ZOO DO TRÁFICO

Armas, carrões, mulheres e… tigres, zebras e leões. No México, chefe de cartel de droga que se preze tem de ter em casa grandes animais exóticos para chamar de seus

Por Bruno Weis

 

A mansão dos chefões do cartel Sinaloa

MILHARES DE MORTOS e viciados, cidades tomadas pela violência e medo, famílias destruídas. O legado dos grandes traficantes de droga é conhecido em todo o mundo. Os grandes barões da cocaína no México, contudo, vem acrescentando um aspecto literalmente exótico a essa tradição maldita: zoológicos particulares repletos de grandes animais, como leões, tigres, ursos, zebras, macacos, entre outras espécies importadas ilegalmente, principalmente da África.

O Exército colombiano exibe Pepe, um dos hipopótamos de Pablo Escobar

O hobby macabro – muitos animais são encontrados em condições de espaço e alimentação inadequadas, e há relatos de bandidos que alimentaram seus tigres de estimação com os corpos de traficantes rivais – vem ganhando grandes proporções a cada operação de captura de grandes líderes de cartéis. Em julho deste ano, em uma operação que durou três dias, a polícia mexicana apreendeu mais de cinco mil animais exóticos e plantas, muitos deles em dependências de integrantes de suas principais quadrilhas, como os Zetas.

    
O fenômeno se tornou notório há três anos, quando policiais invadiram uma mansão ocupada pelos homens de Arturo Beltran Leyva, chefão do cartel de Sinaloa, morto em 2009. Ao lado de fontes, esculturas e cascatas esculpidas em mármore negro e madeiras nobres, os agentes encontraram um mini- zoológico com leões, panteras negras, tigres (um deles albino), chimpanzés, crocodilos e hipopótamos. Dias depois, outra operação nos arredores da Cidade do México encontrou mais de 200 animais em uma propriedade rural, incluindo pavões, mulas, avestruzes, dois tigres e dois leões. A maioria dos animais aprendida é encaminhada para zoológicos. Devido a enorme quantidade de animais, porém, as autoridades muitas vezes não sabem qual destino dar aos bichos.

Os estudiosos da cultura e estilo de vida “narco” – que prospera em todo o México nestes tempos de guerra aberta entre governo e cartéis – dizem que a atração dos chefões por animais exóticos pode ter diversas origens. Alguns são homens nascidos no campo e sempre conviveram com bichos. Com poder e dinheiro, levaram a relação com os “pets” a uma escala praticamente circense. Outra explicação, de cunho mais psicológico, sugere que os grandes traficantes se consideram verdadeiros “reis da selva” e precisariam subjugar predadores para se reafirmar como ocupantes do topo da cadeia alimentar. Uma terceira leitura aponta que colecionar animais exóticos, e caros, seria apenas mais uma demonstração de força e status.

    
O fato é que a grande figura inspiradora dos barões mexicanos do tráfico é o colombiano Pablo Escobar, antigo chefe do cartel de Medellín e um dos maiores traficantes da história. Assassinado em 1993, o “senhor das drogas” manteve por muitos anos em sua “Hacienda Nápoles”, no interior da Colômbia, um zoo com zebras, girafas e quatro hipopótamos. Com sua fuga do local e posterior morte, o local foi abandonado. Os hipopótamos, terceira maior espécie de mamífero do planeta e uma das mais agressivas das savanas africanas, escaparam da propriedade e se reproduziram até chegar a mais de 20 indivíduos em poucos anos. Ao invadir rios e lagoas da região, viraram ameaça à população, destruindo lavouras e transmitindo doenças. Em 1999, apesar de protestos de ambientalistas e de parte da opinião pública, um dos hipopótamos originais de Escobar, apelidado de Pepe, foi abatido por militares colombianos. Os demais integrantes do bando, porém, seguem à solta na região em busca dos 30 quilos de comida que necessitam a cada dia para sobreviver.