PRAZER E CASTIGO

Você pagaria para ser escravo de uma mulher e, em troca, receber muita porrada? Conheça alguns fiéis adeptos do masoquismo no Brasil e suas irascíveis dominadoras

Por Andrea Dip

 

Quando Dommenique abre a porta de seu flat, em uma região nobre de São Paulo, sua beleza perturbadora se apresenta envolvida por um minivestido colado de látex preto, corset, botas de salto alto e cabelos ruivos soltos sobre a borracha. Ao fundo, porém, a cena guarda um ruído, que compete com o jazz que sai pelo aparelho de som: no canto oposto da sala, um homem com uniforme de doméstica, meias finas, sapato estilo scarpin, camisa de força de couro preto e máscara cobrindo totalmente a cabeça permanece encolhido no chão. Em uma pequena mesa, chicotes de diferentes formatos, palmatórias, coleiras, algemas e máscaras deixam o ambiente mais surreal. A voz rouca de Billie Holiday é interrompida pela anfitriã: “Esta é Amanda, minha ‘sissy’. Ela vem para me servir, limpar e arrumar minha casa sempre que preciso. Ela cuida de mim. Diga oi, Amanda!” Mas “Amanda” não pode se mexer. Sob a mordaça, tampouco falar. “Ela estava um pouco agitada, ansiosa, então a deixei quietinha ali no canto” explica Dommenique, a dominatrix.

A “sissy”, por sua vez, é Paulo, advogado de 38 anos, divorciado e pai de dois filhos, que, há três meses, é “escravo doméstico” de Dommenique. Suas atribuições: lavar a louça, arrumar a casa, limpar os saltos dos sapatos de sua “dona” com a língua, passar óleo nas roupas de borracha e “tudo mais que a minha rainha quiser”. Após libertar o escravo, a soberana ordena que ele lamba o salto de sua bota, sirva-lhe champanhe, ande de quatro e se posicione de pé, com os braços sobre o batente da porta, para um castigo com o chicote. Ao contrário de suas ações, as palavras de Dommenique são doces e animadoras. “Como ela é minha sissy, não uso humilhação verbal. Ela só é castigada quando merece. Mas quase sempre é uma boa menina” explica a moça, dando um tapinha na máscara de borracha de Amanda, ajoelhada a seus pés.

Paulo e Dommenique são os dois lados de uma moeda que corre silenciosa no mundo dos fetiches sexuais menos ortodoxos: o BDSM (bondage, disciplina, dominação, submissão, sadismo, masoquismo), que se baseia na imposição do dominador (sádico) sobre o escravo (masoquista). O termo sadomasoquista nasceu da junção do nome de dois escritores do século 19: Marquês de Sade, francês cujo principal livro é Os cento e vinte dias de Sodoma, e Leopold von Sacher-Masoch, austríaco que escreveu A Vênus das peles, em 1870. Enquanto Sade falava sobre os fetiches dominadores, Masoch pregava o amor submisso, sofredor e passivo. Há quem diga, porém, que o sadomasoquismo tem muito mais de 200 anos e seria parte da natureza humana. Citam o fato histórico de que, na Grécia antiga e em Roma, escravos sexuais eram objeto de livre comércio.

Seja qual for seu berço, o sadomasoquismo é hoje uma prática estabelecida entre quatro paredes e inclusive conta com clubes e confrarias de seguidores. Também alimenta vasta literatura, principalmente na internet. Ainda assim, segue sendo tratado como comportamento complexo, misterioso e rodeado por tabus. O emaranhado moral conta ainda com inúmeras vertentes e variações, fetiches e subfetiches, que vão desde os famosos spanking (surra), podolatria (adoração dos pés) e bondage (amarração) até os mais incomuns, como dogplay (fazer o escravo de cachorro com máscara e tudo), feminização (vestir o escravo de mulher com salto, roupa, peruca) e inversão de papéis. Isso sem falar nas práticas escatológicas (que envolvem fluidos corporais).

