não usa jeans com All Stars, não namora modelo (“nunca namorei, Deus me livre!”), não frequenta a noite, é meio bicho do mato, adora ficar em casa, tem poucos (“mas ótimos”) amigos, gosta de relações estáveis (como a que mantém há dois anos com o empresário Juca Drummond) e, na verdade, lá no fundinho, nunca quis ser modelo.
Diz que resistiu enquanto pôde quando menina, relutou mesmo quando o sucesso bateu à porta e, hoje, mais madura, com mais de dez anos de carreira nas costas, ela encara o ofício como “um business, é onde ganho dinheiro” – o que não significa que ela não se comporte com exemplar profissionalismo, até com uma nítida vocação de workaholic.

E olhem que estamos falando aqui de alguém que – ao contrário das 99,9% das meninas que se candidatam, em vão, à ilusão de uma vida de glamour, viagens de primeira classe, motorista à disposição, dinheiro fácil e, quem sabe, até um príncipe encantado – reinou e ainda reina nas melhores passarelas, com contratos de exclusividade de um Saint Laurent, de um Givenchy, xodozinho da Vuitton, estrela do perfume Dolce & Gabbana, o rosto exótico e seu 1,79m de esguia beleza estampados em capas e ensaios de Vogue, da Bazaar, de Elle, de Vanity Fair, nove anos de moradia no epicentro da indústria, Nova York, e ainda hoje numa frenética ponte aérea NY-SP.

Você conversa com ela e até parece que tudo aconteceu por acaso. Em Garapuava, no Paraná, onde nasceu, “cidadezinha tão pequena que as pessoas sabiam tudo umas das outras”, a última coisa que a Naninha queria – desculpem, mas é o apelido carinhoso que dou a ela há milênios – era frequentar aquele curso de modelo que abriu ali. A mãe insistiu: “Você é tímida, vai lhe fazer bem.”

Acreditem: Marcelle era, sim, muito tímida, se achava feíssima, “era queixuda e magrela, tinha espinha no rosto”, cresceu rápido demais – “e o resultado é que, na escola, ganhou “todos os apelidos que se possa imaginar”. O mais cruel de todos – “pau de virar tripa” – a deixava tão desesperada que ela foi adquirindo aquela curvatura nas costas bem típica de uma body language envergonhada. Haja pilates, até hoje.
Mas o mundo conspirava a favor – quer dizer, a vocação espreitava, para dar o bote. Deixou-se convencer a entrar no Elite Model Looks, aos 14 anos, em nome de sua cidade natal. Foi para Curitiba e venceu. Na fase nacional, em São Paulo, não chegou nem entre as 20 primeiras. 1997 foi uma safra excepcional de modelos brasileiras que iriam alimentar a mística das Brazilian tops – que começava a bombar nos Estados Unidos e na Europa. Giselle é de 1995, Alessandra Ambrosio, de 1996, mas 1997 é o ano que revelou ao mesmo tempo a Isabeli Fontana, a Ana Beatriz Barros, a Michelle Alves (capa desta edição de Status) e, claro, Marcelle Bittar.

(Ela chegou a morar em Nova York num apartamento de modelo com Ana Claudia Michels, Carol Bittencourt e, depois, Fabiana Semprebom, todas Brazilians, certamente a maior concentração de beleza por metro quadrado de Manhattan, quiçá do mundo).  Mas, no início, a relutante Naninha só foi em frente – “minha mãe disse, ‘tenta, se gostar, fica, se não gostar, volta’” – porque caiu nas graças do mitológico Eli Hadid, da agência Mega.
Ainda assim, teve de ouvir desaforos como o da booker que insistia: “She is not special.” Paris e depois Nova York fizeram a gringa queimar a língua: “She is very special”, proclamaram, de repente, em coro, ao descobrir aquele rosto talhado por dotes de Michelangelo, com o detalhe final do caprichoso furinho no queixo. “O mundo da moda é assim: basta uma pessoa influente gostar de você, as outras todas automaticamente passam a gostar de você.”

E, ao contrário, onde está o perrengue: no empresário, no fotógrafo ou no estilista? “A moda é muito ego, mas também tem gente confiável, e é imprescindível ter cumplicidade com seu booker”, explica. “Não existe a melhor agência do mundo, existe o seu melhor booker”.
Fotógrafos, Marcelle já desfilou para a lente dos mais badalados, do festivo Mario Testino (“o estúdio dele é sempre aquela zoeira, com seus assistentes lindos”) ao lendário Patrick Demarchelier, a quem ela concedeu o seu primeiro – e até aqui único – nu. “Aos 17 anos, fiquei tímida, ele fala com aquele sotaque carregado, eu vestia apenas um sapato Marc Jacobs, mas o resultado ficou incrível.” Com Terri Richardson, fez um topless. “Foi divertido”, diz ela. “Hoje, aos 29, erotismo não é problema para mim.”

A Naninha ganhou dinheiro com a carreira (sei que tem mais de um apartamento) mas sempre foi muito desencanada. “Disse não muitas vezes”, diz ela, “sou meio rebelde”. Mas, ao dizer sim, leva o trabalho às últimas consequências. Certa vez, estava posando para a dupla Mert & Marcus numa campanha da Vuitton, nos Alpes suíços. Inverno rigoroso, e ela, no alto de uma rocha, trajando vestidinhos floridos da coleção de verão. “Faltou vento e ainda por cima ligaram um daqueles ventiladores gigantes em minha direção”, lembra. “Eu era menina, pensava, “afinal, estou aqui fazendo Vuitton, não tenho por que me queixar’.” Não aguentou e caiu lá de cima. Jogaram-na numa banheira de água quente. “Achei que ia me quebrar toda, ficar craquelée.” Você olha hoje a pele de pêssego da Naninha e acredita que nenhum risco, nada, em tempo algum, nenhuma intempérie, poderia afetar aquela beleza.