O PÊNIS, ESSE GLORIOSO FACTOTUM

Virilidade, prazer e procriação são algumas das bandeiras hasteadas no mastro

Por Reinaldo Moraes

 

UM BELO DIA, LÁ PELO FINAL DA MNINICE, você acorda de pau duro. Lá está o mandrová ereto a te dar as boas- vindas ao admirável mundo da sexualidade. A primeira ereção, para o homem, é o ato fundante de sua identidade ontológica. O velho mote racionalista do dr. Decartes, Cogito ergo sum (“Penso, logo existo”), na era pós-freudiana virou “Pênis, logo existo.” E, acredite, digo isso sem a menor jactância machista. É só uma constatação quase banal.

O assunto é antigo. Japoneses e hindus, por exemplo, idolatram há milênios esse ícone da fertilidade e do prazer que é o pirilau. Se você for a Kawasaki, província de Kanagawa, no Japão, no primeiro domingo de abril, vai topar com desfiles de alegres japas carregando andores em que repousam enormes estátuas de pênis eretos apontados pro céu. Trata-se do Kanamara Matsuri ou Festival do Falo de Aço, denominação que remonta a uma lenda segunda a qual um demônio sacana se escondia na vagina das jovens beldades do lugar para castrar às dentadas os incautos que se intrometiam por ali. Até que um ferreiro teve a brilhante ideia de forjar um falo de aço para trincar os dentes do demônio.

Pelo sim, pelo não, se você for conferir in loco o Kanamara Matsuri e se engraçar por uma guria local a ponto de ser ver na cama com ela, convém fazer-se preceder por um dildo ou qualquer fruta bananiforme, antes de introduzir nela o seu ペニス,que é como se escreve pênis em japonês. (Como se pronuncia? Não sei. Que tal piroka?) Na pior das hipóteses, uma boa dedada já quebra um galho. Antes perder um dedo que o ペニス, né!
Entre os hindus, é ainda hoje muito popular o culto ao lingam, ou falo, símbolo da potência criadora, da fertilidade e, cá entre nós, da velha e boa sacanagem. Existe até uma seita por lá, dos lingavantha, cujos membros trazem um ícone em forma de lingam pendurado no pescoço. Já ouvi em algum lugar a tese de que a gravata ocidental seria uma adaptação tardia desse lingam de pescoço. Não poria minha mão no fogo pela veracidade dessa tese e muito menos meu ペニス na boca daquele demônio japonês, mas, de qualquer forma, é melhor não ter isso em mente na hora de dar o nó na gravata. Pode causar certa aflição nos temperamentos mais sugestionáveis.

Não muito tempo atrás, a velhice, certas doenças cardiovasculares e a prostactomia radical arrolavam-se (ôps!) entre as grande inimigas do orgulho peniano. A farra acabava ali. Mas, hoje em dia, a desfrutável fase genital da sexualidade masculina só termina, a rigor, com a morte do cisne, ou melhor, do ganso – ou ainda, mais precisamente, de seu dono. Digo isso pensando não somente no livre acesso a substâncias já bem manjadas, como sildenafil, tadalafila e vardenafila, presentes nos remédios antidisfunção erétil à disposição dos lingans recalcitrantes e mesmo dos mais serelepes. Mas também na nova geração de drogas injetáveis que cumprem sua missão com incrível rapidez e eficiência, mesmo que o cidadão esteja fazendo seu imposto de renda ou assistindo a um vídeo sobre a vida dos pinguins imperadores na gelada Antártida. É o caso da papaverina, da fentolamina e da admirável prostaglandina. Aplicadas diretamente na base da glande, elas são capazes de fazer Tutankamon levantar do sacófago, ele e seu cetro real, mesmo que o faraó esteja envergando um empoeirado fraldão geriátrico.

Um amigo meu, setentão, que teve de deixar a próstata no hospital e ainda pagar por isso, usa o bagulho regularmente e me mostrou a seringuinha com as ampolas, acondicionadas numa caixinha de isopor. Ele jura que a injenção, autoaplicável, não dói nada e funciona que é uma beleza. “É uma picada na pica e ripa na chulipa, velho,” afirma o trêfego geronte (tal podia ser, aliás, o slogan publicitário do prodígio injetável. Fica a sugestão). Você só precisa arranjar uma boa desculpa para se trancar por alguns minutos no banheiro antes de fazer sua gloriosa rentrée em cena, todo lépido, fagueiro e teso feito um pau-ferro.

Enfim – e aqui chego ao ponto onde imagino que queria chegar –, vamos combinar que, com ou sem drogas pró-priápicas, é verdadeiramente enorme, quase massacrante, a carga de responsabilidade depositada nesse mítico apêndice masculino. E com a agravante de que o homem tem de arcar com essa responsa praticamente até o fim de seus dias na Terra. Esse mesmo velho amigo meu, que tem um filho de 13 anos de seu último relacionamento com uma mulher bem mais jovem que a anterior, às vezes lamenta sua longevidade sexual. “Vou ter que pagar colégio pro Tiaguinho até os meus oitenta anos. Se não mais,” diz ele.

Mas vai perguntar pro meu septuagénio cumpadre se ele preferia ter passado os últimos 10 ou 15 anos lendo Platão e fazendo tai chi chuan pra terceira idade. Não precisa perguntar, eu sei a resposta: “Nem fodendo!” Ou seja, nem fodendo ele teria preferido ficar sem foder, com o perdão pelo meu francês. E haja pílulas e seringas. E, sobretudo, tesão. A mulher pode até ter a tal da “inveja do pênis”, diagnosticada pelo dr. Freud, mas pelo menos não tem de carregar esse piano todo nem quando jovens nem quando velhas. Como bem observou a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo: “O pênis reúne os conceitos de procriação, prazer, virilidade e paternidade. Na mulher, eles estão separados entre o clitóris (prazer), útero (procriação), vagina (gênero) e seios (maternidade)”. Quer dizer, é muita responsa prum ペニス só. Não é à toa que o carregam em triunfo pelas ruas de Kawasaki uma vez por ano.

Hay!