LUISA

 

O SONHO DE LUISA MORAES é ser atriz em Hollywood. No caso dela, não é só sonho – é uma realidade ao alcance da mão. Ela tem um agente em Hollywood, estudou arte dramática e cinema por três anos e meio em Los Angeles, tem o mais lindo, mais rasgado sorriso que já apareceu por lá desde Julia Roberts e fala inglês com um sotaque East Coast de fazer inveja a 90% dos americanos; inglês muito melhor do que o de Ronald Reagan – desculpem, péssimo exemplo –, de Arnold Schwarzenegger – pior ainda – ou de uma Juliette Binoche – embora a gente até desculpe na francesinha aquele “r” sensualmente rascante.

Luisa é atriz, quer dizer, descobriu-se atriz, melhor ainda, ralou para se tornar atriz, menina fina, rica e chique desde o berço, e hoje, na maturidade precoce de seus 25 anos, sabe muito bem o que quer, e também o que não quer. Esse tráfego duplo na ponte aérea Brasil-EUA é particularmente fácil para quem se alfabetizou em inglês, do maternal à high school. Viveu dos 4 anos aos 15 com os pais, primeiro em Los Angeles, depois em Westport, Connecticut, a uma hora de Nova York, um daqueles subúrbios exclusivos dos jet setters gringos.

“Aos 12 anos, já tinha este corpo e esta altura (1,72m)”, diz ela. Vivia recebendo threat e-mails, mensagens anônimas com ameaças por parte das coleguinhas, temerosas da concorrência francamente desleal. Ela própria nunca quis namorar o quarterback do time da escola e preferia fazer o tipo tomboy – aquela menina que joga futebol com os meninos.

De volta ao Brasil, a beleza de tirar o fôlego acabou por fazer dela modelo, não de passarela, mas de editoriais de moda, “mesmo porque sou italiana de biótipo (e de origem, pelo lado Colaferri da mãe), tenho quadril largo, o que aliás não me incomoda nem um pouco”. Muito menos a nós, Luisa, muito menos a nós.

Na verdade, ela queria ser arquiteta, a percepção do patrimônio de sua beleza é coisa que só vem com a maturidade, “assim como a perda da virgindade”. A beleza franqueou para ela, de novo, o permanente vai e vem entre São Paulo-Nova York-Los Angeles, o que Luisa adora fazer, mas também cobra o preço do que ela chama com todas as letras de preconceito. “Para muita gente, a mulher ou é bonita ou é inteligente”, reclama. “As pessoas nem ouvem o que você diz, só prestam atenção no que você é.”

Luisa estudou piano dez anos, toca (“arranho”, ela prefere) violão e canta. É dela a voz deliciosa, com aquele conveniente tempero de rouquidão, que está na trilha do filme para iPad desta edição de Status. Ah, as letras são também de Luisa, poesias da lavra dela musicadas especialmente para o deleite da numerosa confraria de Status. Ela escreve em inglês. Em tempo: Luisa também fotografa e foi com a máquina a tiracolo que ela seguiu três dias depois desta entrevista para Cuba, empurrada pela sua insaciável curiosidade intelectual.

Dá para brincar aquele jogo Onde está Luisa? De repente, Havana, no mês seguinte Nova York, aí São Paulo (“aqui, muda tudo, acordo cedo, faço exercício, terapia, mas também adoro ficar em casa e com a família”), de novo Nova York, quem sabe Paris ou Roma (“ah, preciso morar na Itália, falar italiano”), para variar, Nova York. Tem um irmão, João, que mora lá, na bacanérrima vizinhança de Williamsburg, no Brooklyn, e, claro, isso facilita. “Da última vez, era para ficar cinco dias, fiquei dois meses”, lembra. No dia 19 deste mês, ele estará de novo lá, no IX Gala da Brazil Foundation, uma ONG voltada para o desenvolvimento social. Luisa faz parte do comitê das festividades.

“Tenho um objetivo na vida, mas gosto de viver sem compromissos, sem estereótipos, estou aberta a todas as tribos, europeus, americanos, cubanos, rappers, clássicos, street artists, businessmen”, diz ela. “Estou livre, quero aproveitar ao máximo essa sensação, sem amarras, vivendo intensamente cada fase de minha vida.” Quando morava em Los Angeles, estudava muito (fez coaching de atriz com o badalado Cameron Thor), tinha carro, apartamento, contas a pagar, tudo certinho – “voltei para o Brasil com uma malinha de roupa”. Esse jeito irrequieto, hiperativo de Luisa, sua versatilidade incontrolável encontram guarida na profissão que ela elegeu. “Já pensou: seis meses filmando em locação, depois três meses em LA, depois mais três meses em casa?” Esta é sua ideia de felicidade.

Alice Braga, prima dela por parte de pai, já fez a América. Luisa Moraes está abrindo seu próprio caminho. “O ator pressupõe conviver com pessoas diferentes, com culturas diferentes, com hábitos diferentes”, ela sintetiza. Ela adora gente. Quer dizer, faz uma ressalva: “Pessoas que respeitam as outras.” O respeito é a base das relações humanas – inclusive as afetivas. “Amor é química, não dá para prever ou programar, mas tem de haver respeito mútuo. Aliás, respeito deve valer em tudo, meio ambiente, respeito com o dinheiro público… Ai, lá vou eu falar de política!”

Ela não faz parte da facção feminina que acusa os homens de terem perdido a graça, a gentileza, até o interesse real pelas mulheres. “Eles existem, eu me cerco de muita gente legal.” Se ela tem alguma queixa é a de que os homens estão ficando muito iguais entre si. “Gosto de quem me surpreenda.” Quem aconselha isso é alguém que, ela sim, tem um delicioso repertório de surpresas.

 

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