AMAURY JR.

Aos 64 anos e prestes a completar 30 de tevê, o entrevistador das baladas fala das gafes, do assédio das mulheres e da falta de glamour das festas de hoje

Por Fabrícia Peixoto

 

É manhã de segunda-feira, dia e horário ingratos para o humor de qualquer um. Mas especialmente para Amaury Jr. “Hoje eu não tô legal”, diz logo de início, já acendendo um cigarro em seu escritório, no bairro dos Jardins, em São Paulo. Aquela figura animada, que costuma aparecer nas madrugadas da tevê aberta circulando pelos mais variados eventos, demonstra um certo cansaço. “Parece uma maravilha, mas é um trabalho. E às vezes enche o saco”, resume o jornalista, que aos 14 anos já fazia a coluna social do colégio onde estudava, em Rio Preto, interior de São Paulo.

Amaury pede o terceiro café. Fala com nostalgia da década de 70, das festas no Gallery, e da época em que escrevia na Status. Com mais de 30 mil entrevistas no currículo, ele se descreve como um sujeito “eletrificado” – nem mesmo os 20 anos de antidepressivo deram conta de uma ansiedade extrema. Tenta disfarçar, mas ainda se magoa com as críticas a ele e a seu programa. Durante a conversa, bate na mesa, irritado, quando fala das suspeitas de que suas aparições nas festas sejam pagas. “Desafio alguém a dizer que cobrei por isso.”

Alguns cigarros a mais e a rabugice vai passando. Amaury ainda reclama – da falta de tempo para cortar o cabelo, do assédio nas festas, das falsas celebridades, do pouco que se lê no Brasil – mas já é capaz de dar algumas risadas. Como ao relembrar o “mico” de ter sido enganado pelo falsário Marcelo Nascimento, entrevistado por ele como um dos herdeiros da companhia aérea Gol. “Ele me ofereceu o jatinho dele. Achei o cara o máximo”, conta, aos risos.

“Perdi a virgindade com a empregada”

A essa altura decidimos mudar o cenário da conversa para um botequim, no Itaim. Amaury relaxa e a tal figura animada das madrugadas dá o ar da graça. Depois de traçar quatro pastéis, numa tacada só, nosso convidado encerra a entrevista de pé na calçada, copo de cerveja na mão e contando que perdeu a virgindade com a empregada doméstica, às gargalhadas. A cara feia era mesmo só coisa da manhã.

Status – Por que tanto cigarro? Ansiedade?
Amaury Jr. – Ansiedade, pesadelo da manhã. É muita coisa, uma engrenagem da qual você não consegue se soltar. Um programa diário não é fácil de fazer. Você fica ansioso. E eu gosto de fazer benfeito. Gosto muito do que faço, só acho que estou fazendo muito.

– Você está reclamando que vai a muita festa, é isso?
– É isso. Parece que é uma maravilha, mas é um trabalho. Pergunta para o garçom se ele gosta de estar lá, para o manobrista. Eu sou mais um que está lá trabalhando. A logística da entrevista está me enchendo o saco. Tem que pegar o trânsito, tem que se arrumar, tem que ficar bonitinho.

– Você não gosta de se arrumar?
– Tá ficando difícil. Estou indo para o Japão depois de amanhã e não tenho tempo de cortar o cabelo. Então ou eu trago o cabeleireiro aqui ou corto eu mesmo. Às vezes eu mesmo corto o meu cabelo.

– Mentira.
– Juro por Deus. Pego o pente e vou aparando tudo.

– Mas você está há 30 anos com um programa no ar. Sinal de que está dando certo, não?
– A cobertura de celebridades é sucesso no mundo inteiro. As pessoas gostam de saber da vida dos outros. Ainda mais estando numa festa. E deu certo também porque o programa nunca perdeu de vista o conteúdo. Se eu estivesse até hoje mostrando só o oba-oba da festa, não ia acontecer nada. É que na festa está o prefeito, está o deputado, a benemérita… E com uma vantagem: a descontração da festa deixa o convidado mais leve, mais falante. E os entrevistados confiam em mim, sabem que não vou colocá-los numa situação desagradável. Mas também não vou deixar de entrar nos assuntos mais sensíveis. Senão a entrevista fica chapa-branca.

– Quando, por exemplo, você fez isso?
– Ai, numa entrevista com o Caubi Peixoto. Uma das coisas que o Caubi nunca falou foi da sexualidade dele. Então comecei a perguntar, perguntar, perguntar e falei: “Você continua assexuado, não é?” E ele: “Como? Sim, continuo.” Porque se ele quiser sair do armário, neste momento em que está todo mundo saindo, eu dei a chance de ele falar. Acho que eu tenho um jeitinho bom de entrar nesses assuntos mais delicados. A Marina Lima falou que era bissexual no meu programa. O Clodovil, quando estava com câncer, falou comigo. O João Gilberto, que nunca dá entrevistas, falou comigo. Tenho orgulho disso, porra.

– O que você está indo fazer no Japão?
– Estou indo para Tóquio por causa de um dos nossos patrocinadores, que quer que eu cubra uma festa na embaixada. Mas queremos mostrar Tóquio, claro. Tem que ter um patrocinador pra viajar, senão não dá. Levar oito pessoas para Tóquio é foda.

– Mas você conta no ar que está viajando a convite?
– Claro que falo. Não tenho nenhum problema com isso. Quero é ter cada vez mais anunciante. O problema é que todo mundo enche o meu saco com isso, mistura meu editorial com meu comercial. Dizem que eu faço jabá. Jabá é você pegar um dinheiro, botar uma matéria no ar e não prestar contas para a emissora. Eu faço infocomercial, uma coisa consagrada na tevê americana que todo mundo faz aqui e disfarça. Eu faço, digo e não tô nem aí. Podem falar. Desafio alguém dizer que eu cobrei para entrar no programa. A não ser que esteja vendendo um produto comercial.

