GABRIEL BRAGA NUNES

Aos 40 anos, o ator fala sobre óvnis, ateísmo, salário na rede Globo, do tédio que lhe rendeu 30 quilos, da aversão ao mundo das celebridades e, claro, das mulheres e da fama de maldito

 

Por Karla Monteiro
Fotos Daryan Dornelles

 

“Um homem na minha idade…” ou “Na minha idade, um homem…”: assim ou assado, Gabriel Braga Nunes começa boa parte dos seus raciocínios. Ele completou 40 anos no dia 7 de fevereiro. Não houve festa. O rapaz não fez jus à fama de bad boy. Passou a noite gravando cenas noturnas da novela Amor eterno amor, da Globo, em que vive o protagonista Rodrigo, um homem bom, com poderes sobrenaturais. E, já com o sol raiando, chegou em casa, um flat no Leblon, e dormiu o sono dos justos. O número redondo parece estar causando uma coisa, um siricutico, uma mudança de direção. “Tenho a sensação de que os 40 para o homem são como os 30 para a mulher. Bate uma responsabilidade, um sentimento de vida adulta. Um vacilo é um vacilo”, diz.

As últimas quatro décadas foram intensas. Gabriel nasceu e cresceu em São Paulo, em berço intelectual, filho dos atores de teatro Regina Braga e Celso Nunes, e enteado de Dráuzio Varella. Fez artes cênicas na Unicamp. E mergulhou fundo na pesquisa teatral. “Eu era rato de laboratório”, diz. Quando acabou a faculdade, teve uma crise existencial e virou bicho grilo. “Tive experiências com kardecismo, candomblé e xamanismo. E os óvnis, eu sempre me interessei pelos óvnis”, conta. A fase mística culminou no ateísmo: “Quem tem fé não respeita o ateu. Igual a tantos gays, que dizem que falta descobrir. Me deixa não ser gay e me deixa ser ateu”, brinca. Segundo ele, a cura para a crise juvenil veio com a entrada para a televisão, em 1996. Aos 30, trinta e poucos, deu-se o início outra crise, dessa vez tédio justamente de fazer televisão. Enfiou o pé na jaca e engordou 30 quilos.

Para se curar de si mesmo, tomou duas providências. Contra o tédio, tirou do baú a guitarra que não tocava desde a adolescência, voltou a ouvir rock e passou até a colecionar guitarras. Tem um quarto só para elas. Dez, no total. E, contra a balança, começou a correr. Nesse meio-tempo, com crise ou sem crise, foi fazendo novelas, uma atrás da outra. Primeiro no SBT. Depois na Globo, onde esteve em sucessos como “Terra Nostra”. E, em seguida, Record. Ao todo, 16 novelas e seis filmes. Quando saiu da última emissora, tinha um plano: botar o pé na estrada, tocar em pubs pela Europa, assistir a shows, virar vagabundo. Vagabundo endinheirado, diga-se, pois já havia construído um belo patrimônio. Só que, nesse momento, recebeu um convite para retornar à TV Globo e encarnar um vilão de Gilberto Braga, em Insensato coração. Isso foi no ano passado. O personagem lhe rendeu fama, dinheiro, sucesso e sossego emocional. E Gabriel, um homem dessa idade, enfiou a guitarra no saco e agora está botando todas as fichas numa vida ordinária. Para ele, hoje, um dia feliz é decorrência de uma noite bem-dormida.

Status – Em 2011, você fez um psicopata, perverso, que entrou para a galeria dos vilões de sucesso de Gilberto Braga. Agora está protagonizando uma novela das seis, Amor eterno amor, com temática espiritualista. Não é difícil ir do oito ao 80?
Gabriel Braga Nunes – O fato de não compartilhar das crenças não significa que eu não esteja envolvido. Esta obra transita num lugar suave, singelo. A mensagem, digamos assim, são as pequenas gentilezas. A gente não se contaminar com as brutalidades e preservar a leveza. Uma chave diferente dos meus últimos trabalhos, sem dúvida, que eram de alto impacto. Passeia noutro lugar, o exercício do bem.

– Você cresceu em São Paulo. Como foi filmar na Ilha de Marajó?
– Marajó é demais. As pessoas têm uma pureza e inocência cativantes. Não foi a minha primeira vez no Norte nem a primeira vez que questionei a necessidade de voltar para São Paulo. Senti aquela coisa de ser envolvido pelo lugar, sabe? Teve um dia que fiz até a dança da chuva (risos).

– Você falou de não compartilhar das crenças de que trata a novela. Você acredita em Deus?
– Não, não fui nem batizado. Não tenho religião. A minha maior fé é no poder de realização das pessoas. Isso tem a ver com estar atento a si mesmo, ao que precisa melhorar. Acredito nisso.

