MADAME MANHATTAN

Dona de casa, casada e mãe de quatro filhos, Anna estava acima de qualquer suspeita. Mas, segundo a polícia, ela comandava um milionário esquema de prostituição, em Nova York, envolvendo belas mulheres e homens poderosos

 

Por Renata Agostini, de Nova York

 

JÁ É TARDE DA NOITE EM MANHATTAN e uma Mercedes luxuosa circula calmamente pelo Upper East Side, uma das regiões mais abastadas da ilha. O carro segue quase até o fim da rua 78 e finalmente para em frente ao número 304, um ponto mais discreto do bairro. Não há quase ninguém na rua. A lavanderia vizinha ao prédio já está fechada e um restaurante de comida indiana atende seus últimos clientes. Um sujeito sai do carro, que então dispara. Ele caminha e, ao tocar o número 2F no interfone, faz o dono do restaurante indiano contar “mais um”. O que antes não passava apenas de boatos entre alguns vizinhos foi confirmado pela polícia há pouco mais de um mês: naquele simples apartamento funcionava um bordel e base de um dos maiores esquemas de prostituição de luxo da história de Nova York. No comando da operação não estava uma mulher estilo fatal, mas sim a escocesa Anna Gristina, uma loira de 44 anos, baixinha e mãe de família que, segundo a polícia, construiu uma fortuna de US$ 10 milhões nos últimos 15 anos. Seu diferencial? Selecionar belíssimas mulheres, de preferência com nível superior, e colocá-las em contato com uma clientela poderosa, composta por executivos de Wall Street, políticos, turistas europeus endinheirados e até agentes da própria polícia – uma história com todos os ingredientes para um apimentado filme de Hollywood.

Os advogados de Anna rebatem as acusações apresentando sua cliente como uma mãe exemplar

O caso ganhou as manchetes dos jornais americanos no dia 22 de fevereiro, quando Anna – ou Madame Manhattan, como vem sendo chamada – foi presa após uma minuciosa investigação, que durou cinco anos. E ficou ainda mais intrigante quando, 20 dias depois, outra loira teve de se apresentar à delegacia. Linda, alta e magra, Jaynie Mae Baker, de 30 anos, é apontada como sócia de Anna em sua rede de prostituição. De acordo com a polícia, os encontros entre os ricaços e as meninas de Anna, que cobrariam pelo menos US$ 2 mil por hora, aconteciam não apenas no apartamento do Upper East Side, mas principalmente em hotéis requintados de Manhattan e no escritório dos clientes, em sistema “delivery”. As meninas, segundo rumores, eram escolhidas a dedo por Anna, que, além de proibir drogas, exigia que elas fossem medidas e pesadas regularmente – além de se vestirem bem, como belas jovens da sociedade nova-iorquina. Até agora, pelo menos uma das beldades do suposto catálogo de Anna já se prontificou a falar: Irma Nicci, 27 anos e corpo escultural, confirmou ao jornal New York Post ter trabalhado para Anna por alguns anos. Segundo ela, o negócio prosperou, principalmente, graças às boas conexões de Anna no alto escalão da polícia. Para evitar a “ajuda de amigos”, a Justiça impôs uma fiança extremamente alta para um crime dessa natureza: US$ 2 milhões. Diante da quantia, Madame Manhattan segue presa na penitenciária de Rikers Island e, se considerada culpada, pode pegar até sete anos de prisão. Em conversa à Status, a diretora-executiva de comunicação da Promotoria de Nova York, Erin Duggan, disse que não poderia dar detalhes sobre a investigação, que segue sob sigilo de Justiça, mas afirmou que “todas as acusações estão mantidas”.

Os advogados também exploram a simplicidade do imóvel como uma contradição

Anna se diz inocente. Sua linha de defesa se baseia, principalmente, em um estilo de vida “acima de qualquer suspeita”: dona de casa, casada, mãe de quatro filhos e, para completar, dedicada a proteger os animais. De fato, Anna vivia sem qualquer luxo aparente, em uma casa de classe média na cidade de Monroe, a 80 quilômetros de Manhattan. Ela mesma se descreve como uma “soccer mom”, termo inglês usado para aquela “mãezona” de subúrbio que passa a maior parte do tempo levando e trazendo as crianças da escola, além de acompanhar os filhos em suas atividades esportivas. Nenhuma atitude ou atividade suspeita foi notada pelos vizinhos, que se dizem “chocados” e “surpresos” com o escândalo. Mas, apesar da imagem de mãe de família imaculada, Anna admite que o apartamento, alugado em seu nome, era sim usado por belas mulheres e homens de terno – não como bordel, mas como ninho de amor entre jovens amantes. Em outras palavras, o lugar não passava de uma garçonnière. Nada de ilegal nisso, afirma.

Irma Nicci aparece como uma das supostas garotas de programa de Anna. Ela disse a um jornal local ter trabalhado para a “mãezona”

Sobre o fato de ter sido presa durante um encontro com um executivo do banco Morgan Stanley, a loira disse que estava ali tratando de um projeto para um novo site de relacionamentos. Ela tenta se esquivar das acusações, chamando a atenção para a simplicidade do apartamento em Manhattan, de apenas um quarto e mobília decepcionante – fora, portanto, dos padrões de luxo. Nada de cama redonda, espelho no teto e lençóis egípcios, como se poderia esperar. Um colchão comum e uma pequena cômoda com uma tevê de 14 polegadas seriam as únicas testemunhas dos ardentes encontros que aconteceriam por ali. Mas é na simplicidade do lugar que pode morar o segredo do sucesso de Anna. Na avaliação da polícia, homens de sucesso, endinheirados, eram atraídos sobretudo pela discrição do apartamento, longe de lugares onde poderiam ser reconhecidos. “Via um movimento de pessoas entrando e saindo do prédio que me parecia incomum”, diz a Status Mohamed Azad, dono do restaurante indiano Saffron Garden, que funciona no mesmo prédio que o suposto bordel.

Kristin Davis, considerada uma das maiores cafetinas da história de NY

Caderninhos de segredos
Mas Anna e suas meninas estão longe de ser os únicos personagens na berlinda. Nesse roteiro hollywoodiano, a caderneta de clientes da suposta cafetina é vista como ouro pela imprensa sensacionalista local. Um primeiro nome já veio à tona: uma das meninas de Anna disse à polícia que recebeu dinheiro para fazer sexo com o ex-senador John Edwards, na época pré-candidato à Casa Branca. Ele nega, mas o fato já foi o suficiente para muitos relembrarem o caso Eliot Spitzer, o governador de Nova York que perdeu o cargo depois de ter revelada sua participação no bordel de Kristin Davis, em 2008. Anna disse que “prefere cortar a língua” a falar alguma coisa sobre o caso, mas a promotoria parece longe de desistir: um dos alvos mais recentes é um advogado, suspeito de ajudá-la a lavar o dinheiro recebido com o bordel e que teria todos os detalhes do negócio, inclusive os nomes dos principais pagadores. Ao que tudo indica, os segredos do caderninho de Anna seguem ameaçados. E muita gente em Manhattan poderá se arrepender de ter buscado os cuidados dessa mãezona.

A bela Jaynie Baker, acusada de ser sócia de Anna