MEDINA: O NEYMAR DO SURF

Gabriel Medina foi o grande nome do surf em 2011. Mais jovem brasileiro a ingressar no seleto campeonato dos 32 melhores do planeta, o paulista de 18 anos impressiona o mundo com suas manobras aéreas e por ter vencido ninguém menos que Kelly Slater

Por Steven Allain, do Havaí

 

Gabriel parecia nem perceber a praia completamente lotada e os milhares de olhares que acompanhavam cada movimento seu. Som bombando nos fones de ouvido, prancha debaixo do braço e olhar fixo no oceano. As ondas, que ultrapassavam os cinco metros de altura, explodiam sobre a rasa bancada de coral, lançando espuma branca aos céus e pulverizando qualquer um que tivesse a infelicidade de se encontrar em sua frente.
O palco era Pipeline, a onda mais famosa e temida do mundo, que fica no litoral norte da ilha havaiana de Oahu, onde também está a capital Honolulu. O evento, no começo de dezembro, era o último do calendário de 2011 e o mais esperado do ano: o Pipeline Masters. O momento que o paulista de 18 anos havia sonhado por toda a vida tinha chegado e, preparado ou não, ele agora se via prestes a enfrentar os melhores do planeta na maior arena do surf mundial. A corneta sinalizou que era hora de entrar no mar. Gabriel deu um beijo no padrasto, Charles Medina, fez o sinal da cruz e se lançou no oceano.

Embalado pela ótima fase, Medina conversou com a Status, no Havaí, um dia após o término do Pipe Masters. O discurso humilde, resumido e despretensioso, desferido sob um seguro olhar de matador, confirma que ele já aprendeu que palavras valem pouco. “Não sinto pressão para ganhar o título agora, sou novo e tenho muito a aprender”, disse ele. “Tento nem pensar muito nisso. Fico contente apenas de estar representando bem o Brasil.”

Para terror dos melhores surfistas do mundo, Medina terminou 2011 na quarta colocação do ranking mundial, tendo surfado apenas metade do campeonato

O caminho que levou Gabriel Medina a Pipeline é curioso. Sua ascensão, meteórica. Ele nasceu em São Paulo e cresceu em Maresias, litoral norte paulista, praia com uma das melhores ondas do Brasil. Foi lá que lapidou seu estilo fluido e radical e desenvolveu um apetite voraz por ondas tubulares.

Logo nas categorias de base, destacou-se nas competições amadoras e em pouco tempo atraiu o interesse das grandes marcas de surfwear. Há cerca de três anos, seu passe foi disputado nos bastidores com propostas agressivas. No final das contas, a gigante australiana Rip Curl garantiu seu logo no bico da prancha do prodígio brasileiro – estima-se que ele ganhe US$ 750 mil por ano.

Mesmo chamando a atenção de patrocinadores, Medina era apenas mais uma promessa de 15 anos de idade com grande potencial. Só que isso mudou rapidamente quando venceu, em 2009, na França, um campeonato mundial para surfistas sub-18. A notícia de sua vitória correu o mundo do surf – não apenas pelo fato de vencer surfistas de 18 anos, mas sim porque o fez de maneira espetacular. Enquanto a maioria dos competidores apresentava um surf burocrático, tentando encaixar o maior número de manobras numa onda sem cair da prancha, Medina arriscava tudo em dificílimas e inéditas manobras aéreas. E, para surpresa geral, completava a maioria delas.

Na final, chocou o público com uma manobra oriunda do motocross e nunca antes vista em campeonatos de surf, o Superman. No mesmo dia, ganhou o apelido que carrega até hoje: Super Medina. Daí em diante, o garoto ganhou quase tudo. Aos 16, venceu os maiores eventos da 2ª divisão e desbancou nomes estabelecidos no Circuito Mundial como se fossem meros amadores. Com o mesmo approach moderno, radical e arriscado, foi acumulando resultados e subindo no ranking. Na metade de 2011, antes mesmo das previsões mais otimistas, ingressou no Top 32 – o seleto grupo de 32 atletas que compõem a 1ª divisão do surf –, tornandose o surfista mais jovem da história na elite.

Inabalável


Uma controversa regra instituída no início de 2011 determina que os últimos do ranking da 1ª divisão sejam substituídos pelos melhores surfistas da 2ª divisão na metade do ano. Foi assim que Medina teve a chance de disputar as cinco últimas etapas com a elite no ano passado, tempo suficiente para marcar o início de carreira mais avassalador já visto na história do esporte.

