BATALHA CAMPAL

Realizado há 25 anos na Inglaterra, o Tough Guy é a corrida mais difícil do planeta, um campo de treinamento árduo onde só os mais resistentes conseguem cruzar a linha de chegada

 

Por Piti Vieira

 

Água enlameada e quase congelada

O cenário parece ser de guerra ou, pelo menos, de um campo de treinamento da elite do Exército. Mas as centenas de espectadores que se aglomeram em torno do percurso de 13 quilômetros com dezenas de obstáculos mostram que a batalha ali é outra. Em poucos minutos, seis mil homens e mulheres (adolescentes acima dos 16 anos também podem participar com autorização dos pais) lutarão contra os seus limites físicos e psicológicos, passando por áreas alagadas ou cheias de lama da consistência de um milk shake recém-preparado, nadando em água congelada, rastejando por baixo de arame farpado, se deslocando por cordas suspensas e até mesmo pulando chamas bem altas.

É fim de janeiro, as temperaturas na Inglaterra estão em torno de zero grau Celsius, e os corredores de mais de 20 países se espremem na largada da 25a edição da Tough Guy (cara durão, na língua bretã), tida como a mais difícil corrida do mundo, que há quase 20 anos acontece em um local especialmente criado para o evento, perto da cidade de Wolverhampton, região central do país.

Campos pegando fogo

Para se ter uma ideia do tamanho do desafio, é preciso assumir que a maioria dos corredores está bem treinada e é forte. Portanto, se a sua ideia de exercício é um passeio rápido ao redor do parque ou a ocasional corrida até o ponto de ônibus, então esse não é o evento certo para você. Já se o medo de altura, espaços fechados, queimaduras provocadas pelo atrito com as cordas ou mesmo com eletricidade não o intimidam, e se ficar machucado, arranhado, cortado, desidratado, com muito frio e enlameado da cabeça aos pés parece ser uma maneira aceitável de passar uma tarde de domingo, o Tough Guy (TG) é o seu tipo de esporte.

Os 24 obstáculos da corrida apresentam nomes singelos como “The Tiger” e “The Torture Chamber” (a câmara de tortura). “A água gelada, valas para serem atravessadas a nado ou se pendurando em cordas, mais lama, o medo, túneis subterrâneos, água mais fria e mais lama. Isso lhe dá uma ideia muito aproximada do desafio”, diz à Status a designer holandesa Paula IJzerman, que este ano participou pela primeira vez do TG. Para tornar as coisas ainda mais interessantes (para os espectadores), marechais vestidos à carater atiram bombas de fumaça sobre as cabeças dos participantes, enquanto eles lutam contra o cansativo percurso. E, como se tudo isso não bastasse, alguns corredores ainda carregam enormes crucifixos de madeira no ombro, o que só pode ser penitência das bravas.

Uma teia de arame farpado por onde era preciso se arrastar

“É tão cansativo que todos – homens e mulheres, velhos e jovens – devem assinar um termo no caso de eles, você sabe, morrerem, desobrigando os organizadores de qualquer responsabilidade legal em caso de ferimentos ou morte. E não estou brincando”, afirma à Status o idealizador da competição, um senhor de fartos bigodes chamado Billy Wilson, mais conhecido como Mr. Mouse. “Por isso, os participantes assinam um documento, o Death Warrant, que impede qualquer publicidade nesse sentido e nós ajudamos com as despesas do funeral e com o túmulo.” Até hoje, duas mortes ocorreram nos 25 anos de evento – as duas por parada cardíaca. Nos últimos três anos, a organização do TG investiu cerca de um milhão de libras (quase R$ 3 milhões) para aumentar a largura do percurso, que agora comporta seis mil pessoas, em vez das cinco mil das edições anteriores.

Aperitivo desafiador
Em 1986, Mr. Mouse, oficial da reserva da infantaria de elite do exército britânico, achou que o mundo não era duro o bastante. Então, ele começou a construir o campo de treinamento mais árduo da Terra. Seu sucesso se tornou uma lenda como a mais segura e mais perigosa experimentação de pânico, medo e claustrofobia que o planeta já viu. Assim nasceu a Tough Guy, que já na primeira edição reuniu cerca de 3.500 corredores. “Este ano tivemos 4.200 finalistas, 100 pessoas com ossos quebrados, 400 com hipotermia, 300 com desidratação e 600 totalmente derrotadas. E fechamos as pistas depois de quatro horas da largada”, conta o dono da competição. Geralmente, um terço das pessoas não consegue concluir a prova, que pode ser feita por qualquer pessoa disposta a desembolsar 140 libras (cerca de R$ 400), e o vencedor cruza a linha de chegada em torno de uma hora depois de a corrida ter começado.