– Isso o chateia ainda?
– Lógico que me chateia. É onde os caras que não gostam de mim me pegam. Os que não são convidados para o programa ficam putos.

– O que você faz para aliviar essa ansiedade toda?
– Tomo antidepressivo, com muita honra.

– Há muito tempo?
– Há uns 20 anos! (gargalhadas).

– É depressão mesmo?
– Não, é ansiedade. A vida me deixou eletrificado. Eu sou um cara gaseificado. Não sou água mineral sem gás. Então você precisa segurar para a não fazer merda. Vou ao meu psicanalista também. Mas não de divã. De medicamento. Você tem de manter o equilíbrio nesses improvisos todos.

– Como você faz para reconhecer tanta gente numa festa?
– Tento me informar e tenho a produção me ajudando. Mas, ainda assim, às vezes não dá. Como no caso do Nascimento, que se passou pelo filho do Nenê Constantino, dono da Gol.

– Como foi aquilo?
– Ele colou em mim numa Recifolia (Carnaval fora de época no Recife). Um psicopata. Eu não só o entrevistei, como o apresentei para a todo mundo naquela festa e ainda voei num helicóptero, com ele pilotando.

– E você não desconfiou em nenhum momento?
– Teve só um momento em que eu achei estranho. Numa das noites, eu disse: “Me arruma uma passagem da Gol, que eu quero embarcar mais cedo para São Paulo amanhã.” E ele: “Imagina, vou colocar meu jato a sua disposição.” Eu pensei: Esse cara é o máximo (risos). E aí ele apareceu, às 7h da manhã, para me dar embarque pessoalmente. Fiquei desconfiado. Na hora em que a gente aterrissou aqui em São Paulo, me ligaram: “Você está bem, Amaury? Porque esse cara não é filho do Constantino.”

– O que você pensou na hora?
– Primeiro, deu aquele medo. Eu tinha voado com ele pilotando, né? Quando isso passou é que eu pensei: cacete, esse cara é esperto demais. Hoje a gente dá risada porque, afinal de contas, ele não fez mal a ninguém. Só roubou de rico, pendurou todos os aluguéis de jato e tudo mais. Mas paguei um mico, né? Uma gafe histórica (risos).

“Tenho fãs de 15, 16 anos. Desesperadas. De quererem se entregar mesmo. A tevê exerce isso”

– Foram muitas gafes em 30 anos de programa?
– Milhares… Teve uma vez em que os governadores tinham acabado de ser eleitos. Sabe quando está cheio de político novo e você conhece só um ou outro? A Band tinha reunido todos eles, com entrada ao vivo. E eu estava lá cobrindo. Troquei o nome de todo mundo. Pedi desculpas, peguei o papel e comecei a renomeá-los. Gafe do ano.

– O YouTube tem um vídeo seu, no Carnaval do Copacabana Palace, com a Narcisa Tamborindeguy completamente bêbada…
– Aquilo não era para a ter ido ao ar. A Narcisa era minha repórter e estava ali no Copa para fazer a cobertura comigo. Mas como ela estava muito animada, eu fui postergando, pra deixá-la curtir. Fiz uma entrevista com ela e, depois, ela mesma pega o microfone e faz o maior fuá. Eu não ia deixar aquilo ir ao ar, mas acabou saindo daquele jeito. A mãe dela me ligou, reclamando um monte.

– Mas a bebida é um item frequente nas festas que você cobre. Faz parte, não?
– É como eu sempre digo: prefiro mil vezes um entrevistado ligeiramente lubrificado. Ele fica um entrevistado melhor. O cara lubrificado é melhor entrevistado, melhor marido, melhor amante, melhor tudo. Mas bêbado, não. Não é justo. A não ser que seja um político muito importante e fale algo relevante.

– Você bebe nas festas?
– Claro que bebo. Mas não fico de porre. E, terminei de gravar, caio fora.

– Por quê? As festas perderam o glamour?
– Totalmente. Globalizou. Como diz o Falabella: “Amaury, derrubaram o alambrado” (risos). Não tenho nada contra, não estou nem aí. Do mesmo jeito que eu entrevisto a Carla Perez (eterna dançarina do É o Tchan), eu entrevisto o Henrique Meirelles (ex-presidente do Banco Central). Aliás, nem para ele me contar que ia trocar de partido. Mas tudo bem… Dou o mesmo peso aos dois.

– Amaury, e a virgindade? Perdeu como?
– Com a empregada doméstica (risos).

– E a mulherada? Afinal, são 30 anos na balada.
– Sou muito bem casado. Mulher bonita pra mim é homem. Como você (gargalhadas).

– Sério? Com tanta festa você já poderia estar no sexto casamento. E está casado há mais de 30 anos.
– Tenho uma boa família e sempre fiquei de olho em não dissolver isso. Claro que a tentação é onipresente. A noite é uma coisa… Ainda mais hoje em dia, em que as pessoas estão mais liberadas.

– As mulheres caem em cima?
– Já me disseram uma vez: “Amaury, você precisa ser mais estrela.” O que é ser mais estrela? Ser menos acessível? Talvez eu seja um antiestrela mesmo. Tem gente que maquia sua participação nos lugares para poder se valorizar. Eu não sei fazer isso. E, como sou acessível, as mulheres ficam fascinadas. Não por mim, mas pelo meu universo. Tenho fãs de 15, 16 anos. Desesperadas. De quererem se entregar mesmo. Não é só comigo, a tevê exerce isso.

– Não seja modesto…
– Tá bom, posso ter uma participação pequenininha (risos). E aí você massageia seu ego. É o suficiente pra mim.