ORGIA CLASSE A

Na festa londrina Fever só entra gente bonita e bem-nascida. Nossa repórter esteve lá e provou na pele o prazer que se esconde na capital inglesa

 

Por Julia Smith, de Londres

 

A IDEIA DE UMA ORGIA SEMPRE ME PARECEU UM POUCO SÓRDIDA – um monte de gente se pegando loucamente sem nenhum tipo de compromisso. Mas a minha visão mudou radicalmente até eu me ver cercada de gente linda e desinibida em um dos bacanais mais disputados e frequentados pela alta sociedade de Londres: a Fever, uma festa que está trazendo exclusividade e reinventando a cena do sexo grupal. Ali, a imagem de casais suburbanos sorteando chaves de carro, como acontecia nas surubas dos anos 70, passa bem longe. A Fever é, definitivamente, para quem busca uma experiência extremamente sofisticada, com gente bonita e bem-nascida. E a concorrida balada entrou no meu radar por meio de um amigo que trabalhava servindo bebidas em festas descoladas na capital inglesa. Depois de algumas taças de vinho, ele contou em detalhes as histórias dessas noites de lascívia em que até barman acaba se juntando à brincadeira.

Esse tipo de festa já é comum em países europeus como França, Holanda e Bélgica. Elas costumam ser realizadas em casas luxuosas, com quartos e camas enormes. E o foco, obviamente, é nas mulheres. Muitas vezes na penumbra e com boa música, primam por detalhes que criam o ambiente ideal para que elas se sintam à vontade e liberem suas fantasias. Na Fever, só entram casais e mulheres solteiras – isso depois de um rígido processo de seleção, que envolve o envio de fotos recentes e coloridas. Apenas os “esguios, atraentes e com menos de 40 anos”, como diz o site da festa, podem brincar nesse playground para maiores, que custa 75 libras (cerca de R$ 200) a entrada, por pessoa.

Para mim, a semente foi plantada naquela noite regada a Merlot. Durante meses, a ideia de participar de uma orgia ficou sedutoramente martelando na minha imaginação, trazendo com ela um misto de excitação e nervosismo. Antes de encarar a aventura, porém, tive uma inevitável conversa com meu parceiro. Troca de casais é uma caixa de pandora. E não serve para tapar buraco de relação em crise. Sem nunca ter feito, é difícil saber se vai ser legal, esquisito, se vai rolar ciúme. É sempre bom ter certeza de que os dois seguram a onda. Além disso, na hora da festa, quem está sem roupa em meio a cinco casais não quer ouvir o casal ao lado discutindo a relação. Acaba com o clima e a Fever tem tolerância zero.

Relação devidamente discutida, é chegada a hora de encarar a seleção. Gentil, o amigo barman se oferece para interceder em nosso favor com os organizadores. Mas, se vou a uma festa exclusiva para gente bonita, é para entrar pela porta da frente. A ideia de estar rodeada de mulheres lindíssimas com seios firmes e quilômetros de pernas por si só já me deixa um pouco insegura. Preciso pelo menos saber se conto com atributos suficientes. O biquíni e o bronzeado das férias na Bahia vêm a calhar na hora de escolher as fotos para anexar ao formulário de inscrição. A festa costuma rolar a cada dois meses, mas não tem data fixa. Nossa espera não durou muito: alguns dias depois, recebemos o precioso convite para uma das chamadas club nights, noites que servem como uma introdução ao universo Fever. Realizadas em bares ou casas noturnas, fechadas especialmente para a ocasião, são um meio-termo entre uma balada comum e uma suruba completa. Têm DJ e pista de dança. Só que, em vez das dezenas de quartos das festas “completas”, os mais empolgados precisam se apertar em sofás e, quando o espaço permite, em uma ou duas camas. O que não parece incomodar ninguém.

“O sexo entre mulheres é celebrado, mas homem com homem é terminantemente proibido”

A próxima dúvida é o figurino. O que se veste para uma orgia de alta classe? Onde estão as revistas femininas quando você precisa da matéria “Cinco visuais incríveis para arrasar na suruba fashion”? Na dúvida, opto pelo micropretinho básico, meias arrastão 7/8 e uma calcinha nova de renda. E, aproveitando as dicas do Guia para Novatos que encontro no site da festa, capricho na depilação. Os dias que antecedem a festa são um misto de emoções que vão da excitação e risadinhas cúmplices ao puro pânico. Chegada a hora, dois shots de tequila de emergência para acalmar os nervos, um táxi e estamos em frente a uma porta em uma rua sossegada no centro de Londres. Antes de descer as escadas, relembramos o combinado: desta vez vamos apenas observar. Fico sabendo depois que esse tipo de acordo é comum entre os novatos. E geralmente é abandonado depois da segunda taça de champanhe.

A Fever é uma festa itinerante. Os organizadores estão sempre em busca de lugares descolados – um antigo prédio vitoriano, o último andar de um prédio ou mesmo uma mega-suíte de hotel. Na nossa vez, a brincadeira acontece numa espécie de bar, encravado em um porão. O ambiente tem paredes de tijolos e é iluminado apenas por velas. Há uma pista de dança, rodeada por alguns sofás e o bar. Um corredor escuro leva até um pequeno jardim, reservado para os fumantes, sempre lotado e animado. Até aí, tudo muito normal. A noite começa como outra balada qualquer. Gente dançando ou conversando no bar. As mulheres de vestido curto. Os homens de calça social e camisa sem gravata. Simples e chique. A propaganda não é enganosa. Os frequentadores da Fever são mesmo jovens e atraentes. Mas, para meu alívio, nem todos têm feições e proporções de top model. As mulheres são simplesmente… sexy. Eu já sabia que a média de idade entre as frequentadoras da Fever é de 31 anos – e que elas costumam tomar a iniciativa. Chegando ali, entendo por quê: não são menininhas perdidas na balada. São mulheres seguras, visivelmente dispostas a encarar uma nova experiência sexual de forma bem natural.