– Você não tem nenhuma crença além do aqui e agora?
– Por que eu vou acreditar? Acreditar em quê? Não sinto necessidade de acreditar em nada. Mas eu respeito a fé. Tem uma coisa que me irrita. Quem tem fé não respeita o ateu. Igual a tantos gays, que sempre dizem que falta descobrir. Isso me incomoda. Me deixa não ser gay e me deixa ser ateu (risos).

– Só uma última pergunta nesse sentido: você teve uma fase bicho grilo, não teve?
– Quando saí da Unicamp, a minha vida estava muito específica, ligada à pesquisa acadêmica. Tinha 21, 22 anos e muitas certezas, era preconceituoso. Uma noite tive um sonho com aquela música: “Bobeira é não viver a realidade… E eu ainda tenho a tarde inteira…”. Sabe essa música (Malandragem, de Cazuza e Frejat, sucesso na voz de Cássia Eller)?

– Claro. Mais anos 80 impossível.
– Essa música estava bombando. Durante um período, martelava, martelava nos meus sonhos. Aí rolou um insight: “Preciso conhecer o mundo lá fora.” Dei uma guinada de 180 graus e fui para o mercado.

– O que você fez?
– Fui procurar os produtores de elenco, o mercado publicitário, fazer fotos… Fui ralar. Entre eu tomar essa decisão e fazer a primeira novela, passei dois ou três anos desempregado e deprimido.

– E foi nesse intervalo que você virou bicho grilo?
– A angústia me levou para o misticismo. Eu tinha muita dificuldade social. Eu era um ser trêmulo, gago. Tive experiências com kardecismo e xamanismo. E também fui bastante a candomblé. E os óvnis, eu sempre me interessei pelos óvnis.

– Viu um?
– Nunca vi, meu. Um dos filmes da minha vida foi Contatos imediatos. Sempre tive o sonho de ver disco voador. Mais do que isso: eu queria ser abduzido. Quando eu pegava uma estrada escura, encostava o carro, desligava os faróis e ficava olhando o céu. Só que não aparecia nada. Aí desencanei.

– E desencanou do resto todo?
– Não aparecia espírito, não aparecia disco voador… Nada… Fui me afastando. Tive experiências fortes no xamanismo.

– Que tipo de experiências?
– De energia, igual agora em Marajó. Quando fico no meio da floresta, tenho experiências fortes. Tenho uma real sensação de que eu não deveria voltar para São Paulo. Não é uma sensação conceitual. É física.

– E por que volta?
– Tenho pânico de cobra (risos).

Gabriel diz que amou sete mulheres até hoje: acima, o galã com a cantora Danni Carlos, com a estilista Karola Baptista e com a atriz Paloma Duarte

– Você disse que era um “ser trêmulo”. Isso mudou com a entrada da televisão na sua vida?
– Rolou uma segurança social. O fato de ser um jovem que começava uma carreira bem-sucedida aplacou as minhas angústias daquele período de questões místicas.

– A televisão te salvou?
– Por um bom tempo trabalhei feliz e satisfeito. Aí eu comecei a sentir tédio, entre 30 e 40 anos. Talvez a proximidade dos 40 tenha me feito pensar em outras coisas. Tipo: “Então, a vida é isso? Você escolhe uma profissão, realiza-se, compra um apartamento bonito, casa e administra o seu mau humor e o mau humor da sua mulher?” Foi essa a crise.

– A crise juvenil você curou com trabalho. Como enfrentou ou está enfrentando a crise da meia-idade?
– Eu me lembrei de um hobby da adolescência: tocar guitarra. Tocar me fascinava e passei os anos 90 sem me lembrar das guitarras.

– O que estava se passando na sua cabeça? Você queria mudar tudo? O que você queria?
– Acho que foi mais ou menos isso que rolou: “Estou no meio da vida, próximo dos 40. Já tenho poder de discernimento e ainda tenho energia de realização. A partir daqui vou ter cada vez mais conhecimento e menos energia.” Ai cogitei morar fora, tocar guitarra, ter uma banda e ficar on the road. Voltei a estudar música, voltei a ouvir rock’n’roll…

– Paralelamente, como estava a sua vida profissional? Declinou por conta da crise pessoal?
– Pelo contrário. Fiz nessa época uma das novelas mais importantes da minha carreira, Cidadão brasileiro, do Lauro César Muniz.

– Não foi nessa novela que você engordou? Lembro-me de você bem gordo.
– Não foi por causa da novela. As pessoas pensaram isso, mas não foi. Ganhei 30 quilos em um ano. Engordei porque estava vivendo totalmente desregrado, fora da casinha. Como bom descendente de italianos, nos momentos de menos felicidade, eu me recompenso com comida e bebida.

