NA CAMA COM CHACAL

Ex-mulher de Carlos, o Chacal, Cagdalena Kopp conta à Status detalhes de seu passado ao lado de um dos maiores terroristas que o mundo já viu: uma história com direito a sexo forçado, assassinatos dentro de casa e noites em hotéis de luxo

 

Por Tiago Salazar, de Ulm (Alemanha)
Fotos Pedro Loureiro 

 

“A verdade é que Carlos nunca teve uma ideologia. O que o movia era o dinheiro e, sobretudo, a ânsia pelo protagonismo”

NO FIM DE UMA LONGA CONVERSA – por vezes gélida, por vezes apaziguada –, despedimo-nos com uma troca de beijos. Magdalena Kopp, 63 anos, ex-mulher do venezuelano Ilich Ramirez Sanchez, mais conhecido como Carlos, o Chacal, sente minha barba na face e diz a frase murmurada: “Há muitos anos que não sentia a barba de um homem.” Horas antes, ouvi ali, naquela casa em um bairro periférico de Ulm, nos confins da Alemanha bávara, os detalhes dos anos mais difíceis de sua vida: a história pouco conhecida da mulher que dormiu e acordou ao lado do Chacal durante 14 anos, exatamente no auge de suas atividades terroristas. Nas últimas semanas, os fantasmas desse passado voltaram a assombrá-la. Já condenado à prisão perpétua na França, onde cumpre pena, Chacal está de volta ao tribunal, desta vez acusado de ter planejado quatro atentados à bomba na França, na década de 80. Mas, afinal, quem é e o que pensa esse criminoso, que diz ter cometido mais de 100 atentados, com uma estimativa de 2.000 mortos? Quem responde a essas perguntas é a ex-esposa Magdalena, não apenas mãe da única filha do Chacal, mas também ex-integrante de seu grupo terrorista, atividade pela qual foi julgada e presa por três anos. “A verdade é que Carlos nunca teve uma ideologia. O que o movia era o dinheiro e, sobretudo, a ânsia pelo protagonismo”, diz Magdalena, com exclusividade à Status.

Foi justamente graças a uma operação megalômana que Carlos conquistou de vez tal protagonismo. Em 1975, integrantes de seu grupo, completamente armados, invadiram uma reunião da Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep), em Viena, fazendo 63 reféns, entre eles 11 ministros. A libertação foi condicionada à veiculação, por rádio, de um texto contra o Estado de Israel. A demanda acabou não sendo atendida, todos foram liberados (três policiais morreram na operação), mas Chacal conquistou outro objetivo: a atenção mundial. A partir daí, passou a ser um dos criminosos mais procurados da época – com Magdalena a seu lado, de país em país, de hotel em hotel. Mas também tiveram sua própria casa, nas cidades de Berlim, Damasco e Budapeste. E, apesar da clandestinidade, não deixaram de frequentar festas glamourosas, com boa comida e gente influente. “Nunca serei capaz de explicar o que me manteve ali”, diz ela, como quem esteve em uma espécie de hipnose. Ela conta que nem mesmo os sete anos de psicanálise, além de um livro autobiográfico, foram suficientes para que pudesse entender o que a fez ficar ao lado de um assassino. Talvez uma atração física arrebatadora? “Ele nem era meu tipo. Eu era revolucionária, gostava dos cabeludos, de barba. E o Carlos era muito certinho. Usava ternos, gravata, cara barbeada, cabelo curto”, conta.

Chacal em sua foto mais conhecida, da década de 70

O relato de Magdalena revela o verdadeiro comportamento de um homem que, apesar de se apresentar como um revolucionário de esquerda, não abria mão de regalias típicas de alguém afeito ao sistema. Hotéis, por exemplo, muitas vezes eram cinco-estrelas, de preferência na suíte presidencial. Chacal também não abria mão de bebidas e charutos de boa qualidade, além de muitas mulheres. “Não que fôssemos milionários”, diz Magdalena. “O grosso do dinheiro não ia para Carlos. Mas ele sempre fazia questão de mostrar mais do que tinha.” Àqueles que até hoje defendem o Chacal como um criminoso político, um sujeito que desafiou a ordem capitalista em nome de causas nobres, Magdalena tem uma mensagem: “Carlos sempre usou o comunismo (como desculpa para seus atos), assim como mais tarde usou os árabes e agora usa Hugo Chávez (presidente da Venezuela e um dos maiores defensores do Chacal)”, conta a ex-mulher.

