BEM-VINDOS À ERA HEN

“O quê?! Aquela morena gostosa é o Juquinha?! Rapá!” Ou “Brincou que aquele lutador de MMA bombadão é a Glória Maria!!!”

 

Por Reinaldo Moraes

 

HÁ MUITAS COISAS QUE AS PESSOAS PODEM FAZER, E DE FATO, FAZEM, COM O SEXO. Uma delas é trocá-lo pelo sexo oposto. Embora não seja nenhuma novidade, a troca de sexo sempre dá o que falar, todo dia, em qualquer lugar. E o mais curioso é que até parentes, amigos e conhecidos dos transgêneres são pegos de surpresa quando isso acontece com alguém. “O quê?! Aquela morena gostosa é o Juquinha?! Rapá!” Ou “Brincou que aquele lutador de MMA bombadão é a Glória Maria!!!” Realmente, ninguém sabe o que se passa na cabeça dos outros. (Se soubesse, ninguém se dava mais nem bom-dia, como sugeriu o sempre certeiro Nelson Rodrigues.)

No Brasil, o caso do genial cartunista Laerte já virou carne de vaca, mas ainda me deixa um tanto perplexo, eu que o havia entrevistado para um programa de rádio e bebido com ele numa mesa de bar, junto com outros amigos, apenas poucos meses antes da transformação pública de sua persona visível. Calmo e discreto, o Laerte em versão masculina não era sequer efeminado. Deu pra avaliar o choque que sua nova estampa feminina deve ter provocado em seu círculo íntimo quando vi na Folha de S. Paulo uma tirinha do Angeli, grande amigo de Laerte, em que o igualmente genial cartunista desenha a si mesmo já ancião e entrevado numa poltrona, manta cobrindo-lhe as pernas, a recordar as mulheres de sua vida. “Joana, Margarida, Bia, Cláudia, Margô, Cris…” vai enumerando o personagem, até chegar no último quadrinho, quando, mão espalmada sobre os olhos, em sinal de constrangida estupefação, ele cita a última delas: “Laerte!”

Mas o Laerte, até onde eu sei por suas entrevistas, continua e pretende continuar dono de seus atributos físicos masculinos, ao contrário de outros célebres transgêneres pátrios, como Roberta Close, que ganhou homenagem musical do Erasmo Carlos louvando certo “inenarrável monumento” (uau!) da figura, e Lea T., o filho transexual do campeão do mundo de futebol Toninho Cerezo que desfila como mulher nas melhores passarelas da moda. Lea e Roberta não só botaram peito como cortaram o pingolim e “botaram buceta”, como é conhecida nos meios trans a chamada “cirurgia de redesignação sexual”.

Claro que não só gays masculinos pensam em mudar de sexo. Muitas lésbicas já tiveram a mesma ideia e a puseram em prática. Uma delas é a ex-Lila, atual Lucas Silveira, não o brasileiro, vocalista da banda Fresno, mas o cantor e guitarrista luso-canadense de outra banda, The Cliks, de rock bem mais pesado que a brasileira. Como Lila, era uma figurinha bem esquisita. Como Lucas, continuou esquisitaço. Tudo bem, pois se alguma coisa orna bem com rock é a esquisitice. Andreas Krieger, ex-lançadora de peso olímpica da extinta porção comunista da Alemanha, é outra ex-mulher. Andreas chegou a acusar seu treinador de tê-la induzido quimicamente à mudança de sexo, entupindo-a de hormônios masculinos para turbinar seu desempenho atlético. Uma das mais famosas ex-mulheres é Chaz Bono (nascido Chastity), escritor, ator e músico americano, originalmente filha da cantora e atriz Cher, que o/a teve com seu então marido Sonny Bono. Nas fotos, vemos Chaz como um gordinho simpático com um jeito meio gay, o que, no caso, não deixa de soar como leve ironia.

Embora seja arrepiante a ideia de apresentar os genitais, masculinos ou femininos, ao bisturi, botar buceta me parece anatomicamente mais fácil de imaginar do que “botar pau”, já que a coisa toda depende de uma extração – de uma “pintoctomia,” no caso – e não de um acréscimo. Mas, como é que se implanta um pênis numa mulher? E outra pergunta que não quer calar: de quem é o pinto implantado? De um morto? E se o morto tiver sido um notório broxa em vida? Que zica!

Casos de hermafroditismo à parte, não deve ser nada fácil implantar um pau numa mulher, mesmo na mais protuberantemente greluda. Sei, e creio que o leitor também sabe, como se planta temporiamente um nabo humano no sexo de uma mulher, operação em geral incruenta e bastante prazerosa para ambos os parceiros. E não é preciso ir à Tailândia nem ao Marrocos, destinos comuns dos transgêneres radicais, para realizar tal proeza. Eu mesmo, modestamente, tenho feito isso com certa regularidade aqui em São Paulo mesmo. Talvez com não tanta regularidade quanto a patroa gostaria, especialmente com os 300 canais a cabo à disposição na tevê e a geladeira cheia de cerveja, mas a gente faz o que pode, certo?
Essa história de mudar de sexo, como li outro dia no jornal, pode acabar resultando numa insólita assexualidade. É o caso de Norrie May-Welby, um inglês de 48 anos emigrado ainda criança para a Austrália. Vinte anos atrás, Norrie, que então se chamava Paisley, resolveu encarar a tal cirurgia de redesignação sexual e virar mulher. Até aí morreu o Neves – ou nasceu a Nevas, como queira. Acontece que Norrie, não sei bem por quê, acabou se enchendo de ser mulher, ao mesmo tempo em que não lhe apetecia em nada voltar a ser homem. Problemão? Não exatamente. Norrie apenas parou de tomar hormônios femininos e decidiu se tornar sexualmente neutra, “neuter” em inglês, palavra de gênero justamente neutro. E se deu tão bem com sua neutralidade que acabou convencendo as autoridades australianas a lhe expedir uma carteira de identidade onde, no item sexo, consta: “Não especificado.” Norrie, oficialmente, não é mais homem nem mulher. Nem Neves nem Nevas. É o único ser humano conhecido que não se enquadra em nenhum dos gêneros e contragêneros disponíveis. Não é senhor nem senhora. Não é “sua” nem “seu”. Não é gay nem lésbica. É o quê, então? Só Norrie, no más. E passa muito bem, obrigad_.

O caso de Norrie, porém, está longe de ser uma excentricidade isolada. Na Suécia, um crescente movimento liderado por feministas e transgêneres vem pregando a abolição das identidades culturais baseadas em gênero. Em vez de “han” (ele) e “hon” (ela), essa turma prefere usar o neutro “hen”, neologismo atribuído igualmente a homens e mulheres. A novidade já foi adotada por pelo menos uma escola sueca modernete, a Egalia, que se orgulha de, democraticamente, não distinguir meninos de meninas, e vice-versa. São todos “hen”. A diretora da escola, Lotta Rajalin, em entrevista recente, afirmava, orgulhosa: “Não tentamos fazer as crianças se esquecerem de seus sexos, mas do que é esperado deles.”

Eu, hen?!