– Trinta quilos é muito macarrão e muito vinho.
– Fui engordando, engordando… Como o personagem ia envelhecendo ao longo da história, ficou ótimo. A imprensa dizia: “Grande ator”. Eu pensava: “É, graaande ator. Tudo pela profissão. Gabriel Braga Nunes e Robert De Niro”.

– Você não se importava com a balança? Desencanou?
– Era horrível. O ciático atacou. Tinha preguiça de ir à padaria a pé, chegava suado, cansado. Tudo piora. O sexo piora. Teve um momento em que eu não conseguia amarrar o sapato. Eu já sou um cara de humor instável. Gordo, o mau humor predominava.

– Você ficou insuportável?
– É importante sublinhar. Ao mesmo tempo que eu vivia esse processo “fora da casinha”, foi um momento fundamental da minha carreira. Fiz um protagonista absoluto, com três frentes de gravação por dia. Eu usava helicóptero para me locomover para dar tempo de gravar tudo. Esse personagem virou referência.

– Como você conseguiu, estando tão mal pessoalmente?
– Mergulhei. Trouxe para mim o herói. Pensando nos ensinamentos do Gurdjieff (George Ivanovich Gurdjieff, mestre espiritual greco-armênio), é a atitude do herói mesmo, do superesforço. O mergulho mais profundo, ir além da capacidade, do limite.

– Como você virou o jogo?
– Quando terminou o trabalho e o namoro da época, comecei a correr. Meu propósito era perder a barriga. Meu, eu só usava moletom. Resumindo, para emagrecer, acabei encontrando uma das coisas mais importantes da minha vida: a corrida.

– Correr é uma das coisas mais importantes da sua vida?
– Correr e alongar o corpo aplacam a minha ansiedade. Eu me alimento e durmo melhor. Tenho menos ímpeto de beber e fazer merda. Minha percepção do ambiente ao meu redor se torna mais sensível. As lembranças mais fortes que trouxe de Nova York e de Berlim, por exemplo, são as corridas no Central Park e no Tiergarten. Passei dois meses viajando depois da novela do Gilberto.

– Você participou da São Silvestre em 2011. Está numa onda de maratonista?
– Em Nova York, eu corri pela primeira vez 21 quilômetros. Aí decidi começar a disputar provas. Voltei e corri a São Silvestre. Agora vou fazer a meia maratona do Rio, no início de julho.

– Com a corrida você recuperou a forma, encontrou uma paixão. Mas curou o tédio, a crise com a televisão?
– Depois de Cidadão brasileiro, fiz mais três novelas na Record. Eu não conseguia mais fazer novelas. Fiquei muito tempo pensando em me dar um período sabático. Precisava enxergar quem eu era, o rumo que a minha vida tinha tomado. Eu queria sair do meu mundo, quanto mais distante, melhor.

– E por que você não se deu esse tempo?
– Fui sendo seduzido com o upgrade natural de uma carreira bem-sucedida. Romper com isso era difícil. Acabei não indo. Mas decidi parar de fazer televisão.

– Foi nesse momento que você saiu da Record?
– Sim, 2010. Fiquei na Record de 2005 a 2010. Aí tive convite para três filmes. E também fiz uma participação no seriado As cariocas.

– A ideia não era um ano sabático?
– Poxa, eu pensei: “Não vou sair do meu continente agora. Vou abraçar isso aqui.” Aí, quando terminou tudo, decidi ir. Nesse momento, tocou o meu telefone e era o Denis Carvalho.

– Ele te ofereceu o Leonardo, o vilão de Insensato coração?
– Pois é. Não tinha como recusar. Insensato acabou sendo um dos momentos mais importantes da minha história como ator.

– Mudou muito a sua vida?
– Foi um momento feliz na profissão. Certamente teria feito uma revolução na minha vida aos vinte e poucos anos. Aos 40, essa onda não te vira mais do avesso.

– Mas e o olhar das pessoas para você? Mudou?
– Isso muda o tempo inteiro, se você faz uma novela de sucesso ou de fracasso. Para mim, esse negócio de celebridade não existe.

– Como não existe? E a invasão da vida pessoal, os paparazzi?
– Uma foto saindo do supermercado? Uma foto beijando uma mulher? Não tenho problema nem satisfação com isso. Celebridade é um conceito que passa distante para mim.

– Quanto ganha um ator da Globo na sua posição?
– Dá para ter a expectativa de fazer em torno de US$ 1 milhão por ano, ou mais um tantinho. No nosso país o número assusta… Comparado a outros países, tratando-se de comunicação de massa, é um número pequeno.

– Qual a importância de ser bem-sucedido financeiramente?
– Para mim, é muito importante. Dinheiro é poder de realização. Não no sentido de colecionar. Não tenho afeição pelo número. Mas tenho muito orgulho do poder de realização que eu adquiri.

