A MECA DO FUTEBOL

O Paquistão está longe de ser uma potência do esporte, mas é lá que fica o maior centro produtor de bolas do mundo: a caótica Sialkot, de onde saem 70% das redondas chutadas neste exato momento nos campos do planeta

Por Caio Vilela, do Paquistão

 

Funcionários da Adnan Sports se divertem na “piscina” de bolas da fábrica

SÃO OITO DA MANHÃ na região do Punjab, e o sol já está mais violento que em Cuiabá ao meio-dia. Após quatro horas chacoalhando a bordo de um 4×4 blindado, chego a Sialkot, a capital do futebol paquistanês. Longe de tudo, quente como o inferno, sem nenhum atrativo cultural ou natural, e com um milhão de habitantes circulando sobre uma precária infraestrutura urbana, ninguém vai lá a turismo. Acompanhado do motorista Nazir, traço um plano de ação: vamos logo visitar os bastidores desse negócio durante o dia, e voltar para a zona de conforto da capital Islamabad antes de escurecer.

Uma bola dourada sobre um pedestal erguido na principal confluência de avenidas marca o centro da cidade. Reverenciando seu ícone máximo, o monumento urbano escondido na caótica fiação elétrica fornece a primeira pista de que essa é uma cidade paquistanesa diferente das outras. Longe da influência do Taleban e das zonas tribais junto ao Afeganistão, porém colada à eternamente tensa fronteira com a Índia, Sialkot merece um pontinho no mapa graças ao milagroso futebol. Não por ter algum craque nativo, coisa difícil de encontrar nessa terra onde o esporte nacional é o críquete. Mas por sua produção e exportação de aproximadas 50 milhões de redondas que goleiam o mercado mundial de artigos esportivos a cada ano. Artigos que já foram vendidos até no Brasil em grande quantidade nos anos 1990, mas que hoje circulam em maior número na Ásia, Europa, África e em todo o subcontinente indiano.

Até a Copa do Mundo de 2006, todas as bolas oficiais da Fifa eram costuradas à mão e produzidas em Sialkot. Na década de 80, a cidade viveu seu apogeu com a bola Tango, usada na Copa de 1982, na Espanha. A primeira bola oficial à prova d’água – e a última feita inteiramente com couro animal – protagonizou jogadas históricas de Zico, Sócrates e Falcão, entre outros grandes craques daquela inesquecível Seleção Brasileira. Isso sem falar dos dribles e gols feitos pelas várzeas e campinhos brasileiros.

O centro de Sialkot, com o monumento ao principal produto local

A grande mudança veio com o modelo usado na Copa de 2010, na África do Sul. A polêmica Jabulani foi a primeira bola oficial a ser fabricada por meio de um processo inteiramente mecanizado e simboliza um passo evolutivo na manufatura das bolas oficiais, embora haja quem discorde. A Adidas, responsável pela grande mudança, introduziu a tecnologia na China no fim dos anos 1990, e a indústria moderna segue firme nas cidades de Zhejiang e Guangdong. Oito fatias coladas em um processo industrial térmico de repente substituíram os tradicionais 32 gomos hexagonais cosidos com carinho e maestria. Segundo o comitê técnico da Fifa, bolas feitas à mão podem desenvolver “zonas mortas” em áreas próximas à costura ao longo do tempo. A ressalva, em teoria, serviria para enterrar o velho modelo. Mas a modernização na China não ameaçou o velho produto paquistanês, que, no fundo, segue sendo mais popular que nunca fora dos estádios.

Um bafo quente e úmido acompanhado de um cheiro de decomposição orgânica invade o interior do carro ao baixar o vidro da janela. Após estacionar em um empoeirado beco, adentramos um sobradão comprido caindo aos pedaços. Ainda na garagem, somos recebidos com um largo sorriso e uma xícara de chá-preto pelo proprietário da Adnan Sports, sr. Adnan Sarwar. “Sialkot pode ter perdido posição para a ameaçadora e numerosa indústria chinesa, mas no fundo a novidade tecnológica pouco afetou nosso mercado”, conta o empresário, revelando também que os produtores de Sialkot já estão providenciando a importação da tecnologia dos gomos colados. “Fato que deverá se consumar em escala industrial em um futuro próximo”, afirma convicto, porém sem muita precisão, o empresário.

A fábrica funciona a todo o vapor sete dias por semana. Entra gente e sai gente em um movimento calmo e relativamente silencioso. O modelo da pequena empresa de Adnan é comum. Ocupando a área do sobrado cheio de puxadinhos, o diretor coordena uma folha de pagamento com 50 funcionários. Em um tour rápido pelos cômodos, conferimos a cadeia produtiva passando pelo pessoal que recebe o couro, a turma que corta os gomos, cola letreiros e adesivos, enverniza, costura, lava, até os que fazem o transporte, serviço de entrega e postagem. Livre para fotografar, circulo acompanhado do atencioso empresário até o relógio marcar meio-dia. Em um movimento simultâneo e silencioso, todos os funcionários interrompem os afazeres para lavar as mãos e iniciar o ritual islâmico de submissão a Alá. Com as mãos estendidas para o céu, os paquistaneses repetem as palavras do profeta Maomé eternizadas no Alcorão.

