NUAS POR UMA CAUSA

Elas não têm a mínima vergonha de protestar. Status conversou com as russas e as ucranianas mais desinibidas do Leste europeu e mostra como o ativismo político pode ser gostoso

 

Por Fabrícia Peixoto

 

Com os seios de fora, as ucranianas do Femen reclamam do valor pago pelo gás importado

ERA FINAL DE TARDE e o movimento na Praça Pushkin, no centro de Moscou, seguia em ritmo frenético. A regra de sobrevivência, ali, é sempre caminhar rapidamente e, de preferência, sem se distrair. Mas, naquela quinta-feira de agosto, quem parou para olhar não se arrependeu: Veronika e Anna estavam bem ali. Pernas compridas e seios fartos, as duas beldades locais começaram a tirar a camiseta. No vai e vem da praça, muitos reduziram o passo, quase parando. E as russas, uma loira e uma morena, felizes com a atenção do público, abaixaram o short lentamente. Como se não bastasse, de biquíni e salto alto em plena luz do dia, elas ainda agacharam para apanhar algo invisível no chão, arrebitando seus derrières. Com direito a caras, bocas e muita, muita pose sexy. Conto erótico? Que nada! Essa é a disputa presidencial pegando fogo na Rússia. Veronika e Anna tiraram a roupa em praça pública para demonstrar seu apoio ao presidente Dmitri Medvedev, que deverá tentar a reeleição no ano que vem. As Garotas de Medvedev, como têm sido chamadas, são rivais do Exército de Putin, formado por moçoilas que também tiram a roupa como prova de sua admiração ao atual primeiro-ministro, Vladimir Putin, outro provável candidato à Presidência. “Estamos dispostas a fazer tudo por Medvedev”, diz à Status Alisa Mesheryakova, 25 anos, líder do fã-clube do presidente.

As jovens são adeptas de um movimento cada vez mais comum por aquelas bandas: o strip-tease político – ou militância das peladas, como queiram. A ideia é simples: sair às ruas não com faixas e cartazes, mas com os seios de fora. Além das russas, as ucranianas também estão fazendo história nesse tipo de ativismo político. “É a única forma de prestarem atenção”, diz à Status Inna Schevchenko, 20 aninhos e principal ativista do grupo Femen, da Ucrânia, um dos precursores da modalidade. Inna não deixa de ter razão. Cada vez que as garotas do Femen agendam um protesto, suas imagens correm o mundo. Melhor ainda quando o governo aciona a polícia para detê-las. Em situações de confronto, essas ucranianas acabam sendo agarradas por homens fardados. Para elas, esse instante é uma espécie de clímax do protesto. Os fotógrafos vão ao delírio. E o Femen ganha o dia.

Sim, é um protesto: ativistas do Femen usam um chafariz, em Kiev, para reclamar de um corte no abastecimento de água

Tanto as russas quanto as ucranianas garantem não receber um tostão pelo strip. As Garotas do Medvedev parecem até se ofender com a pergunta. “Nunca aceitaríamos dinheiro”, diz Alisa. O princípio, diz ela, é o do amor à causa. Essas militantes não chegam a ter uma ideologia, projetos para o país, nada disso. O que move essas jovens é a adoração às figuras de Putin e de Medvedev aliada a um forte desejo de aparecer. Os dois líderes são extremamente populares no país, venerados por um batalhão de jovens como dois popstars. Mas o que chama a atenção mesmo é essa mistura um tanto improvável de figuras políticas com garotas gostosas. A mensagem de convocação para um dos eventos pró-Putin dizia: “Vamos tirar a roupa por ele!” No local e na hora marcada, elas foram além do strip e decidiram lavar alguns carros sortudos que estavam por ali estacionados. O esfrega-esfrega fez bastante espuma, e elas, de biquíni, aproveitaram para brincar com aquela bagunça toda, numa explosão de sensualidade ao ar livre.

Mas, afinal, como elas se organizam para tirar a roupa em praça pública? Os convites costumam circular durante dias pela internet, sobretudo em sites de relacionamento e no YouTube. Em geral, os próprios convites já vêm com algum recadinho sexy. A última ideia do Exército de Putin, por exemplo, foi mostrar uma loiraça, seios enormes prensados num decote, com o convite estampado na camiseta (difícil é acreditar que alguém vá prestar atenção na mensagem, mas tudo bem). Outra tarefa imprescindível é avisar os fotógrafos. Apesar de definirem o movimento como algo espontâneo, tanto as moças de Medvedev como as de Putin sempre dão um jeitinho de chamar a imprensa. E, para deleite dos russos, quanto mais mulher aparecer, melhor. Tirou a roupa, tá valendo. Mas existe um certo padrão entre elas: jovens entre 20 e 25 anos, universitárias e desinibidas. Suas fotos de perfil na internet são, em geral, posadas e insinuantes. “Elas querem brincar de modelo. Estão se divertindo com a exposição”, resume um jornalista russo radicado em Nova York.