Magdalena foi além da esposa pacata e fiel. Apaixonada e muitas vezes fascinada pelo poder daquele homem, chegou a participar indiretamente dos planos criminosos do Chacal, roubando passaportes, falsificando documentos e auxiliando na guarda de arsenais. Os dois se conheceram quando Magdalena, então namorada do também revolucionário de esquerda Johannes Weinrich, chegou à célula de Carlos para ensinar aos companheiros suas técnicas de falsificação de documentos. O próprio Chacal era um desses alunos. À época, achou aquele homem de cabelos escuros extremamente inteligente e um exímio manipulador. Mas, hoje, reconhece: “Carlos não passa de um psicopata social, politicamente inconsistente e vaidoso.” Nesse momento da conversa, Magdalena questiona seu passado ao lado de um homem que hoje ela chama de “criatura”. “Sentia que fazia coisas contra a minha vontade. Talvez estivesse fascinada pela brutalidade, pelo machismo”, diz ela.

Sua imagem mais recente, de 2001, já com barba e cabelos brancos

Em dado momento, Magdalena se recorda da primeira vez em que fizeram sexo. “Ele me forçou”, diz. “Veio a minha casa com um pretexto qualquer, bebemos vinho e depois jogou-se na cama com uma pistola ao lado e me chamou. Carlos tinha sempre uma pistola à mão”, conta. Os dois mantiveram um relacionamento razoavelmente estável para um casal na clandestinidade. Chegaram, inclusive, a se casar de papel passado logo após o nascimento da filha, Rosa, única ocasião em que Chacal “pareceu humano”, segundo Magdalena. “Mas apenas por alguns instantes”, acrescenta. Certa vez, quando Rosa ainda era uma criança, Magdalena ouviu tiros do quarto, na casa onde moravam, em Damasco. “Só ouvi os disparos e vi, da janela, o saco com o corpo sendo colocado no porta-malas do carro”, conta. A mesma mulher que na época parecia fascinada com o poderio daquele homem hoje vê os sinais da perversidade. Ela lembra, por exemplo, que Carlos fazia questão de ser chamado de “Michel” na intimidade – nome de um ex-agente duplo da Mossad, o serviço secreto israelense, e primeira pessoa a ser executada pelo Chacal.

Na Venezuela, Carlos continua a ser visto como um herói. Um blog em sua defesa (www.ilichramirez.blogspot.com) é um dos mais visitados do país. Há quem diga ainda que Chávez estaria disposto a negociar com os franceses a sua transferência para uma prisão venezuelana. Apesar de todos os crimes que lhe atribuem, Carlos nega que tenham sido praticados por motivos “comuns”, mas sim por um ideal político. Questionado sobre sua profissão na abertura do atual julgamento, respondeu em voz firme e em tom desafiador: “Revolucionário profissional. Leninista.” Já a imagem romantizada daquele homem de cabelos pretos, óculos escuros e jaqueta de couro ficou mesmo no passado. Aos 62 anos de idade, o velho Chacal tem cabelos e barba grisalhos e sofre de dor nas costas. Será o fim do mito Chacal? Magdalena não vacila em responder: “Inchalá.”

Destroços de um ataque à bomba, em Paris, atribuído a ele. O crime, de 1982, deixou um morto e 63 feridos

 

“O sonho dele era ser estrela em Hollywood”

Pouco afeita a entrevistas, Magdalena recebeu Status em sua casa, na Alemanha, graças à intermediação de seu psiquiatra. Foi por sugestão dele, inclusive, que ela decidiu escrever suas memórias, resultando no livro Os anos de terror: minha vida ao lado de Carlos (somente em alemão). Aqui, trechos da conversa.

Esse livro é um exorcismo, uma reescrita da história?
Não há como fechar esse capítulo da vida e esquecer. Quando terminei de escrever, achei que tivesse conseguido. Não é possível. Terei de viver com isso até o fim.

Não era uma criança. Poderia ter-se negado…
Tem razão. Eu tinha quase 30 anos. Não tinha desculpa. Mas a sensação que tenho é de que estava possuída. Fazia coisas contra minha vontade.

Você o acha inteligente ou apenas um jogador instintivo?
Ambos. É um mestre em encontrar as fraquezas dos adversários e também muito inteligente. Mas não passa de um psicopata social.

Sabe se ele já leu seu livro?
Acho que sim. Ele parou de enviar cartões-postais, da prisão, desde que o livro foi publicado.

Num ataque bem-sucedido, quanto faturavam?
Não faço ideia. Recebíamos sobretudo dinheiro do Iraque e da Líbia.

Muamar Kadafi, ex-ditador da Líbia, era um dos principais pagadores?
Sim.

Você conta que Chacal gostava de uma boa vida e não era um habitante das cavernas, como era Bin Laden…
Sim, ele era esse personagem rebuscado. Fazia parte da estratégia de mistificação. O sonho dele era ser a estrela num filme de Hollywood.

Tem ideia de quantas pessoas ele executou?
Não sei quantas. Muitas. Ele mataria todos os traidores. Era a sua maior obsessão. Chegou a meter uma de suas amantes debaixo de um bloco de concreto.

Não sente compaixão por ele?
O que é compaixão? Perdoá-lo por ser um psicopata, um machista, um assassino? Não posso tirá-lo da minha vida. É tudo que posso dizer.