A CORRIDA DO FIM DO MUNDO

Eles pedalaram 215 km de mountain bike, remaram 116 km por braços de mar gelados e andaram 234 km por montanhas nevadas e bosques fechados. Tudo em sete dias. Conheça a história da equipe brasileira que pensou que ia morrer enquanto disputava a Patagonian Expedition Race, a corrida de aventura mais difícil do planeta

 

Por Piti Vieira

 

O VENTO SURRAVA A BARRACA quando eles acordaram por volta das 3 horas, com uma asma induzida pelo frio, uma espécie de alergia muito forte, com hiperventilação e o peito chiando bastante. O barulho da respiração dos quatro era enlouquecedor. A sensação de morrer por asfixia ficava cada vez mais real. No momento crítico, se a hiperventilação aumentasse, era bem provável que uma parada respiratória acontecesse com qualquer um deles, que estavam prestes a desmaiar. Caco Fonseca, capitão do grupo e também atleta experiente nesse tipo de competição, já tinha passado por experiência parecida e tentava acalmar os companheiros. Aos poucos, eles foram usando técnicas de respiração da ioga para tentar fazer com que aquela agonia passasse. E começaram a rezar (o que fizeram pelo resto da prova), estimulados pela nutricionista e atleta profissional Marisa Helena, a única mulher do grupo. Quando o dia amanheceu, o quarteto já estava se sentindo melhor, mas eles permaneceram dentro da barraca até às 10 horas, quando o tempo esquentou um pouco.

Isso aconteceu no quinto dia da Patagonian Expedition Race – corrida de aventura mais desafiante do mundo, realizada há dez anos na Patagonia chilena –, quando os quatro brasileiros da equipe Selva Kailash estavam no meio de um trecho de trekking de 147 km, próximos ao PC 15 (Posto de Controle, local indicado pela organização por onde as equipes devem passar obrigatoriamente), sem trilha demarcada, orientando-se por bússola e mapa. Como não conseguiam achá-lo, resolveram acampar e dormir um pouco. Montaram apenas uma barraca para facilitar a operação e diminuir o desconforto causado pelaa temperatura negativa. Eles já sabiam que aquela prova seria difícil, mas não imaginavam que chegariam a pedir ajuda divina para não morrer.

Equipes passam por vegetação destruída por castores, uma praga na região, e fazem a aportagem, arrastando o caiaque

Cinco dias antes, às 2 horas da manhã de 14 de fevereiro, era dada a largada da 10ª edição da Patagonian Expedition Race, conhecida também como A Corrida do Fim do Mundo. Do centro de Punta Arenas, cidade no extremo sul do Chile, 19 equipes de aventureiros de países como África do Sul, Austrália, Brasil, Canadá, Cazaquistão, Chile, Colômbia, Croácia, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, entre outros, largaram para um trecho de 75 km de mountain bike. Em três horas, Caco Fonseca, 33 anos; o professor de educação física Marcelo Sinoca, 24; Marisa Helena, 32; e o personal trainer João Bellini, 30, já haviam chegado ao PC 2, de onde fizeram a transição para os caiaques oceânicos.

Cruzaram os 35 km do estreito de Magalhães, com ondas de até 1,5 metro e água muito fria. “Na canoagem, alguns integrantes se sentiram mal, ficaram cerca de quatro horas vomitando, mas continuaram remando. A gente tinha medo de que alguém caísse, porque dizem que ninguém aguenta mais de 20 minutos vivo naquelas águas geladas”, diz Caco sobre outro instante delicado no trajeto. Após uma aportagem de 10 km (quando é preciso arrastar o caiaque por terra), trecho previsto para ser feito em três horas, mas que demorou seis, às 20 horas o quarteto chegava ao Canal Whiteside, de onde partiria uma segunda perna de remo de 20 km, mas a prova estava suspensa pelo horário avançado.

A segunda noite então foi um dark zone (quando a organização da prova julga que um trecho noturno está perigoso e estabelece que todos que chegarem até aquele ponto tenham seus tempos congelados e só prossigam ao amanhecer, em uma nova largada). Foi a deixa para recarregar as energias e os integrantes da Selva dormiram por sete horas. Na relargada, às 6 horas, eles saíram com 20 minutos de atraso em relação aos adversários, porque se enrolaram para desmontar as barracas e arrumar as mochilas dentro dos caiaques. Só foram chegar à Terra do Fogo, onde começava o primeiro trekking, de 87 km, às 14 horas. “Esse primeiro trekking era introdutório para o que viria a seguir, tanto na orientação quanto para vencer os obstáculos naturais da Patagônia”, diz João.

