LAERTE COUTINHO

Um dos cartunistas mais famosos do Brasil, ele virou travesti quase aos 60 anos de idade, ainda namora uma mulher e briga para ter o direito de usar o banheiro feminino

 

Por Tom Cardoso

 

Quando decidiu vestir apenas roupas femininas, há três anos, Laerte causou estranhamento até no público mais descolado, que o acompanha há mais de 30 anos. Ele foi apresentado como um adepto do “crossdressing”, termo politicamente correto e – moderninho – para classificar pessoas que gostam de se vestir como o sexo oposto. Foi o próprio Laerte, pouco afeito a eufemismos, que acabou com a frescura: “Sou um travesti.” Ao mesmo tempo que o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) luta para instituir o “Dia do Orgulho Hétero”, e em que aumentam os crimes contra homossexuais, Laerte, o mais talentoso cartunista de sua geração, só quer ter o direito de fazer prevalecer a sua vontade – a de fazer xixi sentado, por exemplo. Recentemente, ele foi impedido de usar o banheiro feminino pelo dono de uma pizzaria, após este ouvir a reclamação de uma senhora, horrorizada com a presença de Laerte no toalete. O cartunista, claro, não se intimidou. “Pretendo continuar reivindicando o direito de usar o banheiro que é adequado à minha identidade de gênero”, diz.

É fácil entrevistar Laerte. Ele diz o que é para ser dito, sem devaneios – difícil, sim, é encontrar qualquer ranço de hipocrisia nas suas respostas. O cartunista está tão à vontade como travesti que não descarta nem a possibilidade de colocar silicone. Mas não duvide que ele volte a comprar cuecas ou deixe a barba crescer. Tratando-se do criador dos Piratas do Tietê, do Overman, do Hugo Baracchini e tantos outros personagens inesquecíveis, tudo é possível. Aliás, a vontade de se vestir de mulher é antiga e só não ocorreu antes por causa da morte de seu filho, Diogo, de 22 anos, em um acidente de carro em 2004. Laerte entrou em crise profunda e demorou pelo menos três anos para sair do abismo. Ele deve parte da sua recuperação à decisão de se tornar travesti. A opção, porém, não determinou nenhuma mudança sexual – bissexual assumido, o cartunista namora a mesma mulher há sete anos, e decidiu travestir-se de mulher apenas para ter mais opções em seu armário.

Hoje, aos 60 anos, Laerte só tem duas certezas: de que não fará a menor força para chegar aos 90 anos e que vai dispensar o paletó na hora de sua morte. “Quero ser enterrado de vestido. E com as unhas bem pintadas, por favor”. Com vocês, Laerte Coutinho:

Status – O Angeli diz toda hora que o “Laerte é o melhor cartunista de sua geração, um gênio”, e, ao mesmo tempo, você dá uma entrevista dizendo que tem vergonha de quase tudo o que produziu em 40 anos de carreira. Quem está certo nessa história?
Laerte Coutinho – Ninguém está certo. Eu tenho uma visão crítica sobre o meu trabalho. É assim que eu me vejo. É claro que o meu trabalho tem dimensões interessantes, mas “Deus” para mim é o Angeli. Ele que é o melhor da nossa geração.

– O que ele achou quando te viu pela primeira vez vestido de mulher? O Angeli é um histórico tirador de sarro…
– Ele achou legal. A gente sai por aí, eu de mulher e ele de homem. Ele não está nem aí. Ou você acha que o Angeli, com sua formação libertária, se importa com alguma coisa?

– Quando você sai vestido de mulher…
– Não tem dia que eu saio de mulher – eu saio “todos” os dias vestido assim. Não vou colocar roupa masculina nunca mais, já doei todas as peças.

– Inclusive as cuecas?
– Sim. Mas as cuecas eu não doei. Joguei fora. Cueca não se dá, né?

– Voltando à pergunta anterior. Ao sair vestido de mulher você toma algum tipo de cuidado? Numa cidade em que gays e travestidos são agredidos com frequência nas ruas, é preciso ficar atento, não?
– Comigo ocorreu uma situação oposta a que ocorre com grande parte dos travestis. Eu não passei a ser marginalizado. Pelo contrário. Tornei-me muito mais conhecido com toda essa história de me vestir de mulher. Já fui a diversos programas de televisão. E, como qualquer coisa que aparece na tevê passa a ser objeto de culto, virei celebridade. Quando ando pela cidade, sou tratado com certa reverência. Mas sei que sou exceção, por ser famoso.

– Mas isso não o torna totalmente imune a possíveis ataques…
– Sim, claro, tomo meus cuidados. Evito frequentar redutos machistas. Você não vai me encontrar tomando cerveja num bar cheio de torcedores do Corinthians. Não sou idiota.

– Recentemente, uma senhora deparou-se com você no banheiro feminino de uma pizzaria em São Paulo. Ela reclamou com o dono do estabelecimento, que o proibiu de usá-lo. É verdade que você vai à Justiça para ter o direito de usar o banheiro feminino?
– Não estou “abrindo processo”, acionando advogado, exigindo reparação nem nada disso. Estou interessada na evolução de um processo de esclarecimento sobre direitos civis para a população transgênera. O órgão de Estado responsável por isso foi acionado, mas nenhuma medida punitiva está sendo posta em prática. Pretendo continuar reivindicando o direito de usar o banheiro que é adequado à minha identidade de gênero.

