CONFIDENCIAL

O QUE UM EMPRESÁRIO DO PORTE DE MARIO GARNERO FAZIA ALMOÇANDO COM A MISS CHINA E SUA ENTOURAGE UM POUCO ANTES DO CONCURSO MISS UNIVERSO EM SP?

Por Vivi Mascaro

 

MARIO GARNERO, pai do Mario Bernardo, do Álvaro, do Fernando e do Pipo, faz negócios em 28 línguas. Compra, vende, incorpora, intermedeia sob o guardachuva do seu grupo Brasilinvest, que existe há 35 anos.

Quem conhece MG sabe que ele está longe de ser um sujeito ganancioso. Ele gosta mesmo é de praticar a arte sutil da diplomacia empresarial. MG é uma mini- ONU em pessoa. Já teve inimigos impiedosos, de muito poder, mas não guarda mágoa de ninguém. Adora, isso sim, cultivar amigos influentes. Mas muito do que faz é por mera gentileza.

Dias atrás recebeu para um almoço, em sua torre de vidro, lá do alto da avenida Faria Lima, em São Paulo, Miss China e sua entourage. Dá para acreditar que um empresário do porte de MG possa gastar o seu precioso tempo compartilhando um atum com ervas e um chazinho-verde com uma candidata a Miss Universo? Pois é; Mario Garnero gasta.

Sant Chatwal e Bill Clinton

Bob Kennedy

Arnold Schwarzenegger

Pergunto a ele por quê. Como as histórias que MG sempre conta, esta pode começar em Nova York, no jantar de gala da Fundação Cartier, passar por uma magnífica townhouse em Sutton Place, prosseguir em telefonemas para Xangai, Beijing e – logo vocês saberão a razão – Madri e convergir, enfim, para esse almoço em São Paulo, com ele de anfitrião.

A Miss China, Luo Zilin, tem 1,82 m, sorriso rasgado, inglês perfeito, humor surpreendente e uma tutora, espertíssima, Yue-Sai Kan, meio chinesa, meio americana, empresária do mundo dos cosméticos, apresentadora de tevê e celebridade no circuito Nova York-Xangai. Ela deu a Luo Zilin o nome – Roseline – e ensinou hábitos do Ocidente. É de Yue-Sai o brownstone de Sutton Place, num dos endereços mais trendy de Nova York.

O encontro de MG e Yue-Sai em Manhattan foi formal mas ela sacou do cartão de visitas dele, tempos depois, para pedir um amparo de mídia para a protegida, já que o concurso de Miss Universo este ano seria em São Paulo e Yue-Sai tinha um bilhão de motivos para sonhar com a vitória de Luo Zilin (vocês quando lerem isso já saberão se deu ou não certo). Garnero disponibilizou desinteressadamente tempo e agenda e os tapetes vermelhos se estenderam, de imediato, aos pés da Miss China. Foi tão bem tratada que a organização do concurso acabou por desconvidar Álvaro Garnero do júri – ele que, no entanto, nem sabia que seria jurado ao conhecer a chinesa. Ridículo o concurso.

Príncipe Andrew

Dilma

Desinteressado, sim, o cavalheirismo de Mario Garnero, mas acontece que ele é do tipo que fareja longe uma boa oportunidade e bastaram duas ou três dicas de Yue-Sai para começar a arquitetar um negócio do tamanho da China. Juntou-se à Wise Key, empresa mega de segurança e administração de informações via web, movimentou suas fontes financeiras na Suíça, pegou o telefone e ligou para Florentino Peres, presidente do Real Madrid.

“O Real Madrid tem 400 milhões de seguidores nos sites do clube só na China”, explica MG. “Só o Cristiano Ronaldo tem 80 milhões. Ali pode ser uma mina de recursos. Você clica, passa a pagar”. Yue-Sai aconselha cobrar um renminbi por assinatura-ano. Um renminbi corresponde a 60 centavos de real. “Com esse preço, vocês terão 500 milhões de acessos”, calcula ela. Aí, foi Yue-Sai quem deu conselhos de graça. O negócio está sendo fechado.

Mario Garnero descobriu a China em 1981 quando o país ainda nem sabia se continuava sendo uma ditadura comunista ou um capitalismo bem temperado. Chegou à frente de uma delegação da Confederação Nacional da Indústria, da qual era presidente, 20 empresários e dois jornalistas (Miguel Jorge, à época no Estadão, chegou a ministro da Indústria e Comércio do governo Lula). Apresentou a China à Petrobras e à Vale. Fincou em Beijing um escritório do Brasilinvest que durou três anos.

Lula

Giovanni Agnelli

Papa Bento XVI

Embora esteja especialmente apaixonado pelo Oriente, o estilo pé no jato de Mario Garnero não cabe num só país, a pátria dele é o planeta, tanto que é capaz de decifrar pela body language, pelo gestual e até pelo silêncio o código do comportamento de cada povo numa mesa de negociações.

“Americano é pão, pão; queijo, queijo”, começa ele. “Japonês traz para a reunião um time grande, discute, discute, mas é jogo de cena; tem um só que decide.” Italianos? “Têm a incrível capacidade de botar tudo a perder no último minuto, no último detalhe, no último centavo.” Já o francês “é um negociador difícil, gosta de uma fofoca, de botar um contra o outro”. Seja como for, com a experiência de quem tem quase três dezenas de sócios para administrar, Garnero acha que todos os povos se parecem quando passam a falar a linguagem universal dos negócios: a do lucro.

Conversar com MG é estar preparado para ouvir coisas como: “Veio me visitar o presidente do Tastaristão, que tem a segunda maior reserva de petróleo da ex-União Soviética…” ou “Na palestra que vou fazer dia 19 em Harvard…” ou “Almoçou comigo na semana passada o CEO da Azul…” ou “Compro hoje um Rauschenberg pelo preço de uma Beatriz Milhazes” ou ainda “Prefiro o inverno aqui ao verão em Cap Ferrat”.

Ronald Reagan

Mario Garnero

Cap Ferrat, na Riviera francesa, é o lugar onde ele desmente, ou tenta desmentir, a impressão generalizada de que o trabalho é, para ele, o único e autêntico lazer. O fanático de aeroporto, que viaja 100 dias por ano, pode ali, na villa beijada pela brisa do Mediterrâneo, lembrar que a vida é feita não apenas de investimento, câmbio supervalorizado, impostos abusivos e custo Brasil. “Tenho a casa há 45 anos”, diz. Claro que o telefone não para. “Os melhores negócios surgem por acaso, quando a gente não procura por eles.”