O ritual não demora mais do que dez minutos. Depois Adnan segue por escadas contorcidas para mostrar a etapa mais desconfortável para os funcionários: o envernizamento. Antes da metade dos degraus, um cheiro químico muito forte ecoa como um soco de impacto irreversível nos pulmões. Ao chegar à laje superior, dois jovens funcionários tossindo e trabalhando com camisas enroladas no rosto se apuram para acabar logo o “trabalho sujo”. Dentro de uma sala sem janelas, forrada com tapetes e com o ar-condicionado ligado no máximo, Adnan e seu irmão Hammad falam ao telefone sem parar, lado a lado, atravessando o dia tomando chazinho e interrompendo o trabalho apenas para rezar. As mulheres da família não aparecem na fábrica. Cuidam das crianças, da casa e da comida fazendo com que o ambiente dentro da Adnan Sports seja inteiramente masculino.

CHOQUE CULTURAL
Nos anos 1990 o orgulho comercial do Punjab foi parar nos rodapés das notícias internacionais com imagens explícitas de crianças trabalhando na indústria. Até 1996, empresas como Nike, Decathlon, Puma, Adidas ou Reebok importavam bolas feitas com mão de obra infantil em Sialkot. Estima-se que, nessa época, sete mil crianças trabalhavam costurando bolas. Hoje o panorama mudou. Essas empresas todas têm seus programas sociais. Não se veem mais crianças trabalhando nas fábricas tão frequentemente como acontecia no século passado, embora seja muito provável que se escondam nos bastidores da jornada de trabalho, principalmente em dias de visita de jornalistas.

De todo modo, se há crianças ajudando a costurar no fundo das casas, isso não choca ninguém. Faz parte do cotidiano da cidade: “É natural por aqui. Todo pai põe o filho para trabalhar o mais cedo possível”, conta Nazir, com seu inglês mal articulado. Basta algumas horas perambulando a pé pelas calçadas de Sialkot para perceber que, no Paquistão, assim como na Índia, China e África em geral, muitas crianças trabalham. É fácil vê-las em ação nas zonas urbanas e rurais. Quanto mais pobre é a região, mais cenas chocantes são presenciadas. Crianças trabalham nos mercados, carregam água, fazem limpeza, ajudam na cozinha, pastoreiam ovelhas. “Para os padrões paquistaneses, costurar uma bola está longe de ser pior para as crianças”, esclarece o motorista. Em um país onde a renda per capita é menor que US$ 2 mil por ano, a população que sobrevive com cinco dólares por dia não costuma recusar trabalho, seja ele qual for. A prova é que cerca de 30% da população economicamente ativa da cidade está envolvida em alguma das etapas da produção das esféricas.

A vocação econômica de Sialkot remete ao século XIX, quando o futebol ainda era uma nova moda no Reino Unido e começava a se espalhar pelo mundo. Naquela época, colonizadores britânicos procuraram um costureiro local em Sialkot para confeccionar uma bola improvisada. O produto saiu tão bem-acabado que a própria população local se encarregou de produzir mais. Até que a moda pegou de forma definitiva. A tradição do negócio foi passando de pai para filho, entre irmãos, sogras, caçulas, primos, vizinhos e quem mais viesse.

PARA AMERICANO VER
Sigo para uma fábrica de menor porte, não distante do centro. Assim, como o empresário Adnan, o concorrente Rehan Soni, diretor-proprietário da Alberta Sports Ltd., exercita sua natural cordialidade com prazer e revela algumas histórias de bastidores. “O selinho Made in Pakistan, perto do bico de inflar, muitas vezes é substituído por Made in China para vender no mercado norte-americano.” Ele também confirma que a demanda segue em alta. “Somos o principal fornecedor para Nike e Adidas, além de produzir modelos especiais sob encomenda para, por exemplo, a Federação Dinamarquesa de Futebol.”

O corte dos gomos, a pintura e a costura do couro são as principais etapas na fabricação das bolas, exportadas a US$ 5 a unidade

O papo está ótimo. A hospitalidade paquistanesa se compara aos momentos mais especiais que tive confraternizando com a gente do Nordeste brasileiro. Mas segurança é prioridade nessa empreitada, e voltar com luz do dia é o mais prudente a ser fazer nas estradas desse país politicamente volátil. O regresso à capital Islamabad se inicia pela mesma estrada. À margem da rodovia, um número impressionante de campinhos com jovens jogando bola, sob a luz dourada do entardecer, prova que o futebol se populariza a cada dia nesse canto remoto do Oriente. É gratificante ver a molecada jogando bola, em vez de trabalhar em sua fabricação. Talvez o crescimento do esporte sirva para trazer algum alívio e felicidade para o cotidiano sofrido do povo paquistanês. Quem sabe o futebol consiga funcionar como idioma universal e ajude o conturbado Paquistão a se entender melhor com o mundo ocidental. Deus queira, ou melhor, Inshallah!