– Quando iniciamos a conversa para marcar esta entrevista, você respondeu a todos os e-mails como se fosse uma mulher. Sempre no feminino. Agora, na resposta anterior, disse “estou interessada”. Você também está decidido a não usar mais roupas masculinas. Em que momento você se comporta como homem?
– Eu sou uma pessoa com dupla cidadania. O fato de flexionar o feminino de vez em quando não quer dizer que eu tenha virado uma mulher. Ainda estou me compreendendo. Não me preocupo se estou “mais mulher” ou “menos homem”.

– Você jamais pensou em operar, tirar o pênis? Ou colocar silicone.
– Não sou um transexual. Aceito o fato de ser homem. Aceito minha genitália masculina. Mas também tiraria numa boa se tivesse condições de saúde para isso. Tenho 60 anos. Silicone talvez eu coloque… Não sei. Estou considerando essas questões. Gosto muito de cuidar das minhas unhas, da minha pele. Agora tomar hormônio, construir uma “neovagina”, eu não faria por causa da idade.

– Mas se tivesse 20, 30 anos…
– Talvez sim, talvez não.

– A impressão que eu tenho é que você tem uma relação muito bem resolvida com essa questão de se vestir de mulher. Você, inclusive, rejeita qualquer tipo de eufemismo. É o primeiro a dizer: “Sou um travesti”, apesar da tentativa da imprensa de rotulá-lo como um “adepto do crossdressing”, termo surgido recentemente para classificar pessoas que gostam de se vestir como o sexo oposto.
– É, eu diria, levando em conta as circunstâncias e conveniências, que o crossdressing não passa de um travesti de classe média (risos).

“Não sou um transexual. Aceito o fato de ser homem. Aceito minha genitália masculina. Mas também tiraria numa boa se tivesse condições de saúde para isso. Tenho 60 anos. Silicone talvez eu coloque... Não sei. Estou considerando essas questões.”

– Você ainda frequenta as reuniões dos crossdressing?
– Eu ia toda quarta-feira. Hoje vou menos. Mas continuo frequentando.

– Não é todo mundo que pode freqüentar…
– Não. São reuniões fechadas. A maioria não quer se expor…

– Mas não seria o primeiro passo para combater o preconceito?
– A realidade é tirânica. Eu sou um artista, tudo é mais fácil para mim. Pertenço “à camada de cima”. Essas pessoas são profissionais das mais diversas áreas, a grande parte de classe média. Pessoas que têm prazer de se vestir como o sexo oposto, mas que não assumem essa realidade publicamente por medo de perderem amizade, emprego, relações familiares.

– Você namora há sete anos – há três se veste de mulher. Mudou algo na relação entre você e sua mulher?
– Você diz…

– Sexualmente.
– Não vou entrar nesse tipo de intimidade.

– Por quê?
– Porque é uma bisbilhotice, uma curiosidade inútil. Eu conheço uma travesti que operou e é casada com uma mulher. Eu não fico perguntando como elas trepam. A cabeça do macho não compreende como duas mulheres transam sem pau. Tanto que a principal fantasia pseudomachista é sempre com duas mulheres gostosas trepando. Por quê? Porque ele se imagina como a peça que falta ali. Ele não consegue enxergar nada além do pau na xoxota. É preciso, urgentemente, promover a revolução dos homens.

– Revolução dos homens?
– Sim, vocês estão em crise há muito tempo. A mulher pode sair de terno, de cueca numa boa. Elas já passaram por todos os movimentos, por tudo. Vocês, não. Não se libertaram. A crise em que vive o gênero masculino é muito grave. A (psicóloga) Christina Montenegro acabou de escrever um livro (Homem ainda não existe) explicando que os homens estão angustiados, em constante crise para se libertar da cultura binária, essa divisão do mundo entre homem e mulher. Quando você fala da mulher existe uma coletividade, uma identidade. O mesmo ocorre com o movimento gay, o movimento negro…

– É, mas tem o movimento encabeçado pelo deputado Jair Bolsonaro, que criou “a parada do orgulho hétero”…
– Pois é, os homens se refugiam atrás de gestos neuróticos, de afirmação quase selvagem. Esse bando de macho que bate no peito e diz que tem orgulho de ser homem. Ele tem é orgulho de ser violento, de ser preconceituoso.

– Pesquisas comprovam que as mulheres são mais prudentes na direção. Você se tornou um motorista mais cuidadoso depois que passou a se vestir de mulher?
– Eu sempre fui um motorista tranquilo. Dirijo do mesmo jeito. E sem salto. Atrapalha muito (risos).

– Você disse que nunca almejou a longevidade e que sempre achou que morreria cedo. Está no “lucro” chegando aos 60? O que mudou? Sente o peso da velhice de certa forma?
– Eu não tenho muita reposta para isso. Eu achava mesmo que não duraria muito – achava que aos 60 eu já estaria no lucro. Quando eu era bem jovem chegar ao ano 2000 era o futuro do futuro. “Ah, os carros não vão ter roda, vão flutuar num colchão de ar.” Eu fiz 50 anos no ano 2001. Os carros continuaram com roda, o lixo continuava em volta de mim, os problemas continuavam os mesmos. Então desmistifiquei o marco simbólico do ano 2000. Hoje, aos 60, eu não vejo muitos motivos para chegar aos 90. Não vou me esforçar para isso. Eu só sei o jeito que eu quero ser velado.

– Como?
– De vestido. E com as unhas bem pintadas, por favor.