Mas voltemos à cena principal. A única indicação do bacanal que está por vir é uma jacuzzi rodeada de velas perfumadas e, mais além, um playroom, que basicamente consiste na maior cama que já vi. Meio sem jeito, puxamos conversa com outro casal, também “surubeiros” de primeira viagem – uma linda polonesa e seu namorado húngaro. Para minha surpresa, não há o tipo de tensão sexual envolvida na caça predatória de uma balada normal. Todo mundo está lá pelo mesmo motivo, todo mundo vai se dar bem. E ninguém vai contar para ninguém. O resultado é um clima de cumplicidade, íntimo e relaxado. Além disso, nada de bêbados inconvenientes, já que os homens não abusam da bebida por causa do notório efeito do álcool no desempenho masculino.

“Sinto carícias nas costas, alguém beija meu pescoço”

À medida que a noite avança, o clima começa a mudar. As pessoas vão chegando mais perto. Percebo que as pessoas se encostam, aqui e ali. O papo animado na pista vira uma dança sensual. Quando você se dá conta, está beijando uma morena maravilhosa. O marido dela observa. O seu também. Os casais vão desaparecendo, engolidos pelo playroom. Decidimos investigar. Ao passar pela jacuzzi, agora lotada de gente bonita – e obviamente sem o menor resquício de trajes de banho – ouço uma menina de 20 e poucos anos dizer para outra, sentada na beira da banheira: “Vem, entra na água, adoraria ver você transar com meu namorado.”

Na cama gigante, observo dez, 20 corpos reluzentes enroscados em um espetáculo que ficará para sempre marcado na minha memória. Tirando um salto agulha ou uma cinta-liga, é todo mundo nu. Fica difícil saber de onde vem a mão que acaricia uma coxa ou a língua que percorre uma espinha dorsal. Depois que os olhos se ajustam à escuridão, vejo que parte da ação envolve duas ou mais mulheres. O sexo entre mulheres é celebrado, mas homem com homem é terminantemente proibido. Casais interagem com outros casais, e grupos maiores vão se formando. Sem precisar de palavras, a coisa simplesmente flui. Ao redor, vários casais observam a orgia, se tocam e, muitas vezes, acabam se juntando ao caleidoscópio de corpos. Estamos falando de tudo: desde beijos com muita língua até o sexo tradicional e suas variáveis. O teto pinga o calor humano. A música que toca na pista, do lado oposto do salão, parece pertencer a outro universo. Aqui, a trilha sonora é a respiração ofegante, os gemidos, os tapinhas. Sentada na beira da cama, tenho um último pensamento coerente. Penso que ninguém passando na rua imaginaria o que acontece no porão abaixo.

Sinto carícias nas costas, alguém beija meu pescoço. Olho para meu parceiro e fica claro que nossa determinação de apenas observar foi deixada para trás, junto com os casacos na chapelaria. Horas depois, emergimos de volta no frio londrino, felizes e cansados, em busca de um táxi. A sensação de que tudo não passou de um sonho só é dissipada pelos olhares e sorrisinhos. E não estamos sozinhos. Levamos um pouquinho da Fever para casa. Lembra da polonesa e do húngaro? A noite está apenas começando.

 

LONDRES PARA ADULTOS
Como a Fever acontece apenas a cada dois meses, selecionamos algumas outras orgias bem exclusivas na terra da rainha

Killink kittens
Assim como na Fever, homens desacompanhados estão vetados e é preciso ter seu cadastro, com foto, aprovado. Mas na Killing Kittens, todos devem usar máscaras e a casa estimula uma espécie de “aqui as mulheres mandam”. Ou seja, o prazer delas vem em primeiro lugar. Espere encontrar gente com grana, já que a entrada custa 300 libras (cerca de R$ 850) o casal. www.killingkittens.com

Little liaison
Depois de algum tempo à procura de um novo local para suas orgias, a Little Liasion retorna em grande estilo, dessa vez em um antigo
navio da marinha inglesa, da década de 20, atracado no rio Tâmisa. Antes de a brincadeira começar, os casais podem se aquecer diante de performances eróticas. O valor da entrada varia de 50 a 100 libras (R$ 140 a R$ 270). www.littleliaison.com

The club
Lá o diferencial é a fantasia. Os organizadores da The F Club sempre definem um tema para a festa para que todos possam vestir-se a caráter (com as mulheres caprichando na sensualidade, claro). |A entrada custa 40 libras (cerca de R$ 115) por pessoa. www.thefclub.com

Our place 4 fun
A festa estimula não apenas o swing, mas também o voyeurismo: ou seja, se não estiver ainda preparado para a suruba, pode apenas ficar no seu canto, observando. Nesse caso, a brincadeira pode sair mais em conta, já que os suingueiros podem levar sua própria bebida. Mas é preciso ser sócio da festa, pagando 40 libras (R$ 100, válidos por seis meses). www.ourplace4fun.com