NELSON E NELSINHO

O pai fez uma revolução no palco – anjo pornográfico a tirar o sono das famílias carolas. O Filho quis fazer uma revolução de arma na mão. O centenário de Nelson Rodrigues promove aqui o reencontro amoroso de Nelsinho com o “Velho”, cujo pendor para a polêmica e a provocação apenas disfarçava a alma derretida de pai irrestrito, capaz de aceitar, para ele e para os filhos, a liberdade de ser e de pensar diferente

 

Por Camila Lamoglia e Nirlando Beirão

 

O PAI DE NELSINHO – o “Velho”, como o filho o chama – foi um profissional da provocação e do deboche, santo padroeiro dos canalhas e das vadias, artífice de todas as aberrações morais, escrutinador do incesto e das taras, autor de vanguarda que preferiu ser um escrevinhador copioso e maldito, chegando a chafurdar em relatos pornôs com pseudônimo de mulher (“Suzana Flag”). Um Marquês de Sade do subúrbio, encharcado de lascívia, de degradação e de baixeza, cruamente solidário aos obscenos monstros do cotidiano, ele próprio deliciando-se com sua estética dramaticamente embebida em, frase dele, “elementos atrozes, fétidos, hediondos ou o que seja”.

É, não devia ser fácil ser filho do “Velho”. E o “Velho”, Nelson Falcão Rodrigues, o mais carioca dos pernambucanos, jamais se empenhou em preservar a própria família dos respingos de suas frases desagradáveis, de sua incontrolável tentação para desempenhar, nas palavras de um crítico, o papel de “caçador de escândalos”. Mesmo em casa. Sobre filhos, por exemplo, escreveu: “Quando o sujeito é uma besta e não é capaz de fazer nada, faz filhos.” Da família, “o inferno de todos nós”, disse: “Toda família tem um momento em que começa a apodrecer. Pode ser a família mais decente, mais digna do mundo. Lá um dia aparece um tio pederasta, uma irmã lésbica, um pai ladrão, um cunhado louco. Tudo ao mesmo tempo.”

Não devia mesmo ser fácil ter Nelson Rodrigues nas melindrosas funções de pai. Nada disso, contra-ataca Nelsinho, o segundo filho do casal Nelson e Elza (o mais velho, Jofre, cineasta, morreu em agosto de 2010 das sequelas de uma cirurgia no coração) – e Nelsinho o diz com a convicção discreta, mas carinhosa de quem, este ano, no centenário do pai, pretende fazer o possível e o impossível para resgatar para “o autor multifacético”, dramaturgo, romancista e cronista, o lugar que verdadeiramente lhe cabe na cultura brasileira, muito além das incompreensões e dos preconceitos: o de pensador fora do comum, agudo filósofo do dia a dia. Se tem gente que ainda vê o “Velho” como um sátiro desvairado, Nelsinho não está nem aí.

O Ano Nelson Rodrigues já começou com uma exposição no teatro Glauce Rocha, no Rio, mas “o recheio do bolo”, como diz Crica Rodrigues, filha de Nelsinho e neta do “Velho”, será um festival com as 17 peças escritas pelo avô encenadas por trupes diferentes. “A gente quer que venham companhias do Brasil todo”, diz Crica. Será em agosto, mês em que nasceu Nelson. Se o recheio do bolo são as peças, a cereja haverá de ser a publicação do livro em que Nelsinho descreve a relação com o pai monstro sagrado. Mas é bastante improvável que o filho dê conta do prazo, já que, engenheiro de formação, ainda tem a mania de se exprimir com lápis, papel e borracha. “Sou uma besta informática”, diz, num tom reconhecidamente rodrigueano.

O “Velho”, em pose clássica

“Tivemos uma relação de muita discussão, de pontos de vista diferentes e também de pontos de vista convergentes”, lembra Nelsinho. “Mas a gente se aproximou mesmo foi pela via do amor.” Dá para pedir coisa melhor a um pai? O “Velho” e Nelsinho compartilharam de boas experiências e de momentos sofridos – tais como a separação do pai e da mãe e a prisão do filho envolvido na guerrilha. Mas o que os dois tinham de melhor em comum era a prazerosa facilidade em ceder à aventura impulsiva das paixões. “Flor de obsessão”, disse de Nelson Rodrigues um amigo dele. A pecha também caberia facilmente ao filho.

