SOLDADO FASHION

Estilo e tecnologia de ponta são as armas dos designers que criam os uniformes do exército americano

Por Fabrícia Peixoto

 

O ZUM-ZUM DAS MÁQUINAS de costura, as linhas pelo chão, os rolos de tecido e os rabiscos sobre a mesa de madeira dão aquela impressão de se estar num ateliê de Nova York ou Milão. Mas basta olhar uma segunda vez para ver que o cenário não é bem esse. Alguns passos à frente, um manequim recebe jatos de fogo dentro de uma estrutura de vidro, e ainda assim sua roupa sai praticamente intacta. Num canto estão armas pesadas, capacetes e coletes à prova de balas. Definitivamente, esse não é um estúdio de moda comum. Trata-se de uma das salas do Grupo de Design, Padrões e Protótipos (DPPT, na sigla em inglês) do exército americano – a maior força militar do planeta, com mais de 500 mil homens em serviço mundo afora. Todo esse contingente, mais os 380 mil empregados na Guarda Nacional dos EUA, veste o que sai das cabeças e mãos dos estilistas do DPPT. Isso inclui desde a escolha da estampa do uniforme até, por exemplo, a definição do material mais indicado para uma roupa antibomba.

Engana-se quem imagina um ambiente frio e hostil neste centro militar da cidade de Natick, em Massachusetts. Apesar da sigla um tanto ameaçadora, o DPPT é um centro de criação tocado por um simpático time de jovens designers, que estão mais para Project Runway do que exatamente para um centro militar. A começar pela chefe do grupo: loira, cabelos quase na cintura e batom de cor forte, Annette LaFleur é uma figura que, a princípio, parece estar no lugar errado. Formada em moda, vem de uma família de artesãos: a bisavó desenhava corpetes nos anos 30, a tia de sua mãe era costureira de vestidos de noiva, enquanto outros da família trabalhavam em fábricas de tecido. Durante a faculdade, pensava em desenhar biquínis, não coturnos e capacetes. Não que a loira tenha alguma frustração por conta disso. “Amo este lugar”, diz ela à Status. “Se depender de mim, não saio daqui”, completa a líder do time, numa fala que mistura satisfação profissional e um certo orgulho nacionalista.

Logo em seguida, Annette passa a listar alguns dos modelitos desenvolvidos por sua equipe. Um deles tem um nome de arrepiar qualquer estilista: colete tático externo aprimorado, uma vestimenta à prova de balas que chega a pesar 15 quilos. Outra peça é o capacete avançado de combate, bem mais fino que seus antecessores e, que protege inclusive contra balas de rifle. Em casos como esses, o processo começa com uma conversa com os próprios militares, que apontam o que precisa ser criado ou melhorado. Depois de inúmeros rascunhos, os designers passam a discutir o tema com o pessoal de pesquisa de materiais e com fornecedores, até que um protótipo ganha vida. A partir daí uma primeira leva de 50 a 100 peças é entregue aos soldados, para teste. Depois de idas e vindas para ajustes, voilà: surge um novo acessório militar.

Mas nem sempre a coisa é assim tão complexa. Existem inúmeros detalhes que um soldado no Afeganistão jamais iria perceber – e que ainda assim consomem dias de discussão no DPPT. Como recentemente, quando a equipe de Annette decidiu reduzir drasticamente o uso de velcro nos uniformes e substituí-los por botões. Questão de estilo? Nada. O velcro é simplesmente escandaloso demais para uma tropa que precisa trabalhar em silêncio. Sem contar o fato de que o carrapicho tende a ficar muito sujo em ambientes empoeirados, como no deserto. “Foi melhor mesmo voltarmos ao bom e velho botão”, conta Annette.

Num estúdio de moda militar, o utilitarismo é o que fala mais alto. Tudo é pensado para facilitar (e até salvar) a vida de um oficial. Mas isso também não quer dizer que o soldado precise ser um sujeito mulambento. Ao contrário: existe uma carga de imponência em torno de uniformes militares que não é ignorada pelo DPPT. “Sabemos quanto o visual é importante. As roupas e os acessórios têm de ser bacanas, algo meio cool”, diz a chefe do grupo. Não que Annette e seu time estejam exatamente preocupados com as passarelas, mas o fato é que muita coisa pensada naquela sala em Natick também acaba exercendo certa influência na moda de rua. Não é de hoje que estampas camufladas e coturnos fazem a cabeça de muita gente descolada. “Adoro observar como as pessoas interpretam o visual militar com um tom atraente e até sexy”, conta Magdalena Mulherin, uma das designers. Aliás, a equipe vem trabalhando em um novo uniforme feminino, um pouco mais afeito ao corpo delas, com cintura elástica e um ajuste extra na altura dos seios, respeitando a anatomia das mulheres. Marc Jacobs deve estar de orelha em pé.