Fãs de Putin lavam carros, de biquíni

 

Pura exposição
No ano passado, 12 estudantes de jornalismo da principal universidade de Moscou ficaram famosas exatamente assim. Vestidas em lingerie sexy e com pinta de pin-ups, elas estamparam um calendário em homenagem aos 58 anos do primeiro-ministro: “Vladimir Putin, nós te amamos. Feliz aniversário”, dizia uma estudante seminua na capa. O que parecia mais uma iniciativa por amor a um político logo se revelou uma estratégia de marketing. A ideia nem havia partido das garotas, mas sim de um marmanjo: o publicitário Vladimir Tabak, 23 anos. “As meninas até gostam do Putin, mas nossa intenção era a exposição, o ganho comercial. Nada a ver com a política”, diz ele à Status.

Já no Femen, a coisa é diferente. O grupo tem mais de 300 militantes, mas apenas algumas delas estão autorizadas a ficar peladas durante os protestos. Segundo Inna, há uma “discussão interna” para decidir quem poderá ou não desfilar pelas ruas da Ucrânia com os seios de fora. Ela nega que o critério seja o da mais gostosa. “Não é só isso. Tem a questão do preparo para o confronto” (realmente, pelas fotos dá para ver que as moças do Femen têm um ótimo preparo).

Durante os anos da Cortina de Ferro, que dividia o socialismo da antiga União Soviética do capitalismo americano, a disputa era tensa, ganhando inclusive o apelido de Guerra Fria. As russas parecem ter aprendido com o passado, mas essa nova disputa está longe de ser como aquela. Ao contrário, a guerra entre elas está bem quente. O Exército de Putin chegou a ponto de lançar uma campanha para atrair novas adeptas. A moça que enviasse o vídeo mais original, tirando a roupa, ganharia um iPad 2. Só não ficou claro quem bancaria o prêmio, já que o grupo garante ser uma iniciativa popular, sem nenhum apadrinhamento político. Aliás, os próprios Putin e Medvedev nunca demonstraram qualquer tipo de retribuição ou agradecimento às garotas. Pelo menos não que a gente saiba.

 

 

Mulheres de peito


Esbarrar com uma protestante seminua não é privilégio de russos e ucranianos. Pelo menos uma vez por ano, as simpatizantes do movimento feminista Go Topless, dos Estados Unidos, saem com os seios de fora para reclamar da desigualdade: “Se eles podem andar com o peito nu, por que também não podemos?”, questionam. Apoiamos a causa.

“Queremos exportar o movimento para o Brasil”

Principal ativista do grupo Femen, a ucraniana Inna Shevchenko é considerada um dos ícones da militância do strip-tease. Fotos suas com os seios de fora, em meio a protestos, já rodaram o mundo. Em conversa com a Status, por telefone, a loira fala em exportar esse conceito de militância – inclusive para o Brasil.

Status – Como você se transformou na principal ativista do Femen?
Inna – Eu era estudante de jornalismo e conheci a Anna (fundadora do grupo) e logo vi que meu papel era participar ativamente do movimento. Eu não conseguiria ficar sentada diante de tantos problemas. E, de tanto participar, de tanto ser fotografada, acho que me tornei a principal ativista do grupo.
A que tipo de problema você se refere?
Vários. O Femen foi criado para lutar contra a desigualdade entre homens e mulheres. As mulheres ganham menos, não têm voz, não têm espaço na Ucrânia. Aqui a mulher é objeto. A prostituição, por exemplo, é ilegal, mas o governo faz vista grossa. Está interessado em vender a mulher ucraniana para o resto do mundo. Mas também lutamos por diversas outras causas.
Não existe o risco de prestarem mais atenção nos seus seios do que na causa do grupo?
Existe, mas compensa. Não teríamos ganhado a projeção que ganhamos se não tivéssemos tirado a roupa.
Algumas jovens na Rússia têm seguido a mesma estratégia. A moda pode pegar em outros países também?
Por que não? Estamos pensando em treinar mulheres em outros países da Europa para que elas usem a mesma estratégia de protesto do Femen. Inclusive já discutimos essa possibilidade para o Brasil.
Brasil?
Claro . Vocês brasileiras são lindas. Se tirassem a roupa durante os protestos, tenho certeza de que o mundo prestaria mais atenção nos seus inúmeros problemas.