Paulo é escravo doméstico de Dommenique, para quem deve obediência e uma série de obrigações, como limpar a casa, lavar a louça e lhe servir champanhe. Detalhe: ele paga por isso

Mas, seja qual for a linha seguida, todas prezam pela sigla SSC: são, seguro e consensual. Em um dos sites mais completos a respeito do tema, o gasmask.wordpress, o autor, que tem fetiche por máscaras de gás, explica que tudo é possível no BDSM, desde que se siga a regra da sigla SSC. “Qualquer ação que não tenha esses três elementos não é BDSM, é violência doméstica.” Citando um praticante de nome Mestre Jot@SM, diz: “BDSM sem liturgia é somente sexo com porrada.” Para que os limites de cada um não sejam ultrapassados, dizem os iniciados, existe sempre uma palavra de segurança acordada entre as partes, que deve ser usada quando o escravo quer parar a brincadeira porque a dor está um tanto além do suportável.

“Passei muito tempo procurando uma rainha com o conhecimento e a cultura dela. Quando sou chamado, paro na hora o que estou fazendo e venho. Tenho a sorte de ter flexibilidade no meu trabalho”, explica o advogado Paulo. Ele é um exemplar de homem adepto do BDSM que, ao encontrar sua rainha perfeita, paga tributos das mais variadas formas (em dinheiro, em recarga de celular, limpando e arrumando a casa, servindo de motorista) para ser dominado, amarrado, vestido de mulher e maltratado. Mas a regra é clara: na maioria das vezes não há sexo envolvido. “Dominadora não é garota de programa”, explica Dommenique. “Nós fazemos dominação física e psicológica e, inclusive, existe uma liturgia de que, para a mulher dominar o homem, ela tem que denegrir seu pênis. Mas, para mim, isso não é regra. Vou de acordo com meu prazer do momento. Se eu quiser usar o escravo como objeto sexual, vou fazer.”

A mulher conta que faz dominação profissional há pouco mais de três anos, mas está envolvida com o assunto desde muito antes. “Já na adolescência eu comecei a testar meus namorados. Queria saber os limites, até onde me deixavam ir. Eu sou sádica e fetichista. Gosto de brinquedos, roupas de látex e também de ver as reações do corpo quando exposto à dor. Ver um homem se contorcer depois de uma chicotada me deixa extremamente excitada”, diz.

O fetiche, também por razões financeiras, não é para qualquer um: a sessão de uma hora com uma verdadeira “domme” chega a custar R$ 1.500, dependendo das preferências do freguês. Nos sites das moças há tudo detalhado: as práticas que elas fazem ou não fazem, as preferidas – umas gostam mais de fetiches, como roupas de látex e máscaras, outras gostam mais de humilhação física e verbal, spanking, etc. –, como os novatos devem tratá-las, os presentes que mais gostam de ganhar e as condições para se tornar um escravo.

“Não atendo homens com menos de 30 anos porque dificilmente eles têm padrão financeiro e cultural para manter um relacionamento com uma rainha”, diz Gold, gaúcha como Dommenique, que pratica dominação profissional há cerca de dois anos. E, continua ela, mesmo quem pode pagar tem de passar por uma peneira feita por meio de um questionário por e-mail e contatos telefônicos prévios. “Meu reino, minhas regras”, diz a dominadora. “Se o cara tem voz de taradão, nem continuo a conversa.” Seu escravo, José, um taxista de 40 anos, diz que exercita o fetiche há oito anos e nem pensa em ter um relacionamento “baunilha” – apelido dado pelos adeptos de BDSM para namoros e casamentos convencionais.

De sunga e máscara de cachorro, José conta que usa cinto de castidade quando sua “dona” manda e jura que é escravo de uma rainha só: “Mas tem muito escravo por aí que serve a várias rainhas e elas nem sabem…”, fofoca ele, para valorizar sua fidelidade. José acredita que o mundo se divide em submissos e dominadores. Jura que pode classificar pessoas na rua apenas olhando o modo como andam, falam e se comportam. “Adoro provocar mulheres dominadoras até tirá-las do sério, só para merecer castigo. Sou submisso masoquista.” Na sessão com Gold, o taxista foi amarrado dentro do armário, serviu de banco, capacho e apanhou a valer. Durante o processo, gemeu, pediu perdão e misericórdia, mas, brioso, não disse a palavra de segurança. “Não troco isso por nada”, disse ele, realizado depois da sessão.

