MALCONLM MCDOWELL

O clássico Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, completa 40 anos ainda fazendo barulho. O ator que interpretou Alex, o protagonista do longa, conta à Status como o personagem mudou sua vida

 

Malcolm McDowell carrega um único arrependimento na vida. Não, o britânico não lamenta ter abusado das perversões sexuais no papel-título de Calígula (1979) – ainda que a extravagância pornô tenha sido chamada, na época, de “suicídio artístico”. “O que me dói mesmo é não ter feito as pazes com Stanley, antes de sua morte’’, diz o ator de 68 anos, referindo-se a Stanley Kubrick (1928-1999), o diretor de Laranja Mecânica (1971).
A obra-prima que eternizou McDowell como um dos psicopatas mais emblemáticos da história do cinema completa agora o seu 40º aniversário – sua première mundial foi realizada em 19 de dezembro de 1971, nos EUA. “Assim que a filmagem terminou, como eu não tinha mais utilidade para Stanley, ele cortou relações comigo, o que me magoou. Mas, talvez, eu também tenha errado, por ter me aproximado demais do meu diretor e confundido as coisas.’’ Hoje, com mais de 200 títulos na bagagem (de cinema e tevê), McDowell aprendeu a se preservar. “Stanley adorava o aspecto técnico do cinema. Dos atores, acho que ele nunca gostou muito. Quando o filme acabava, ele voltava a ser o cara recluso de sempre.’’ Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista, concedida em Cannes, onde McDowell autografou vários pôsteres de fãs de Laranja Mecânica, antes de conversar com a Status.

Quarenta anos depois o ator, hoje aos 68 anos, ainda autografa cartazes do lendário filme de Kubrick

Status – É estranho se ver tão jovem no pôster do filme?
Malcolm McDowell – É e não é. O filme Laranja Mecânica nunca me deixou. Ele está em todo lugar. Por onde passo, há alguém com um DVD ou com um pôster do filme. O pôster, aliás, foi considerado o mais icônico de todos os tempos nos EUA. O curioso é que já autografei um milhão deles e não guardei nenhum para mim (risos).

– Já dava para suspeitar, na época, que o filme marcaria a sua vida?
– Não. Nunca imaginei que falaria do filme até o dia da minha morte, o que provavelmente acontecerá. Eu só sabia que se tratava de um grande filme, por ser baseado num livro complexo e audacioso. Não esperava que as gerações futuras passassem a cultuá-lo. Stanley e eu ficamos muito frustrados com a reação, na época.

– O público e a crítica demoraram para entender o filme?
– Muito. Toda a polêmica por conta da violência desviou a atenção, o que diminuiu artisticamente a obra. Stanley até recebeu ameaças de morte, já que na Inglaterra houve uma onda de crimes supostamente inspirados pelo filme. Todo mundo só falava da violência, sem entender que nós tínhamos feito uma comédia de humor negro. Quando assisti ao filme pela primeira vez em Nova York, ninguém riu. Foi constrangedor. Algumas mulheres chegaram a sair da sala e vomitaram na entrada do cinema. Ninguém captou a ironia. Felizmente, com o tempo, as pessoas entenderam a piada (risos).

– Encarnar um cara violento como Alexander DeLarge, que rouba e mata por diversão, o afetou?
– Alex é uma criação maravilhosa. Claro que usei partes de mim mesmo na composição. Se olharmos dentro de nós, veremos um pouco de perversidade. É humano. Mas não deixei aquilo extravasar fora dos limites do set de filmagem. Tenho muito orgulho da minha performance. Alex foi o primeiro psicopata a ganhar certa simpatia do público nas telas de cinema. Foi ele quem abriu caminho para Hannibal Lecter (vivido muitos anos depois por Anthony Hopkins).

O personagem Alex (fotos acima), diz ele, foi o “primeiro psicopata a ganhar a simpatia do público nas telas do cinema”

– Como era a sua relação com Kubrick no set de filmagens?
– Ótima, de total cumplicidade. Eu lia para Stanley passagens do livro quase todos os dias no set, para ter certeza de que estávamos captando o espírito da obra original. Stanley era um cara baixinho e muito inteligente que tinha um olhar inquisidor. Eu nunca o vi levantar a voz no set, algo que é comum entre os cineastas. Se ele ficava bravo, era uma fúria silenciosa, o que nos deixava muito mais intimidados.

