DANIELA ZURITA

Daniela Zurita tem seis anos de Brasil e às vezes, diante de situações e de pessoas que a surpreendem, pelo bem ou pelo mal, ela para e se pergunta: “Será que eu sou de fato brasileira? Será que um dia ainda vou entender este país?”

 

Por Vivi Mascaro

 

“Ser filha do Ivan Zurita ajuda, sim, mas também pode atrapalhar”

Quem conhece Dani – como eu a conheço – sabe que não têm nada de deselegante ou antipático nessas suas ondas de momentânea perplexidade. Dani nasceu aqui no Brasil, em São Paulo, mas é, por DNA, um arremedo das Nações Unidas. Tem sangue espanhol e italiano, por parte de pai, e alemão e português, por parte de mãe. O que produz mesmo o choque cultural é o fato de ela ter vivido 20 anos no Exterior, revezando-se, nas pegadas de seu pai, Ivan Zurita, o estagiário que virou presidente da Nestlé no Brasil, entre países como o Chile, a Argentina, o Panamá e o México, e, por conta própria, na Suíça, onde foi estudar francês. Em Lausanne, diante do lago encantador, ela chegou a desenvolver, com frequência diária, um súbito e agora já esquecido pendor de maratonista. “Hoje meus exercícios mais pesados são o trabalho e a maternidade”, brinca.

Claro que todas essas mudanças de país acabam por ensinar e estimular, mais do que confundir – desde que você seja alguém como a Dani, ligada, antenadíssima. A barafunda começa quando se trata do settle down, de se estabelecer, de se fixar, de trabalhar e de entender os códigos de comportamento de quem trabalha com você, para você e, eventualmente (mas Dani diz que não experimentou isso) contra você. Seis anos no Brasil e dá para dizer que Dani já aprendeu tudo. Aprendeu muito rápido, muito bem. Até com o famosão “jeitinho brasileiro” já se acostumou.

Filha única, saiu aos seus. Seu dinamismo elétrico é o contrário de qualquer comodismo. Ela vive um casamento do tipo conto de fadas (mas, na verdade, com uma rotina caseira, reservada, tranquila, nada estrelada, badalação zero) com Edu Guedes, apresentador da Rede Record (o chef do programa Hoje em dia). Tem uma filha linda, Maria Eduarda, que está para fazer 3 anos. E se desdobra como dona de uma agência de eventos, a DZ, com portfolio de clientes que já extrapolou para a Argentina e África do Sul.

Nem a Dani sabe bem como conseguiu se dividir nas funções de mãe e empresária. “Na mesma semana, abri a agência de eventos enquanto amamentava a Maria Eduarda”, lembra. Não tinha opção: botou mãos à obra. Assim como a filha, a agência ainda não tem três anos, mas já coleciona 26 clientes e dá emprego a 40 pessoas. “Quero administrar uma companhia de porte médio”, diz ela. “Meu ativo é a qualidade, o planejamento, o atendimento su misura, não a gordura do portfólio.” Nem por isso, ou talvez por isso mesmo, é que costumo encontrar a Dani cuidando de acontecimentos melindrosos, espinhosos mesmo.

A última vez foi quando o príncipe Harry, da Inglaterra, o filho mais novo de Charles e Diana, veio ao Brasil para uma partida beneficente de polo, no Haras Larissa do Álvaro Coelho da Fonseca. Foi em março deste ano. Sobrou para Dani organizar, de uma hora para outra, um leilão que arrecadasse fundos para a instituição de caridade que Harry abriu no Lesoto, na África. Leilão é a praia dela, faz tempo que ela ganhou know-how passando no martelo os melhores exemplares de gado Simental e Nelore da respeitável coleção de seu pai (os leilões do Ivan Zurita, seja em Araras, seja em Uberaba ou em Avaré, são a Fashion Week do rebanho nacional: sempre abrem o calendário dos leilões de gado).

No caso do leilão do príncipe, deu um friozinho na barriga. Dani tinha de cuidar de tudo. Cinco dias para inventar os lotes. Foi atrás e conseguiu: a luva de Anderson Silva, lutador de Ultimate Fight, um pôster do Emerson Fittipaldi, uma tela pintada por Chico Anysio e doada por Tom Cavalcanti, uma camiseta do Neymar (“ele foi uma gracinha, fez questão de participar do evento”). Ao todo, 40 lotes. A segurança britânica era bastante rígida, mas no final relaxou. Deu até para Dani se sentar à mesa com Harry e com o argentino Nacho Figueras, o David Beckham do polo mundial. “Fiquei impressionada com o que o príncipe sabe de Brasil”, diz Dani. “Ou pelo menos foi muito bem brifado.”

A pergunta que não quer calar: ter um pai tão influente, tão conectado, não ajuda? Antes de mais nada é bom dizer que Dani Zurita não faz, nem fará, nem quer fazer nenhum trabalho que carregue com ele a marca Nestlé ou um de seus subprodutos. “Ser filha do Ivan Zurita ajuda, sim, mas também pode atrapalhar”, confessa ela. “Claro que fica mais fácil eu pegar o telefone, ligar para o CEO de uma companhia e me identificar. No entanto, na hora de disputar uma concorrência, tanto faz. Os clientes não querem nome, grife. Querem qualidade.”

Aí, pode ser até mais difícil ser “a filha do Ivan Zurita”. Porque o pai – executivo de alto quilate – pode suscitar um difícil padrão de comparação. Mas Dani não se assusta. Nos estandes, nas feiras, nos leilões, em eventos micro ou macro, tanto faz, ela quer que o cliente se sinta envolvido por uma atmosfera de atenção total. “É como chegar num restaurante e ser recebido pelo chef.” E isso vale para um café da manhã corporativo para quatro executivos estrangeiros, para uma convenção do Magazine Luiza ou para a megacompetição hípica da Athina Onassis, que Dani organizou, quando o evento era sediado em São Paulo. “Não escolho cliente pelo tamanho do evento”, diz.

Outra pergunta que não quer calar: tendo um chef de cozinha como o Edu Guedes dentro de casa, será que a Dani consegue ter acesso de vez em quando à cozinha? “Não sou tão ruim assim, sabia? Afinal, morei sozinha muitos anos, na Suíça e quando fiz faculdade no México (ela cursou comunicação)”. Uma noite dessas, Dani arriscou um frango tailandês. Conseguiu um curry especial no bairro oriental da Liberdade e até o leite de coco era asiático. Pela cara do maridão gourmet, até na cozinha ela tem futuro.