TUDO POR UMA VOLTA AO MUNDO

O sonho de Diogo Guerreiro e Flavio Jardim era contornar o planeta de veleiro. Mas não tinham grana nem patrocínio. Para provar a seriedade do projeto, os dois se lançaram em duas aventuras inéditas: viajar do Chuí ao Oiapoque e fazer a travessia Fernando de Noronha-Natal, ambas de windsurf, sem barco de apoio. A recompensa das façanhas foi um catamarã de 45 pés como casa durante dois anos e meio no mar

 

Diogo e Flavio (mostrando a língua), se jogam para mais uma sessão de surf na Indonésia

OITO ANO. ESSE FOI o tempo que os catarinenses Diogo Guerreiro e Flavio Jardim, ambos com 30 anos de idade, levaram para preparar seu plano de volta ao mundo de veleiro e mostrar aos patrocinadores que eles não estavam brincando. Como não tinham dinheiro para comprar um barco, os dois montaram um ambicioso projeto. Percorrer todo o litoral brasileiro sobre pranchas de windsurf e completar a maior travessia oceânica já realizada, também de windsurf. Os feitos não contaram com o acompanhamento de um barco de apoio.

“Éramos quatro amigos: eu, Flavio, Eduardo Moreira e Fabio Braga – todos capitães amadores pela Marinha do Brasil, com conhecimentos em navegação astronômica, meteorologia e mecânica motonáutica, e praticantes de surf, windsurf, kite surf e paddle surf. Começamos a pensar o porquê de ninguém nos levar a sério”, conta Diogo. A conclusão a que eles chegaram foi a de que precisavam de mais visibilidade e credenciais para ser notados pelas eventuais empresas patrocinadoras.

Nascia assim a Expedição Destino Azul, cuja primeira empreitada foi a viagem Florianópolis-Fernando de Noronha-Florianópolis, a bordo do veleiro emprestado Xamã, em que eles navegaram 4.000 milhas (7.500 km), em 2002. A expedição gerou um documentário chamado Da ilha da magia à ilha dos golfinhos. “Nessa época, todos nós paramos para fazer faculdade. Eu entrei em arquitetura, Flavio em direito, Fabio em medicina e Eduardo em engenharia”, diz Diogo. “Continuamos assim, estudando, pegando onda e velejando por dois anos.

Aí surgiu a ideia de percorrer a costa do Brasil, de Sul a Norte (do rio Chuí ao rio Oiapoque), de windsurf, sem apoio por terra ou água, somente com uma mochila impermeável nas costas”, lembra Diogo.

Em maio de 2004, Diogo, Flavio e Eduardo – Fabio não quis participar – partiram das águas geladas do Chuí, no Extremo Sul do Brasil, em suas pranchas. Era uma viagem tecnicamente difícil, mas barata, e ia dar a visibilidade que eles tanto queriam. Conseguiram um apoio da marca de surf Mormaii, de R$ 30 por dia. “Na ida para o Chuí, acompanhado de nossas famílias, eu pensava se o que tínhamos proposto era realmente possível, se nosso planejamento e preparação haviam sido adequados”, diz Diogo. “Eduardo, sentado ao meu lado no carro, se questionava sobre o porquê de ninguém no mundo ter tentado uma jornada tão longa de windsurf. Flavio tentava mudar seus pensamentos, mas sua mente negava-se a deixar de pensar sobre qual seria a maior dificuldade que enfrentaria na expedição. Seríamos iscas vivas de tubarão?”

Diogo arrasta sua prancha em um mangue no litoral do nordeste

A intenção era sair no inverno para aproveitar as frentes frias. “Na semana que precedia o início da viagem, nossos sonhos de velejar com sol, ótimos ventos e parar em praias paradisíacas, haviam cedido lugar a pensamentos mais sombrios. Só a experiência prática poderia nos mostrar se havíamos sido competentes. Quantas pessoas não passam suas vidas escondidas sob planos que nunca saem do papel?”, perguntava-se Diogo.
O começo foi muito difícil, pois tinham planejado mal e não levaram roupas quentes o suficiente. Em Santa Catarina, Eduardo acabou desistindo dos perrengues e voltou para a faculdade de engenharia, pela qual se formou. Os velejadores remanescentes percorriam longas distâncias diariamente, entre 20 e 110 quilômetros, parando para acampar nas praias. “Sabíamos que o objetivo era o Oiapoque, mas focávamos na meta do dia, que era uma média de cinco a seis horas na água. Chegamos a ficar um mês parados, depois que fomos assaltados e o Flavio levou uma facada na mão”, conta Diogo. “Pegamos toxicoplasmose quando dormimos na casa de um senhor que tinha um monte de gatos, pois nossa resistência estava muito baixa. E eu peguei uma infecção intestinal e por dois anos depois da viagem tive diarreias quatro vezes por semana. Tenho sequelas disso até hoje.”