Depois de passar por um obstáculo em chamas e mais água gelada, os competidores da edição 2012 se enfiam em um túnel de pneus

As mulheres sempre representaram cerca de 10% do total de participantes, mas nas últimas edições esse montante chegou a 15%. “Por que alguém iria querer fazer algo assim? Bem, só posso falar por mim, mas eu fiz isso porque eu posso. Porque o trajeto está lá. Porque eu queria saber se isso estaria perto dos meus limites físicos. E, talvez, apenas talvez, porque eu pensei que poderia ser divertido e porque eu sou totalmente insana”, diz Paula IJzerman. “O tremor por causa do frio parou depois de duas horas que terminei a corrida, a sensação em meus pés voltou depois de três horas, e os meus joelhos e canelas ainda parecem que passaram por um campo de batalha. Foi divertido? Não acho que esta seja a palavra certa para o Tough Guy. Foi uma loucura, foi incrível. Vou fazê-lo novamente? Hell yeah!”

Os competidores do TG enfrentam dois percursos, o Country Miles (milhas no campo), com morros, subidas, escaladas e estradas, e o The Killing Fields (campos de extermínio), um trajeto com arame farpado, fogo, rios congelados, canos embaixo d’água usados como túneis e muito mais. “O começo da corrida é uma pista de cross country comum, muito bem desenhada, com abundância de ondulações, subidas e descidas para testar as pernas de um bom corredor”, comenta o empresário inglês Carl Loben, que terminou na 99a colocação da prova deste ano.

Mais um dos 24 obstáculos dentro do árduo percurso de 13 quilômetros

“Eu estava no pelotão da frente, o que não quer dizer evitar as cotoveladas e as pisadas dos milhares de competidores atrás de mim. Mas isso não significa vantagem. Ao passar por um obstáculo de água congelada, acabei quebrando a capa de gelo, o que fez com que eu afundasse até o queixo e tivesse que quebrar o resto na mão para poder passar. No Tough Guy, você enfrenta cada obstáculo de forma isolada e não olha para o que vem a seguir”, diz Loben.

Com dois terços do percurso já completados, se entra no que a organização da prova chama de “The Killing Fields”, onde é preciso enfrentar alguns desafios monstruosos com água que colocam à prova não só toda a sua fisiologia, mas a sua psicologia também. “Se você não é mentalmente forte o suficiente para combater o frio penetrante e o cansaço batendo forte, seu corpo simplesmente vai se desligar e se enrolar dentro de um espaçoso e acolhedor cobertor, derrotado”, alfineta Mr. Mouse.

"Tivemos 4.200 finalistas este ano, 100 pessoas com ossos quebrados, 400 com hipotermia e 600 totalmente derrotadas.” Billy Wilson, idealizador do Tough Guy

Para os competidores, os últimos 30 minutos da corrida são parte borrão, com a vista quase sumindo, parte experiência fora do corpo, parte sangue nos olhos. “O bater de dentes involuntário, a ausência de sensação nos dedos e, no caso dos homens, os testículos quase atrofiados são algumas das manifestações físicas do sistema nervoso central fazendo hora extra, tentando anular o risco de hipotermia e manter o funcionamento dos órgãos”, diz Loben. Nesse ponto, é simplesmente uma questão de um pé na frente do outro tão rapidamente quanto possível.

A prova, na verdade, é encarada pelos participantes como uma grande brincadeira. Pelos vídeos mostrados no site oficial, dá para se notar que todo mundo se ajuda e dá muitas risadas (especialmente a plateia) e não há prêmios para os vencedores, somente a satisfação pessoal de conseguir cruzar a linha de chegada onde são recebidos com chocolate quente. E como o próprio site oficial do evento diz: ao terminar, você pode estar ensanguentado e quebrado, mas nunca derrotado.