FAÇA VOCÊ MESMO

Não basta pagar para ter o invocado modelo Rally Fighter. É preciso ser alucinado por automobilismo. Pudera: A pequena montadora americana Local Motors exige que o cliente participe da montagem de seu próprio veículo

 

Por Fabrícia Peixoto

 

AS PEÇAS ESTÃO ALI NA SUA FRENTE: motor Chevrolet, lanternas Honda, transmissão da ZF, retrovisores Dodge. E, mesmo sem qualquer conhecimento em engenharia, você terá de juntar todos esses componentes para montar um carro robusto e de alto desempenho no deserto. Não se trata de um brinquedo, mas sim do Rally Fighter – um imponente veículo off-road, desenvolvido pela pequena montadora americana Local Motors e capaz de atingir a velocidade de 210 km/h, mesmo em um terreno irregular. Quem quer um desses precisa colocar a mão na massa e, obviamente, no bolso. Além de vendido apenas sob encomenda, por US$ 75 mil, o Fighter propõe uma experiência inédita na indústria automobilística: o cliente participa da montagem do veículo. “Desde o início imaginei uma empresa que pudesse oferecer uma experiência e não somente um produto”, diz à Status Jay Rogers, idealizador do projeto e CEO da Local Motors.

A montagem de um Rally Fighter envolve um total de seis dias, divididos em três fins de semana. Mas o processo começa três meses antes, quando o cliente paga o adiantamento de US$ 5 mil e define algumas preferências do carro, como a cor e a estampa, em vinil. Se o futuro proprietário quiser, a empresa transforma a experiência em um pacote de lazer completo. A passagem aérea até Phoenix, sede da companhia, no oeste dos Estados Unidos, é por conta do comprador, mas a partir daí a empresa cuida de tudo. Um serviço de shuttle busca o cliente no aeroporto e o leva até um resort, onde ele fica hospedado durante os fins de semana da montagem, com direito a café da manhã e jantar, além de um acompanhante. Almoço, bebidas e lanchinhos também são servidos ao longo do dia, enquanto o Rally Fighter vai ganhando forma. Ali, tudo é conduzido com a ajuda e supervisão de um técnico, responsável por guiar o processo.

Pouco convencional
O resultado dessa brincadeira de gente grande é um bólido com motor Chevrolet 6.2 litros V8 que gera 430 cavalos de potência. A transmissão, da alemã ZF, pode ser automática, e o veículo atinge 100 km/h em seis segundos. Mas, apesar de ter rally no nome e ser tratado como tal, o modelo da Local Motors não chega a ser um carro convencional para essa categoria, daqueles que encaram qualquer barreira. O Fighter não tem, por exemplo, tração nas quatro rodas (apenas nas traseiras), o que pode deixá-lo patinando em terrenos muito enlameados. O cenário ideal para essa máquina é aquele com obstáculos, mas seco, como o deserto ou estradas esburacadas. A suspensão, independente nos quatro eixos, também é super-reforçada, abrindo caminho para que o carro “voe” sem problemas. Mas se a ideia é usá-lo em cidades de tráfego intenso, como São Paulo, Londres ou Nova York, melhor esquecer: o Rally Fighter tem nada menos que 1,75 m de altura (similar à de um SUV), além de 2 metros de largura e 4,8 m de comprimento – enquanto um popular não passa de 3,8 m de tamanho.

O Rally Fighter ganhando forma na microfábrica da empresa, em Phoenix

Em menos de um ano, foram encomendados e entregues 24 carros e outros 120 estão previstos para 2012. Um resultado expressivo, na avaliação de Rogers, sobretudo por se tratar de um veículo mais específico. “Não estamos nesse mercado para atender grandes públicos”, diz Rogers. Formado em engenharia mecânica pela Universidade de Princeton, o futuro empresário acabou indo parar na Guerra do Iraque, como oficial da Marinha americana. Depois de seis anos de serviços militares, decidiu, enfim, investir em sua paixão. “Nosso objetivo sempre foi trabalhar para grupos de necessidades específicas e preferências regionais”, completa o empresário. No longo prazo, os planos incluem a abertura de outras microfábricas, sempre voltadas para as preferências locais. “Não somos uma montadora tradicional. Não queremos milhões de clientes, mas sim poucos e apaixonados”, diz o CEO.

Todos participam
Além de convidar o cliente a montar seu próprio bólido, a companhia usa o conhecimento de seu público em etapas anteriores, como no design e na avaliação das peças. A empresa é a primeira e única a usar a estratégia do crowdsourcing no setor automotivo. Esse modelo, baseado na “terceirização para a multidão”, em uma tradução livre, permite que os clientes interfiram no produto final. Por meio de fóruns e outras ferramentas virtuais, o público dá sugestões e até mesmo decide como será o carro. Foi assim que o Rally Fighter surgiu: milhares de especialistas, curiosos e apaixonados por carros submeteram mais de 30 mil desenhos. Depois de uma seleção, todos votaram e escolheram o designer vencedor, um estudante de artes da Califórnia, que pelo feito recebeu um prêmio de US$ 10 mil. Escolhido o melhor design, a empresa, então, promoveu diversas discussões virtuais sobre que componentes adotar no carro. Ou seja, praticamente tudo no Rally Fighter é resultado de reuniões virtuais, entre estranhos de mais de 100 países. “Não queremos inventar a roda. Se existe uma boa peça no mercado, vamos usá-la”, diz Rogers, que não descarta o lançamento de um novo modelo, ainda este ano. “Estamos acompanhando as sugestões em nossos fóruns. Tudo vai depender da demanda”, completa.

O design interior escolhido pelo público, por meio de fóruns na internet

A Local Motors não tem a pretensão de competir com as grandes montadoras. Ao contrário: a empresa prefere se apresentar como parceira, e não como concorrente. O Rally Fighter, por exemplo, é um carro Frankenstein, montado com peças das mais diferentes marcas. Funcionou bem? Tem bom preço e disponibilidade? Então esse componente tem grandes chances de ser adotado pela Local Motors. O próprio Rally Fighter já trocou de motor em menos de um ano: entrou o da Chevrolet no lugar de um modelo da BMW, tirado de linha pela montadora alemã. Além de poder atender ao gosto do freguês, a estratégia também livra a Local Motors de altos investimentos no desenvolvimento de produtos. E, como não tem chão de fábrica e tampouco equipes de inovação, a empresa pode se dar ao luxo de ter apenas 22 funcionários – uma ninharia no universo das empresas automobilísticas. “Estamos em um nicho que envolve carros e paixões. Não tem como dar errado”, resume bem.

Traseira do veículo