Flavio descansa em um “luxuoso” bangalô

Um ano e dois meses depois de partirem, os velejadores haviam percorrido os mais de oito mil quilômetros que separam os dois extremos de nosso litoral, entrando para o Livro dos recordes como os recordistas mundiais em distância percorrida com pranchas de windsurf. A expedição gerou o livro Tempestades e calmarias e o documentário Destino azul, do Chuí ao Oiapoque.

Isolamento no mar
Diogo e Flávio continuaram a inventar novos desafios. A próxima viagem da dupla foi a travessia de windsurf Fernando de Noronha-Natal, de 370 quilômetros de distância em mar aberto, sem barco de apoio, que aconteceu em setembro de 2006. Mas, no dia anterior à partida, Flavio foi mordido por um cachorro e não pôde acompanhar Diogo no desafio. Decidir partir sozinho não foi fácil. “Como a época de ventos favoráveis ia acabar, demoraria mais um ano se esperasse”, relata Diogo.

A dupla velejando

“Partir de Noronha em cima de uma prancha de windsurf é extremamente assustador. Chegando a mar aberto, percebi o quão agitado estava o mar e comecei a pensar sobre a roubada em que eu havia me metido. A ideia de desistir começou a parecer bastante interessante, porém decidi esperar alcançar meu limite”, conta ele. A alimentação seria à base de suplementos em barras, em gel e em pó, além de frutas secas e castanhas, porém como o mar estava incrivelmente mexido, Diogo não conseguiu comer mais do que meia barra de cereal nas suas 31 horas de isolamento no oceano. “Também não tomei água o suficiente. Cheguei desidratado e com 5 quilos a menos.”

Depois de ter velejado das 8 às 18 horas, o catarinense abaixou a vela e ficou à deriva, 200 quilômetros da porção de terra mais próxima. “Não conseguia ver a bússola no relógio e um erro naquela distância podia me desviar muito do caminho.” No dia seguinte, enjoado com o forte balanço do mar e debilitado física e mentalmente, Diogo descobriu que seu limite estava além do que acreditava. “Cheguei com ferimentos no pé, mão e virilha, com a retina queimada e com espasmos musculares.”

Acima, Diogo chega a Natal, vindo de Fernando de Noronha, após 31 horas no mar

O projeto audacioso valeu mais um recorde ao velejador, como a maior travessia oceânica de windsurf sem nenhum tipo de apoio externo. Saiu até no Jornal Nacional. E fez com que conseguissem, finalmente, o patrocínio para dar a tão sonhada volta ao mundo. A Mormaii, junto com seus parceiros (Grandene e Technos), comprou um catamarã de 45 pés para a dupla, que em agosto de 2008 saiu de Garopaba em direção ao Caribe.
Foram dois anos e meio morando e viajando em um barco e descobrindo lugares pouco visitados ao redor do mundo; excelentes para a prática de esportes. Mergulho, kite surf, bungee jump e, claro, a vela. Os dois amigos passaram por mais de 40 países em busca de aventuras antes de voltar ao Brasil, em fevereiro deste ano.

 

VIDA LOUCA
A trajetória da aventura de Diogo e Flavio

• Em 2004, Diogo e Flavio completaram um trajeto que entrou para o Livro dos recordes. Uma travessia, de windsurf, do Chuí (RS) ao Oiapoque (AP), que durou um ano e dois meses.
• Dois anos depois, Diogo atravessou de windsurf de Fernando de Noronha (PE) a Natal (RN) em 31 horas.
• Para a aventura ao redor do mundo, a dupla decidiu fazer uma cirurgia a fim de retirar os apêndices para que não tivessem o risco de contrair uma apendicite durante a viagem.
• O momento mais perigoso da volta ao mundo foi no caminho para Moçambique (África). Havia o risco de um ataque pirata, que já contabilizava 420 alertas, em outubro de 2010, apenas naquela região.
• A dupla sonha agora em escalar o Monte Everest (no Himalaia, Ásia).