VOVÔ PORNÔ

Ele tem no currículo cenas de sexo com mais de 250 mulheres e é um dos atores mais idolatrados da indústria pornográfica no Japão. Shigeo Tokuda, 77 anos, conta à Status o segredo de seu sucesso e, por que não, de sua admirável resistência

 

Por Ewerthon Tobace, de Tóquio

 

Em cena do filme cuidados proibidos com idosos, Tokuda mostra para sua colega de set Hibiki Otsuki quem manda no pedaço

Aos 77 anos, Shigeo Tokuda leva uma vida típica de aposentado no Japão. Vive com a esposa em sua casa, em Tóquio, passa as tardes lendo jornais e livros, assiste à tevê e, à noite, sai para beber com os amigos. Não conhece Twitter, Facebook e confessa ter dificuldades para usar o computador. No ano passado, Tokuda teve um problema cardíaco e foi obrigado a fazer uma cirurgia de ponte de safena que deixou uma longa cicatriz em seu peito. Há alguns anos, seu coração já lhe tinha colocado em apuros. “Mas hoje me sinto ótimo e até penso em voltar a escalar montanhas em breve”, conta, animado, à Status. Quem conhece o simpático senhor pessoalmente pode se assustar com a energia esbanjada. A receita, diz ele, é simples: sexo, muito sexo. É que Shigeo Tokuda, desde que se aposentou do serviço de agente de turismo, trabalha como ator pornô.

Shigeo Tokuda é, na verdade, seu nome artístico. Ele prefere ser chamado assim, pois sua mulher e filhos não sabem – para todos os efeitos – que, nos últimos 18 anos, o patriarca já apareceu em quase 400 filmes, incluindo as produções nas quais fez apenas pontas. “Nunca conversei sobre esse assunto em casa. Só disse que, às vezes, fazia figuração em filmes e programas de tevê. Mas acho que eles sabem o que faço”, confessa, dando de ombros. “Eles devem pensar que sou velho demais para fazer isso por muito mais tempo”, especula. Mas Tokuda deixa claro que não pensa em parar tão cedo. “Enquanto tiver propostas, vou atender”, diz ele, que é também avô de dois meninos.

    
Senhor discreto, de gestos contidos, Tokuda deixa escapar de quando em quando um olhar safado. Vestindo um clássico terno marrom e bebericando café sem açúcar, o ator me atende na sala de reuniões da produtora Glory Quest, localizada em Ikebukuro, Tóquio. O bairro da capital nipônica exala sexo com suas infindáveis casas de prostituição e produtoras de conteúdo pornográfico. Durante nossa conversa, Tokuda tenta ser modesto, distanciando-se de sua faceta de astro pornô. Tem em seu currículo cenas íntimas com todo tipo de mulher, de jovens de 18 anos a senhoras de mais de 60. Ao todo, mais de 250 atrizes já pegaram na famosa bengala do vovô. O mais surpreendente é que Tokuda garante dispensar qualquer tipo de remédio para conseguir a ereção necessária para satisfazer suas colegas de set e cumprir as determinações do diretor do filme. Conta ter se iniciado no ramo depois que fez amizade com um diretor que trabalhava no meio. “Ele me disse que o mercado precisava de atores da minha idade e insistiu dizendo que eu tinha características que ele procurava”, recorda. Após um ano hesitando sobre aceitar ou não a oferta de trabalho, topou. Hoje, alguns de seus amigos têm até inveja do seu metier. “Idosos ficam depressivos facilmente porque não têm muito o que fazer. Ficam loucos”, resume o ator, piedoso.

Shigeo Tokuda é praticamente uma celebridade no Japão. Destas que chegam a ser reconhecidas nas ruas. “Uma vez aconteceu no banheiro de uma estação de metrô. Um funcionário veio falar comigo para me parabenizar pelos meus trabalhos e desejar boa sorte. Fiquei envergonhado porque eu estava urinando”, gargalha. “Mas eu adoro o assédio e espero que um dia meus vídeos sejam lançados em outros países. É um prazer trabalhar nesse ramo, que explora um dos desejos principais e fundamentais do ser humano, o sexo.” Entre seus papéis de destaque, Tokuda já encarnou o sogro que come a nora, o velho tarado que paga para fazer sexo com colegiais, o síndico que bisbilhota a vida de donas de casa que traem o marido e, depois, as chantageiam para fazer sexo com ele ou, ainda, o paciente idoso que tem relação com a enfermeira gostosa. As filmagens, feitas em locações nos arredores da capital japonesa, normalmente levam um dia inteiro. “Doze horas de trabalho duro”, brinca. A rotina inclui ler o script, memorizar as poucas falas e se concentrar para gravar. “Não tenho um ritual especial, apenas procuro cuidar bem da saúde para evitar resfriados e outros problemas comuns de quem já passou da idade de abusar do corpo”, afirma o ator. Por isso, dorme oito horas por dia e evita carne vermelha. “Como bastante vegetal e ovos, além de frango, peixes e mariscos”, dá a receita.