– É verdade que os cílios postiços de Alex foram um presente seu para Kubrick?
– É. Como Stanley gostava muito do meu humor, eu vivia armando coisas só para fazê-lo rir. Por isso lhe dei o par de cílios postiços. Mas Stanley, esperto, virou o jogo. Ele imediatamente me pediu que colocasse o acessório e me fotografou com os cílios nos dois olhos e depois num olho só. Naquela mesma noite, ele me ligou, dizendo que tinha adorado a estranheza dos cílios e que Alex o usaria num olho só.

– Quando falou com Kubrick pela última vez?
– Não me lembro. Chegamos a nos falar por telefone, anos depois das filmagens. Claro que Stanley só ligava quando queria alguma coisa. Ele era assim. Como eu era muito jovem na época, após as filmagens me senti usado, jogado fora e traído, pois achava que nós seríamos grandes amigos – como eu fui de Lindsay Anderson (que dirigiu McDowell em Se…, de 1968, e Um Homem de Sorte, de 1973) até a sua morte.

– Como recebeu a notícia da morte de Kubrick em março de 1999?
– Muito mal. Pouco depois eu já visitava Christiane Kubrick, a viúva, em sua casa. Acho que são poucos os cidadãos que tiveram o privilégio de terem sido enterrados no jardim de sua casa, como foi o caso de Stanley. Foi estranho ver aquela pilha de pedras no jardim, onde ele foi sepultado. Apesar dos cerca de 30 anos sem contato com ele, naquele momento eu caí no choro, o que não esperava. A casa não era a mesma que eu tinha conhecido, mas tudo ainda era muito familiar. A cozinha, as pinturas da Christiane nas paredes, os cachorros e as crianças – que antes eram os filhos de Stanley e agora eram os seus netos. Foi como voltar no tempo.

– Daí bateu o arrependimento de não ter feito contato?
– Sim. Foi uma experiência dolorosa porque eu me dei conta de que deveria ter telefonado para Stanley. Eu podia ter dito: “Estou a caminho de sua casa. Quero ver você.’’ Qual o problema?

– E por que não fez isso?
– Porque, ao mesmo tempo, eu me perguntava: Por que ele não faz o mesmo? Por que ele não telefona? No fundo, foi vaidade de ambos os lados. Não ter feito as pazes com Stanley é a única coisa da qual realmente me arrependo.

“Eu recebia propostas sexuais de todos os lados, o que é o sonho de todo ator jovem e solteiro. Foram anos selvagens, admito.”

– Como as mulheres passaram a vê-lo depois de Laranja Mecânica?
– Como uma máquina sexual (risos). E não apenas as mulheres. Os homens também, o que achei estranho. Eu recebia propostas sexuais de todos os lados, o que é o sonho de todo ator jovem e solteiro. Foram anos selvagens, admito. Até porque tudo aconteceu antes da Aids, quando nós transávamos como loucos, sem pensar duas vezes. Bons tempos aqueles (risos).

– Anos depois você filmou mais cenas de sexo ousadas em Calígula. Como foi pisar todos os dias num set tomado de penthouse pets nuas?
– Foi engraçado. Elas eram garotas ótimas! Quem as enviou ao set foi Bob Guccione (fundador da revista Penthouse e produtor do filme). Ele achava que as figurantes do nosso set não eram bonitas o suficiente… (risos). Hoje percebo que ninguém deveria ter ficado surpreso quando Guccione inseriu todas aquelas cenas de sexo explícito após as filmagens com os atores principais. O que nós fizemos era brincadeira de criança perto do que ele queria. Como o filme era dele e Guccione era do ramo da pornografia, claro que ele acabaria apelando…

– Qual foi a sua reação ao ver as cenas de hard porn integradas ao filme?
– Não fiquei ultrajado ou coisa assim. Na verdade aquilo tudo me fez rir, por ser tão ridículo. Claro que o produto final não foi o que eu tinha imaginado. Topei fazer o filme quando Gore Vidal era o roteirista. Quando ele abandonou o projeto, tudo mudou, mas eu já estava obrigado por contrato a filmar. Tentei fazer o meu melhor. Por isso não me culpo pelo filme não ter dado certo. Pelo menos trabalhei com atores que admiro, como Peter O’Toole e John Gielgud, e a atriz Helen Mirren. Até hoje eu acho Calígula engraçado. Sempre me lembro do dia em que meu filho, na época com 12 anos, chegou em casa e perguntou: “Pai, sabia que você está na prateleira pornô da Blockbuster?” E eu respondi: “Claro e tenho muito orgulho disso” (risos).