Das primeiras quatro etapas que disputou, Medina venceu duas, desbancando os maiores surfistas do planeta com absurda tranquilidade. Nem o 11 vezes campeão mundial, Kelly Slater, foi poupado, amargando duas derrotas para o brasileiro. “Gabriel está ditando o esporte e vai continuar a fazer isso pelos próximos 20 anos”, disse Slater à época.

Mas ainda faltava o maior teste de todos: o Havaí. É lá, no palco das maiores ondas do planeta, que reputações são construídas e destruídas da noite para o dia e onde os homens se diferenciam dos meninos. Só uma performance convincente e corajosa em águas havaianas calaria os críticos de plantão. Se Medina amarelasse, tudo que fez nos últimos meses seria descartado como sorte de principiante. Se fosse bem, confirmaria que é um dos melhores do mundo. Gabriel sabia disso quando pulou na água em Pipeline, naquele 11 de dezembro.

O momento seria difícil para qualquer um. Para um garoto com limitada experiência em ondas grandes e a expectativa de toda uma nação nas costas, a pressão seria quase insuportável. Mas Medina surfou de maneira inabalável. Ele bateu especialistas em “Pipe”, como o havaiano Shane Dorian, e terminou na quinta colocação, justamente na edição do evento que teve as maiores ondas em mais de uma década. “Não resta dúvida, esse garoto é o futuro”, disse, sem cerimônia, o campeão mundial de 2000, Mark Occhilupo, que comentava o evento para a tevê americana. “Achei que ele não iria surfar bem no Havaí, pois esse lugar demanda experiência, mas ele provou que eu estava errado.”

Para terror dos Top 32, Medina terminou o ano na quarta colocação do ranking final, tendo surfado apenas metade dos eventos. Como era de esperar, grande parte do público brasileiro, tão carente por um campeão mundial, já aposta que ele levará o caneco em 2012 – por mais injusta e nociva que seja tal expectativa. Medina, porém, parece nem ligar para a pressão. Tampouco se deslumbra com toda a badalação, seja da mídia, seja do exército de meninas sedentas por um pedacinho do garoto de ouro do surf. Ele permanece um cara tranquilo, despretensioso e de poucas palavras. Tão sossegado que muitas vezes é tido como um garoto sem muito a dizer.

Mas atrás do olhar maroto e da fala calma existe um surfista superdeterminado e competitivo. Em dezembro último, por exemplo, testemunhei uma cena no Havaí que define seu caráter competitivo. Em um dia de poucas ondas, alguns surfistas, jornalistas e fotógrafos reuniram-se para um amigável jogo de basquete. Após a partida, Medina inventou de tentar acertar a cesta chutando a bola, em vez de arremessá-la. Ele falhou nas primeiras tentativas, até que alguém deu sorte, acertou o pé e mandou na cesta. Gabriel passou os próximos 40 minutos tentando, insistentemente, até finalmente conseguir.

Um grande aliado no desenvolvimento de tanta estabilidade e foco certamente é seu padrasto, Charles, que viaja com Gabriel para todas as etapas e acompanha cada detalhe com extrema atenção. Enquanto nos bastidores do meio do surf há quem questione seu papel na carreira do enteado – insinuando que o acompanhamento de um treinador especializado seria mais produtivo –, poucos sabem que Charles é um competente e dedicado triatleta e vive ele próprio uma rotina que demanda extrema disciplina, dedicação e força mental. “Sempre peço a ele que se mantenha sério e humilde, sem perder o prazer e a alegria de surfar”, conta Charles.

“Gabriel está feliz, por isso os resultados estão aparecendo”, analisa Luis Campos, o Pinga, manager de alguns dos melhores surfistas brasileiros, como Adriano de Souza e Jadson André. “Todo mundo gosta de criticar quem está no topo, mas a verdade é que o trabalho com o Charles está dando resultado. Medina não se abala com nenhum adversário. Com a pressão, parece que está apenas se divertindo.”

Em 2012, Medina terá a chance de disputar o título mundial na íntegra. Com a iminente aposentadoria de Slater (que completa 40 anos no mês que vem) e a entrada de uma leva de novos talentos sedentos por seu espaço no cenário internacional, as portas estão abertas para o surgimento de um novo campeão mundial. E ninguém é mais favorito do que Gabriel ‘Super” Medina.

Sequência de manobras aéreas – sua marca registrada – feitas pelo surfista paulista em campeonatos ao redor do planeta