MARIA, ENCANTADA

Ela adora se apresentar assim, na língua natal dos pais: “Maria, encantada.” Não acha graça na frieza do “nice to know you” do idioma em que foi educada, em Miami. Maria Buccellati, antes definitivamente caliente como modelo, é hoje definitivamente caliente como designer de moda

Por Vivi Mascaro

 

Maria Buccellati é figura carimbada no mundo fashion. Foi modelo, virou designer e hoje caminha ao lado de grandes estilistas

O TOM DE PELE DELA ENCANTA e intriga. Embora a gente saiba que ela é uma workaholic, dá para jurar que Maria Buccellati passa os dias na praia ou na pérgola de uma piscina. Eu não resisto: “Como é que você mantém o bronzeado?” A risada dela explode a meio caminho entre se divertir com minha ingenuidade e desfrutar o cumprimento. “This is my color”, diz Maria, transitando de volta para o inglês numa conversa intercalada pelo espanhol e pelo italiano. “Eu nunca vou ao sol.” Já teve o suficiente quando criança e adolescente em Miami.

Não é só aquela pele de azeitona que anuncia sua origem. Apesar desse nobiliárquico sobrenome Buccellati do marido, Andrea, da terceira geração de um clã de joalheiros italianos, Maria conserva aquele suingue típico de latina, descendente que é de mãe cubana e pai espanhol das Canárias, ambos exilados na Flórida depois da ascensão de Castro – “latina de coração, alma e corpo”, orgulha-se. De fato, basta perceber os olhares masculinos que navegam nas ondas de sua impressionante body language enquanto ela atravessa a porta do restaurante onde a espero para concordar: Maria está muito mais para Caribe do que para La Scala de Milão.

Corrijo: Maria pode, com a mesma elegância múltipla, ser tanto Caribe quanto Milão, tanto avenue Montaigne quanto Bora-Bora, tanto alta-costura quanto prêt-à-porter, uma surpresa fervilhante atrás da outra. Fashion designer, industrial da confecção, modelo até poucos anos atrás, jet setter incansável, mãe de Lucrezia e de Gianmaria, ativa colecionadora de arte contemporânea, La Buccellati chegou ao Magari, na rua Amauri, epicentro gourmet de São Paulo, na companhia de Ana Paula Junqueira, a mais perfeita anfitriã de celebs estrangeiros da cidade. Usava jeans de um metálico dourado que fiquei sabendo que é sua criação.

A camisa branca, informal, reiterava, nela, a definição que ela dá a sua própria arte: effortless chic. A moda de Maria – a que ela cria e a que ela promove – está na confluência do que os franceses chamariam de Rive Gauche com o que o resto do mundo chama de rock’n’roll. Maria Buccellati veio ao Brasil em novembro para participar do IHT, o simpósio de Hot Luxury promovido pelo International Herald Tribune na figura da icônica fashionista Suzy Menkes. São Paulo reuniu o crème de la crème, de Mario Testino a Diane von Furstenberg, de Sarah Burton (leia-se Alexander
MacQueen) a Charlotte Dellal, de Cecilia Dean (Visionaire) a Lapo Elkaan. “Eu não podia faltar”, disse Maria. “Especialmente agora que estou começando a descobrir o incrível potencial do mercado brasileiro.”

A naturalidade com que ela trafega pelo universo fashion tem tudo a ver, com certeza, com aqueles anos dourados em que Karl Lagerfeld, Gianni Versace, Domenico Dolce e Stefano Gabbana esculpiam sobre o corpo de Maria as magníficas peças de sua haute coûture. Ela fez parte daquele elenco de tops que despontou no início dos anos 90, “Naomi, Christy (Turlington), Linda (Evangelista), Cindy (Crawford)”, enumera Maria, fase anterior ao furacão brasileiro das Giseles e Isabelis. Mas a verdade é que Maria de vez em quando ainda tem uma recaída, sempre seduzida pelas lentes de seu amigo Leonardo Vecchiarelli, “muito mais artista do que fotógrafo”. Foi capa da revista Diva cinco anos atrás e a há três fotografou para um ensaio de moda no perigoso deserto da Líbia.

Mas Maria quer falar é de moda – a sua moda. Enquanto percorremos o cardápio do Magari (ela, de bate-pronto, surpreende o maître e a todos nós pedindo uma suculenta carne), Maria enumera suas últimas coleções, para a Faith Connexion, para a grife Rock & Republic, exibe no iPad o requinte artesanal de sua moda em cashmere, demonstra como o nome Maria Buccellati e a grife MB podem se multiplicar numa gama de roupas, de t-shirts a vestidos de noite, de jeans e jaquetas de couro, em acessórios, em sapatos, em cosméticos, mas tudo, absolutamente tudo, segundo ela, coerente com o estilo european contemporary. Se pudesse se resumir numa única expressão, ela diria: “brand ambassador”. Uma embaixadora do luxo acessível com a sedução desejável. Acrescento: uma incondicional emissária da joie de vivre. E se, a moda dela precisasse de um ícone, ela diria: Jennifer Lopez.

Ao final de nosso almoço, enquanto ela sacoleja seus cabelos com a espontaneidade de uma prima-dona, Maria ainda se aventura corajosamente pela sobremesa. Eu a admiro, fico imaginando qual é o combustível que aciona a turbina de uma criatura tão vital, tão energética, tão talentosa, tão ciosa de seu trabalho – ela que, se não fosse a Maria, poderia estar desfrutando da dolce vita de dondoca no palazzo milanês dos Buccellati ou na maison de famille da Place Vendôme, número 4, ali defronte ao Ritz, no mais nobre endereço de Paris.