O TORTUOSO (E DIVERTIDO) CAMINHO DO TERCEIRO EXCLUÍDO ATÉ A INCLUSÃO

Como um trauma de infância pode mudar – e até melhorar – sua vida sexual

Por Reinaldo Moraes

 

UM DIA, NO AUGE DE UMA CRISE de ciúme por uma mulher, ciúme patológico, lupiciniano, arrasador, ouvi do meu psicanalista, ou melhor, de sua voz incorpórea atrás do divã onde duas vezes por semana eu deitava meu coração partido, a menção à origem arquetípica do ciúme. Tudo começou com a expulsão do regaço quentinho da mãe diante da chegada peremptória do pápi fodão. Você não cabia na relação deles. Você virou o terceiro excluído. O pai é o galo do terreiro. E você foi arrancado sem conversa dos braços do objeto único do seu desejo simbiótico, oceânico: a mulher da qual você saiu outro dia mesmo, la mamma mia – e sua. Dentro dela era o éden que todos conhecemos, mas do qual ninguém se lembra se não estiver viajando de ácido numa piscina de água morninha.

Ali que era bom. Não vinha ninguém disputar com você o amor visceral pela mãe. A véia era toda sua. Até o dia em que uns caras de avental, máscara e touca cismaram de te puxar de lá de dentro. Ciúme, então, seria isso: o retorno do “terceiro excluído”: papai mandando bala na mamãe, e você de fora, chupando o dedo. Ou a idiota da chupeta. Saber que o meu ciúme sinalizava o retorno do terceiro excluído não me deixava menos enciumado. Mas acho que passou a doer um pouco menos. Hippies e anarquistas foram terceiros excluídos, como qualquer gerente de banco. Cafetões foram terceiros excluídos. Padres, rabinos e vestais gregas idem. O Sarney foi terceiro excluído. Nabucodonosor também – ambos na mesma época, calculo.

Por essa e por outras é que eu admiro um tipo como o artista plástico americano Jeff Koons, que andou por aqui outro dia mesmo, convidado para as comemorações dos 60 anos da Bienal de São Paulo. Koons se casou e teve filho com uma mulher pública e notória, a Cicciolina, nos anos 80. Você deve se lembrar da Cicciolina, nome de guerra de Ilona Staller, a desenvolta atriz pornô húngara, radicada na Itália, que chegou a se eleger deputada no Parlamento italiano pelo Partido Radical. Puta deputada, diziam, embora não tenha mais conseguido se reeleger. Isso, sem deixar de protagonizar os filmes que coproduzia, pérolas da mais alta cineputaria, como o clássico “Banana e Chocolate”, onde podemos vê-la saboreando uma variedade peculiar de Banana Split, que alguns chamariam com propriedade de Banana Sucked, ou o inolvidável “Ascensão e queda da imperatriz romana,” no qual contracenou inadvertidamente com John Holmes, ator pornô que viria a morrer de Aids, célebre por sua descomunal ferramenta de trabalho.

Na época do seu relacionamento com a vibrante Cicciolina, Koons produziu uma série de esculturas, pinturas e fotografias onde o vemos em franca e forte atividade sexual com sua legítima patroinha, de modo a incorporar o espectador na sua intimidade conjugal. Diante do casal Koons-Staller transformado em arte ninguém se sente o terceiro excluído. Estamos todos incluidíssimos. Não é à toa que Koons batizou sua série de “Made In Heaven” (“Produzido no Paraíso”), ao exibi-la na Bienal de Veneza de 1990, fazendo corar até as águas poluídas do Grand Canale. Hoje as obras valem dezenas de milhões de dólares nos leilões internacionais.

Cicciolinas à parte, o conceito de terceiro excluído (tertium non datur, em latim) foi emprestado pela psicanálise à velha lógica aristotélica, segundo a qual ou uma coisa é A ou não é A. Não pode ser meio A. Não existe uma terceira possibilidade. Ou seja, ou se é o pai ou não se é o pai. Se for o pai, não é você o filho. E só o pai é que pode chegar no bem-bom da mâmi. O filho não. Sorry, é a regra da casa. Os psicanalistas dizem que a gente tem mesmo que ser excluído da cena primária pra poder encarar a vida adulta e buscar outros rabos de saia fora de casa. Além de aprender a descolar o leitinho de cada dia de outra fonte que não a teta da mamãe. (Alguns felizardos conseguem mais tarde grudar nas tetas da nação, mas esse é outro papo.)

Na vida real, porém, muita gente passa a vida esperneando contra a exclusão arcaica, que jamais engoliram. Não por outra razão, o conceito de terceiro excluído é invocado para explicar uma pá de comportamentos humanos tidos como aberrantes, além do velho e inevitável ciúme, suprema aberração. O voyeurismo, por exemplo, poderia ser entendido como o desejo de participar simbolicamente do casal do qual se foi excluído no passado. A bissexualidade também: seria o impulso de ora agradar à mãe, ora ao pai, buscando ingresso de qualquer jeito e maneira no nheconheco conjugal dos genitores. Clubes de swing idem.

Esse último, aliás, é o caminho mais à mão para se tentar uma reinclusão rapidinha na tal cena primária (papai traçando mamãe). O sujeito leva a patroa pro swing porque deseja inconscientemente reproduzir as relações afetivo-sexuais da qual foi excluído pelo pai, pleiteando, dessa vez com êxito, sua inclusão tardia. Nem precisa explicar que, nesse esquema, a patroa vira a mãe no inconsciente traquinas do swingueiro. Agora ele poderá ver sua mãelher sendo desfrutada com alegre despudor por outro homem sem tomar um chega pra lá do desfrutador. Se calhar, até entra na dança também, já que há sempre algum orifício sobrando nessas situações. Sem falar na chance de faturar na boa a mulher do próximo, sendo que o próximo pode ser justamente o sujeito que está sendo agraciado naquele mesmo instante por um boquete da parte da sua, com todo respeito, excelentíssima senhora. Num clube de swing não há terceiros excluídos. Trata-se de uma rebelião contra a lei excludente do pai e a favor do incesto praticado com a mãe. E você ainda pode tomar cerveja e uísque à vonts durante a cerimônia de inclusão.

Algum terceiro excluído se habilita?