Nelsinho é uma figura. “Parei de beber, como pouco, emagreci 33 quilos nos últimos dois anos”, comenta, enquanto toma água sem gás à mesa de um restaurante no Jardim Botânico. O resultado é uma figura alta e esquálida, peito afundado no que lhe resta de caixa torácica, com uma barba que desce para baixo da última costela (“não corto desde 1972”) e um cabelo liso que quase lhe chega ao cós da calça. Não por acaso, o seu empreendimento mais conhecido, depois de dois anos de clandestinidade e sete anos de cadeia (eventualmente salpicado de tortura e solitária), foi um bar chamado Barbas, em Botafogo, no início da década de 80. A esquerda reunia os cacos e o samba comparecia na figura de Monarco, de Chico Buarque, de Beth Carvalho. Ainda hoje, mesmo com o bar extinto há anos, o Bloco do Barbas evolui por ali antes do Carnaval, arrastando multidões ao sabor da mais completa improvisação e anarquia.

O "velho" com Jofre e Nelsinho, torcendo para o Fluminense no Maracanã

O corpo de faquir, quer dizer, a dieta de faquir de Nelsinho se deve ao imperioso compromisso que ele tem com outra de suas paixões. Aos 66 anos, está louco para voltar a correr atrás de uma bola. “Em maio, eu volto”, diz, com convicção. Futebol é um pendor atávico, mais fora do gramado do que dentro dele. O “Velho” foi incontestavelmente o mais divertido, talentoso e exuberante cronista esportivo de todos os tempos, a quem só mesmo João Saldanha, que chegou a técnico da Seleção, pode se comparar, e apenas no quesito popularidade. Saldanha e Nelson eram amigos de fé – um, comunista, o outro, ferrenhamente anticomunista. Pois é, acontece.

“Para me encontrar, é fácil: é só reparar numa enorme bandeira do Fluminense na janela do prédio do Leme”, orgulha-se Nelsinho. Ele mora no apartamento que foi do “Velho”. É a única herança, além da máquina de escrever Remington na qual o pai vertia fel e mel. O “Velho”, vocês sabem, era obcecadamente Flu. Na família, só Jofre, o primogênito, renegou o DNA. Virou Flamengo. Prova maior de tolerância não poderia haver, da parte de quem viveu 70 anos, como o “Velho”, carregando no peito o crachá de intolerante.

Nelson, a bordo de sua devastadora Remington

Na verdade, era o ímpeto da polêmica que movia o “Velho”. A intransigência dele costumava ser da boca para fora, assegura Nelsinho – e não há ninguém tão credenciado como o filho para atestar, por trás da fachada promocional, propositalmente caricata do “Velho”, os seus momentos de doçura, nos quais a alma aparentemente durona e cínica se derretia feito manteiga. A pergunta que nunca quis calar: como se sentia o assumido porta-bandeira dos reacionários, o anticomunista militante, amiguinho dos militares, ao saber que o filho era espancado nos cárceres brutais da ditadura?

Nelsinho tem essa história muito bem resolvida. Ainda que combatendo em trincheira diferente, o fato é que nunca se sentiu desamparado pelo afeto paterno – mesmo quando os amigos não conseguiam entender como isso era possível. “Ele sempre foi a favor da liberdade, no sentido mais amplo da palavra”, diz Nelsinho. Só podia ser um libertário um sujeito que escrevia aquelas barbaridades que ele escrevia. Já o Nelsinho buscava a liberdade, a seu jeito. Imbuído do mesmo terror que o pai nutria pelo stalinismo, ele foi se desviando lentamente para uma trilha de esquerda. Ao terminar a faculdade, em 1969, percorreu a Europa do capitalismo e a do socialismo, abriu os horizontes e, de volta à casa, sete meses depois, horrorizou-se com a mediocridade truculenta da ditadura e foi se engajando na resistência. Coisa de jovem, poderia dizer o “Velho”. Quem ouve Nelsinho recapitular o passo a passo de sua conversão à luta armada fica propenso a dar razão ao “Velho” quando declarou: “O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: o da imaturidade.” Só faltaria dizer que, no caso de Nelsinho e de tantos outros, além de certa imaturidade, havia tanto o impulso de uma generosidade sincera.