Gold e seu escravo José em ação: fidelidade a um estilo de vida que é o oposto do que chamam de “relacionamentos baunilhas”, como casamentos e namoros convencionais

No BDSM, as rainhas podem ter quantos escravos pontuais ou fiéis quiserem. Podem, inclusive, ser casadas e viver uma “vida baunilha”, como é o caso da paulista Narcisa, 30 anos. Mãe de um menino de três anos, ela é casada com um homem que não gosta de ser dominado e não participa do “passatempo”. Por outro lado, ele diz não se incomodar com os escravos de sua esposa. “Eu conheço alguns deles, às vezes a gente sai para tomar uma cerveja, jogar futebol”, diz o marido.

As dominatrix contam que o perfil dos homens que as procuram é quase sempre o mesmo: 40 anos de idade, casados e donos de cargos de chefia em empresas. “São homens poderosos, que mandam em muita gente, geralmente odiados por seus funcionários”, define Dommenique. “Eles sabem que são odiados e precisam externar a culpa, querem uma contrapartida física rápida e pragmática. Procuram uma psicóloga, uma mãe de santo ou uma dominadora”, filosofa. Para ela, os escravos não abrem os fetiches para as esposas porque precisam de um relacionamento novo e diferente para se soltar. Seu escravo, o advogado Paulo, diz que até tentou levar a ex-mulher para festas BDSM, mas ela não aceitou. “O preconceito ainda é muito grande. Ninguém sabe desse lado B da minha vida, nenhum amigo ou familiar. Mas acho que isso vai durar pouco. Os valores vão mudando ao longo dos anos”, aposta o advogado.

Narcisa acompanha a evolução do BDSM no Brasil e jura que o movimento está crescendo. Mas ressalva que as práticas ainda são vistas como algo underground: “As pessoas associam BDSM à violência, obscuridade, obscenidade. Apesar de toda a preocupação dos adeptos mais engajados em tentar acabar com esse estereótipo, o que normalmente aparece é o lado “freak show”, vinculado à bizarrice, ao escatológico e à insanidade. E, por medo de serem estigmatizados, os sadomasoquistas se retraem e se escondem para vivenciar seus prazeres, aumentando ainda mais a noção pejorativa do submundo fetichista e, por tabela, alimentando o preconceito alheio.

Coleira, jaula, cera quente e porrete fazem parte do arsenal de Narcisa para realizar uma sessão com um de seus escravos

Para a terapeuta sexual Raquel Penteado, especialista em sexualidade humana pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, as práticas são saudáveis enquanto não se tornem fixação: “O que difere o normal de uma patologia é a fixação. Se a pessoa só tem prazer nas relações sadomasoquistas, algo pode estar errado.” A especialista concorda com Dommenique: “Quem gosta de ser humilhado quer se livrar de alguma culpa, a submissão está relacionada a isso. Já o sádico projeta a própria culpa no outro para puni-lo.”

A internet, claro, é terreno fértil para centenas de blogs e sites brasileiros direcionados ao público BDSM. As páginas ensinam e discutem as práticas e esclarecem a chamada liturgia, que remete a antigos rituais religiosos. Os mais comuns são diários de escravos dedicados a suas donas e sites de dominadoras (e alguns poucos dominadores) profissionais.

Para quem se animou, “Amanda”, a sissy de Dommenique, dá a dica: “Primeiro pesquise bastante a respeito, visite sites europeus, descubra como uma rainha deve se portar e depois escolha a sua. Então se esforce para ser escolhido por ela. Cuidado com as falsárias. Se está procurando apenas sexo com tapinhas, sinto muito, mas este provavelmente não é seu mundo.”