FESTEIRO PROFISSIONAL

Henrique Alves Pinto não mede esforços nem dinheiro quando se trata de celebrar e reunir a nata do PIB mundial

 

Por Vivi Mascaro

 

ESTÁVAMOS ALMOÇANDO NO RODEIO DO SHOPPING IGUATEMI, em São Paulo, eu despudoradamente entregue à tentação da irresistível picanha fatiada, e ele, comportadíssimo, resguardando sua silhueta num franguinho grelhado, quando um amigo meu, jornalista muito bem informado, veio me cumprimentar. Apresentei um ao outro. Meu amigo tratou de comentar: “Ah, então é você, o maior festeiro do Brasil!”
Ninguém que visse Henrique Alves Pinto – para nós, simplesmente Henrique Pinto, ou HP – ali na mesa de almoço do Rodeio, numa sexta-feira cinzenta de São Paulo, haveria de supor que aquele mineiro discreto, de fala mansa, look comportado em jeans e camisa azul, empresário na casa de “algumas centenas de milhões de reais”, é o arquiteto dos melhores Réveillons com que alguém poderia sonhar e de celebrações que mobilizam os jetsetters do mundo inteiro, tanto faz em Copacabana quanto em Trancoso ou em St.-Tropez.

A que ele deu, a bordo do iate Christina O., no verão mediterrâneo de 2011, foi a melhor festa que já fui, em toda a minha vida de cronista social. Tinha de Luigi Berlusconi, filho do dito cujo, à incansável Pamela Anderson. Inesquecível.

Nos seus eventos vão desde Luigi Berlusconi, filho do ex-premiê Italiano, até Ronaldo Fenômeno

Henrique Pinto pediu que nossa conversa fosse curta, porque tinha um compromisso logo após o almoço (fiquei sabendo depois o que era: um grupo estrangeiro negocia entrada na sociedade da Água de Cheiro, indústria de cosméticos que pretende chegar a mil pontos de venda até o fim de 2012). É, gente, o sujeito trabalha, desde os 15 anos dá expediente, é uma fera nos negócios e por isso mesmo não se sente nem um pouco constrangido quando chega a hora de se divertir. “Eu me divirto”, diz ele. “Mas do meu jeito.”

Quer dizer, calmamente, mineiramente, “sem querer aparecer, sem vaidade, sem exibicionismo” – de fato ele nunca quis que a imprensa documentasse e reverberasse seus feéricos eventos. Desconfio que a principal diversão dele se encerre no prazer de divertir os amigos.
Armar uma festa é, para Henrique Pinto, uma operação tão meticulosa quanto uma reunião de trabalho. “Encaro minhas festas com a mesma seriedade com que encaro meus negócios”, diz ele. “Se o Benjamin Steinbruch [da CSN] fosse organizar uma festa, seria tão boa quanto a minha. Ou o Eike Batista… Sem querer me comparar com os dois, claro. Sou peixe miúdo perto deles.”

Aquele senso profissional agudo, de planilha na mão e faro para as oportunidades, funciona tanto numa coisa quanto noutra. Em 2008, ele foi sondado pela megaconstrutora Gafisa para vender a menina dos olhos de seu conglomerado empresarial. Afinal, a Construtora Tenda fora fundada pelo seu pai, engenheiro, em 1994 e ali, como sócio na base de 50-50, é que Henrique descortinou, desde os 21 anos, sua vocação de empreendedor. A Tenda acreditou, em meados da década de 90, que a estabilização da moeda tinha vindo para ficar e passou a investir em habitação popular – e a financiar diretamente a compra. Muito antes do recente boom da classe C, a Tenda já tinha se antecipado. “A gente acertou no atacado, teve alguns erros no varejo”, lembra Henrique. Mas foi um ótimo aprendizado.

A Tenda chegou a patrocinar o Cruzeiro, em contraponto à concorrente MRV, que apoiava o Atlético Mineiro – o que resultou na simpatia não exatamente entusiástica que HP tem pelo time dos senadores Aécio Neves e Zezé Perrela.

Bem, a Gafisa insistiu e a família Alves Pinto passou o controle da Tenda. Sabem quando? Em setembro de 2008. HP deve ter uma bola de cristal. Alguns dias depois – eu disse dias – a crise financeira estourou e um dos setores mais afetados, no mundo, mas também aqui no Brasil, foi o imobiliário. A Gafisa ainda hoje tenta recuperar o vigor que já teve. HP ainda tem um pé na área, com a Globalbras Properties.

Na verdade, imóveis são hoje uma ilhota no arquipélago de empresas que HP fez multiplicar nos últimos anos, sob o guarda-chuva da Globalbras, a holding da qual é o CEO. Para vocês terem ideia, cada vez que um baladeiro se refresca na night com uma latinha do energético Flying Horse ou um adolescente mastiga uma batatinha Pringles, Henrique Pinto fatura um dinheirinho (ele e João Paulo Diniz, sócio dele na Globalbev). Ele é também importador exclusivo da vodca Stolichnaya.

A Colt Aviation compra e vende jatinhos, faz fretamento, manutenção, gerenciamento. É a segunda do gênero no Brasil, depois da Líder. O dono? Henrique Pinto. E mais: investimento em agronegócio; importação e venda de mármores e granitos; fundo de venture capital.
O empresário Henrique Pinto está explicado, não está? Então, podemos voltar ao Henrique Pinto das festas magníficas, dos convites disputados a tapas, com tal requinte de exclusividade que até o Rodrigo Santoro, o mais internacional dos nossos atores, já foi barrado à porta. “Foi um mal-entendido”, explica HP. “Esperou, mas acabou entrando.”

O segredo para ser um HP é – além de estar disposto a não fazer a conta das despesas antes de a conta chegar – dominar a famosa técnica do mix. “Trato bem artista, empresário, pobre, não é verdade que só falo com rico”, diz ele. “Aliás, de gente rica é que estou precisando menos.” No Réveillon que ele promoveu em Trancoso, sul da Bahia, este ano, o mais recente dos que ele tem organizado ano após ano, desde o de 1999 para 2000 (numa cobertura de Copacabana), distribuiu 800 convites. No meio do caminho, percebeu que “tinha PIB demais, alegria de menos”. Tratou de chamar a molecada.

“Eu transito por duas gerações”, orgulha-se, aos 37 anos de idade. Tanto que no seu Réveillon estavam tanto a Donata Meirelles quanto a filha dela, a Heleninha Bordon. Ah, e o Ronaldo Fenômeno. “Ficou até as 10h da manhã.” Pois é, e ainda tinha quem quisesse que o Ronaldo continuasse jogando futebol.