A família, no enterro de Nelson, em 1980

De repente, Nelsinho estava com um Taurus 38 na mão participando de ações do MR-8 graças à expertise de excelente motorista. Mais de dois anos de clandestinidade – e, ao mesmo tempo que elogiava os milicos, o “Velho” via a angústia crispar dentro dele como uma víbora (desculpem, a metáfora é do próprio Nelson). Não tinha como falar com Nelsinho, a não ser quando ele ligava de surpresa de algum orelhão. Mas o “Velho” acabou arrumando um jeito de “marcar um ponto” (na linguagem da guerrilha) com a cria. Rodou a cidade, trocou inúmeras vezes de rotas e de carros com placas frias, e afinal chegou ao destino, um restaurante na zona norte onde o esperava o “Prancha”, codinome de Nelsinho. O “Velho” não perdeu a piada: “Emocionante. Me sinto num filme.”

Emoção é que não ia faltar ao pai cardíaco. “Tivemos uns quatro ou cinco encontros”, lembra Nelsinho. Nos bastidores, o “Velho” acionou seu instinto de pai para tentar tirar o filho da guerrilha – e do Brasil. Chegou a falar com o presidente Médici, de quem ficara amigo nas domingueiras do Maracanã. Se Nelsinho quisesse, ganharia um passaporte e sairia ileso para onde desejasse. Jofre, o irmão mais velho, levou o recado. Nelsinho relutou: “Não acho justo deixar os companheiros na mão.” Como último recurso, o “Velho” despachou Hélio Pellegrino para uma conversa ao pé do ouvido com o filho – menos pelo fato de o amigo ser psicanalista e mais por ser de esquerda. O mensageiro blefou: “Sai, vai embora, nem que seja para fazer um curso de treinamento em Cuba.” Nada feito.

O “Prancha” foi preso em março de 1972 e o levaram para o malfalado Codi da rua Barão de Mesquita. Ficaria encarcerado até 1979. O autoproclamado “reacionário” peregrinou de calabouço em calabouço, visitando o filho comunista e os amigos do filho comunista. Aprendeu, ao vivo, que não vale um tostão furado o que diz um ditador. Meses antes, durante uma partida de futebol, Nelson perguntou a Médici: “O sr. garante que, ao contrário do que dizem, não há tortura no Brasil?” O general-presidente deu-lhe a palavra de honra que não. “De todo modo, eu era um preso especial”, diz Nelsinho. “Um incômodo para o regime. Imaginem só se me matassem na prisão, que complicação!” Nelsinho foi condenado a 84 anos. Uma mudança na Lei de Segurança Nacional – e não a anistia – é que abreviou esse martírio. O pai nunca perdoaria a repressão. Sempre disse que torturador não devia ser anistiado.

O “Velho” foi um poço de contradições – e tinha prazer nisso. “O anjo pornográfico”, em sua própria definição. Moralista ambíguo, odiava a hipocrisia do preto no branco. A melhor síntese de seus personagens são o cafajeste que espreita dentro do santo e o santo que escamoteia o cafajeste; as putas que se acendem à luz da virtude e as virtuosas prestes a cair no lodaçal do vício. Talento superior do teatro, Nelson divertia-se em envergar as múltiplas máscaras da encenação. No entanto, como pai, insiste Nelsinho, ele foi uma persona só – bonachão, extremoso, até piegas.

A maior emoção de sua vida, confessou o “Velho”, não veio de nenhuma consagração artística; aconteceu no dia em que, ao lado do filho algemado, liberado um par de horas do presídio, acompanhou no hospital o nascimento de Cristiane, filha de Nelsinho, sua neta. “Fui concebida na prisão, numa visita íntima”, conta Crica. O “Velho” desabou.

Nelsinho e Crica resgataram recentemente uma carta que Nelson datilografou, “na tarde de 7 de março de 1939”, para a sua amada, Elzinha. Começa sinistra: na descrição de visitas a cemitérios, descobre “a poesia de criancinhas mortas”. “Floresceu em mim o desejo do aniquilamento […] Então, chegaste”, diz à futura mulher. Parece poema parnasiano: a doce redenção pelo amor. Não pode ser de todo mau um sujeito capaz de escancarar assim seu coração.