Avô de dois meninos, Tokuda guarda segredo sobre seu trabalho para A família. Diz apenas fazer “figuração” em filmes e programas de tevê

A idade lhe parece ser um mero detalhe. O homem diz que ainda sente prazer durante as relações sexuais, mesmo diante do set de filmagem onde a intimidade é zero. “Sexo é uma coisa indispensável para o ser humano. Principalmente para os homens.” Há mais de 20 anos, porém, ele não tem relações com sua esposa. “Ela não tem mais vontade”, diz o ator, que adora bundas carnudas e prefere contracenar com mulheres mais experientes. “Fico mais confortável. Não sei o que falar para meninas muito novas”, confessa. “Gosto muito de sexo oral, pois ajuda a me excitar, principalmente agora que estou mais velho e não tenho tanta resistência como antes.” Ironicamente Tokuda demonstra certa timidez ao falar de sexo. “Na minha juventude as pessoas tinham vergonha de falar sobre o tema em público. Era visto como algo imoral, e continuo com essa mentalidade”, justifica ele, que afirma ter perdido a virgindade tardiamente: aos 29 anos. Talvez por isso considere o sexo um ato “sagrado”. “É uma comunhão entre duas pessoas. Eu busco ter uma conexão humana profunda com quem vai para a cama comigo.”

Pioneiro no mercado
O vovô safadinho é um caso raro entre atores pornôs no país do sol nascente e mesmo no mundo. Seu nome é referência no mercado local de filmes adultos e seus vídeos ocupam o segundo lugar no ranking de vendas da produtora Glory Quest. Só perde para uma série no estilo dirty sex, na qual jovens são acorrentadas em um banheiro masculino e têm as bocas usadas como mictórios por dezenas de homens. O mais recente trabalho de Tokuda, lançado em março, vendeu até agora duas mil cópias em DVD. Isso sem contar os downloads pagos, que constituem a principal receita da produtora. Apesar da empresa não revelar o lucro gerado pelo vovô pornô, estima-se que, somente no primeiro mês após o lançamento, tenha faturado cerca de R$ 170 mil com a venda dos DVDs.

    

Seu sucesso vem sendo construído ao longo do tempo. Shigeo Tokuda é um dos pioneiros desse relativamente novo mercado de pornografia da terceira idade. Ele começou na produtora Ruby, em 1994, a primeira a investir no gênero. Desde então, outras séries foram produzidas e atores com mais de 50 anos começaram a ganhar espaço. Já a Glory Quest lançou seu primeiro filme com atores mais velhos em 2004, chamado Treinamento maníaco de lolitas (em tradução livre). O retorno foi tão grande que, dois anos depois, a produtora investiu em uma nova série, desta vez com a estrela Tokuda, intitulada Cuidados proibidos com idosos. Hoje, outras produtoras se especializaram em títulos adultos protagonizados por atrizes e atores da terceira idade.

Até porque a indústria de vídeos pornôs é uma das mais rentáveis no Japão, mesmo na atual fase de retração econômica do país. Rende pelo menos R$ 1,8 bilhão ao ano. A cada mês, as duas principais redes de venda de vídeo no país lançam cerca de três mil novos títulos para adultos. A maioria deles exibe esbeltos e jovens corpos de atrizes a atores. Mas os mais experientes vêm ganhando espaço, e hoje ocupam de 30% a 40% das prateleiras. “Os homens mais velhos não gostam de dramas colegiais. É mais fácil para eles se identificarem com histórias do tipo ‘o sogro que come a nora sem-vergonha’”, explica Tokuda. “Além disso, os homens devem se sentir mais seguros ao ver um vovô ainda em plena forma”, diz, rindo.

A produtora Glory Quest afirma que o público principal desse segmento “geriátrico” são homens na faixa dos 30 aos 49 anos. “Essa geração vai envelhecendo, mas não vai deixar de assistir aos vídeos”, diz Akiko Takagi, representante da empresa. “O Japão é um dos países com maior porcentagem de idosos em relação à sua população total e, além disso, tem a mais alta expectativa de vida do mundo.” E muitos deles, provavelmente, sonham em chegar à idade de Tokuda com a mesma forma vista em seus filmes.

 

“Quero continuar nesse ritmo até uns 80 anos”

Shigeo Tokuda recebeu Status para uma conversa franca. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Toma algum tipo de medicamento, como o Viagra, para atuar?
Já tomei. O diretor que me incentivou a entrar nesse mercado me sugeriu experimentar Viagra e provei. Tomei meio comprimido. Deu efeito naquela vez. Depois tomei mais duas vezes, só que apenas um quarto de comprimido, mas essa quantidade não teve efeito.

Agora não usa mais?
Não.

E nunca falhou?
Não (risos).

Qual sua posição sexual preferida?
Gosto quando a mulher conduz a transa, mas nos filmes tenho que fazer várias posições a pedido dos diretores. Já na vida real nunca procurei fazer coisas muito diferentes.

Usa camisinha?
Geralmente sim. Tem situações em que não uso. Quando não dá certo com camisinha por algum motivo, às vezes pelas minhas condições físicas ou da parceira, temos de fazer sem preservativo.

Pretende continuar até quando nesse mercado?
Enquanto tiver propostas, vou atender. Quero continuar nesse ritmo até uns 80 anos.