Animados com a velocidade com que vinham progredindo, partiram para o próximo trecho, 140 km de mountain bike por estradas de terra batida, completado em seis horas. Até aqui, a prova já contabilizava 376 km percorridos, de um total de 565 km.

Andando forte
Ao amanhecer do quarto dia, os quatro brasileiros da Selva Kailash se preparavam para enfrentar o trecho de trekking de 147 km pela Cordilheira Darwin, última manifestação meridional da cadeia andina, uma vasta área de montanhas inexploradas e de clima glacial, na ilha da Terra do Fogo, extremo sul do Chile. Caco, Marcelo, Marisa e João estavam na oitava colocação, uma excelente posição para quem nunca havia participado da prova. O quarteto vinha andando forte e a estimativa era de que fizessem esse trecho em três dias. Saíram do PC 9 (dos 19 PCs que a prova apresentava) com as mochilas de 45 litros carregadas com cerca de 15 quilos de equipamentos e mantimentos. De cara, em vez de contornar um vale, resolveram subir uma montanha pela crista e cortar caminho (o chamado passe, no jargão do esporte). Só a equipe que liderava – a multinacional Adidas Terrex Prunesco, tetracampeã da corrida – tinha resolvido fazer o mesmo. No PC 11, a Selva já ocupava a quarta colocação.

Por volta das 21 horas, com o sol ainda no céu, chegaram a um rio que precisava ser cruzado, pois do outro lado estava o PC 12. Nesse ponto, tinham assumido a terceira posição. Jogaram tudo dentro de um saco estanque. Uma corda, presa de uma margem a outra do rio, podia ser usada na travessia. Marcelo foi o primeiro a entrar na água, mas não conseguiu atravessar por causa da correnteza. Voltou e já entrou em estado de hipotermia. “Se a corda estivesse na diagonal, a favor da correnteza, seria mais fácil. Com a água gelada batendo na altura do peito, ficou muito difícil”, diz Bellini, o único da equipe a conseguir cruzar o rio. A alternativa para os outros três foi andar um pouco mais até uma parte mais calma e cruzar nadando. “Cheguei ao outro lado totalmente desorientado. Tinha tirado a roupa para não ficar molhado o resto da noite e estava só de cueca. Demorei uns 20 minutos para voltar a me vestir, de tão lesado que fiquei do frio”, conta ele. Quando o resto do grupo chegou, 40 minutos depois, Marcelo já estava muito debilitado. O contratempo fez com que eles caíssem para a sexta posição.

Da esquerda para a direita, João, Caco, Marcelo e Marisa

Sem desanimar, continuaram caminhando até as 14 horas do dia seguinte, tempo que levaram para percorrer apenas 17 km e atingir o PC 13, no Paço de Las Nieves, o ponto mais alto da prova, próximo a um glaciar – uma das partes mais difíceis da competição, com a vegetação muito fechada. O trekking seguia para o sul, então a cada dia ia ficando mais frio, com mais vento e mais neve. Foi aqui que a asma coletiva pegou os quatro.

Recompostos, o time continuou a caminhar. “Esse dia andamos muito bem. Depois que aquece, parece que você não teve nada”, diz João. Avançaram até o PC 16, que era na beira de um rio. “Chegamos lá por volta das 21h30 e não quisemos arriscar. Acampamos ali e dormimos a noite toda, superquentes, recuperando bem, mas paramos por nove horas. A sétima equipe nos alcançou e acabamos andando com eles o dia seguinte todo.”

Quando chegaram ao canal de Beagle, braço de mar que vale como fronteira entre Chile e Argentina, no PC 18, de onde partiria o último trecho de caiaque (47 km), a prova estava suspensa mais uma vez. A Marinha não havia autorizado a entrada dos competidores na água e os primeiros colocados já estavam parados fazia um dia. O impasse fez com que a organização decidisse por acabar ali a corrida, oito dias depois de ter começado, com apenas dez das 19 equipes inscritas. A vitória da edição 2012 ficou com a equipe Adidas Terrex Prunesco, que contava com um representante da Inglaterra, um da Espanha e dois da Nova Zelândia. A Selva Kailash terminou em oitavo lugar, sete dias e 14 horas depois de ter começado, com a façanha de ser a primeira equipe da América do Sul a triunfar nesse desafio. “Continuo sonhando e sentindo a prova no corpo. É uma sensação imensa de estar vivo”, define Bellini.

João Bellini faz a travessia do rio por onde nenhum outro companheiro de equipe conseguiu cruzar

Travessia do estreito de Magalhães

Trecho de mountain bike