– Não é Deus, mas o dinheiro que salva?
– O dinheiro traz liberdade. Posso viajar para onde eu quiser, posso fazer o que eu quiser. Isso é maravilhoso.

– Como você aplica o seu dinheiro?
– Meus investimentos são diversificados. Hoje a maior fração é em mercado imobiliário. Mas já foi mercado financeiro.

– Falando de amor, quantas vezes você já amou?
– Considero que amei sete mulheres.

– E o que muda quando você está apaixonado?
– Cada vez é de um jeito. A paixão é plural (risos).

– Não vale resposta vaga. Você fica ansioso, feliz, maluco?
– Ok, basicamente a sensação é de que alguém roubou a minha atenção.

– Você gosta de estar casado?
– Já gostei muito de estar casado. E já tive períodos muito angustiados com a vida de casado. Eu fiquei mais casado do que solteiro. Se você contar quantos anos eu dividi travesseiro e quantos anos meu travesseiro foi só meu, a primeira opção ganha disparado.

– Você está solteiro?
– Estou. E estou muito feliz de estar solteiro.

– Você acredita em casamento?
– Eu acredito em encontrar relações que façam sentido durante um período de tempo, sejam elas quais forem.

– Mas você acredita que casamento é possível num tempo tão rápido, tão líquido como o nosso?
– Dos anos 60 pra cá, casamento é o que a pessoa quiser que casamento seja, vai do trato de cada um. Sempre acreditei que combinado não sai caro. A diversidade sexual e a necessidade de monogamia são assuntos do casal.

– Nossa geração é viciada em emoção. A geração dos nossos pais tinha mais facilidade de lidar com o tédio. Não?
– Quem foi jovem antes dos anos 60, aprendeu coisas que nós não aprendemos, que casamento é algo sólido, necessário. Somos fruto da geração que relativizou a importância disso e mudou o conceito de realização pessoal. Ninguém precisa casar para ser feliz.

– Você tem vontade de ter filhos?
– Muita vontade. Não cogito a possibilidade de não ter. Mas acho que não seria infeliz se não tivesse.

– Mudando de assunto… Drogas. Qual a sua relação com drogas?
– Passei da idade de ter problemas com drogas, até porque… Tenho noção do ridículo! Há vários anos tenho sido um dos caras mais caretas que conheço, e entendo pouco das consequências sociais do consumo de drogas. Teve um momento em que tive que prestar atenção no álcool.

– Você não bebe mais?
– Posso dizer que bebo socialmente.

– O que é beber muito?
– Tenho aflição do amanhecer. Esse é o meu parâmetro: parar de beber quando o sol nasce. Não gosto de ver ônibus passando (risos).

– Foi difícil aprender a lidar com o álcool?
– Tenho conseguido prestar atenção nisso. Hoje eu nem sinto que a minha inclinação para a bebida seja algo difícil de administrar. Antes eu nem tentava administrar. Vivia uma vida de boêmio mesmo.

– Você carrega a pecha de maldito. Isso te atrapalha profissionalmente?
– Carrego? Eu fui ficando progressivamente mais conhecido e fui tendo progressivamente mais sucesso profissional. Então isso me leva a crer que está tudo certo.

– Você não acha que tem fama de maldito?
– Eu acho que existe a sede do maldito. Se a pessoa acorda de ressaca e toma café na padaria com cara de ressaca, já é maldita. Por que eu sou maldito? O que eu fiz? Tomei minhas cervejas? Gosto de guitarra? Pego mulheres em público? Que louco que eu sou, gente? Esse povo não sabe o que é ser louco. Louco é o que eu queria ser.

– Você é vaidoso?
– Hoje em dia tenho vaidade com ficar bem de saúde, manter o peso… Se estou acima do peso, já não fico bem. Olho para a gordura como algo que não sou eu. Uma coisa que se acoplou ali. Não gosto. É uma sensação de limpeza. Nas épocas em que bebo mais, o tipo de suor que sai já me deixa enojado com o meu próprio organismo.

– Descreva um dia ideal, um dia feliz:
– Um dia feliz começa com oito horas bem-dormidas, pois não costumo dormir direito. Aí levanto cedo. Tomo um café leve. Corro 10, 12 quilômetros. Depois, eu me alongo. Alongar me ajuda em lugares que eu não poderia suspeitar. É revolucionário para mim. Determina o meu estado de humor, determina os meus pensamentos. Após tudo isso, claro, um bom banho e um bom almoço. À noite, na volta do trabalho, um jantar gostoso se eu estiver apaixonado. Ou, se não, um chope com os amigos, onde encontro uma linda mulher que segue comigo. Antes de dormir, tomo banho junto com ela e toco uma hora de guitarra. Isso é um dia feliz.