NA TRILHA DAS PAPOULAS BILIONÁRIAS

Fomos às montanhas de Mianmar saber como o país asiático está combatendo sua produção de ópio, a segunda maior do planeta, parte de um mercado global de uS$ 68 bilhões

 

Por Eduardo Petta, de Mianmar

 

Em operação realizada em janeiro deste ano, policiais destroem campo de papoula, a matéria-prima do ópio

TARDE DE SOL E CALOR EM Sop Ruak, vilarejo no extremo norte da Tailândia com pouco mais de cinco mil habitantes às margens do Mekong, o maior rio do Sudeste Asiático. À beira do cais, crianças dão cambalhotas na água cor de café com leite por pura diversão. Diante delas, o Mekong abre-se majestoso para consolidar a tríplice fronteira. De um lado do vértice, o Laos, do outro, Mianmar, a antiga Birmânia. Uma região do globo conhecida pela alcunha de Triângulo Dourado, apelido popularizado nas décadas de 1960 e 1970, durante a Guerra do Vietnã. Naquela época, soldados americanos impulsionaram o comércio e o Triângulo Dourado chegou a produzir metade do suplemento de ópio e da heroína (daí o dourado) do mundo.

O estreito barco de cauda longa, típico do Mekong, estaciona no píer de Sop Ruak. Entro a bordo ao lado de turistas europeus. Meia hora batendo motor rio afora e desembarcamos em Tachilek, porta de entrada para o Estado de Shan, no sul de Mianmar, uma próspera cidade cheia de armazéns, típica de fronteira. A presença policial é ostensiva e logo me conduz ao setor de imigração. “O senhor pode permanecer o dia aqui. Basta deixar o seu passaporte e US$ 20. O que deseja ver em nosso país?”, pergunta o oficial da fronteira. “Eu só queria fazer alguns trekkings e conhecer as tribos das montanhas”, digo. É claro, não posso dizer a verdade. Quero seguir a trilha das papoulas que abastecem um mercado global que movimenta, por ano, US$ 68 bilhões e saber mais sobre a produção do ópio – e o que o novo governo nacional está fazendo para combatê-las.

Soldados retiram camponeses de plantação de papoula destruída

Depois de cinco décadas de ditadura militar, Mianmar tem, desde o ano passado, seu primeiro governo civil, liderado pelo presidente Thein Sein. O novo governo vem executando uma série de reformas políticas e econômicas para modernizar o país e quebrar seu isolamento internacional. Para tanto, precisa erradicar o plantio da papoula, a planta matéria-prima do ópio, cujo principal derivado é a heroína, usada por 75% dos 21 milhões de usuários de opiáceos no mundo, de acordo com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). Mianmar produziu cerca de 610 toneladas de ópio em 2011, número que eleva o país ao segundo lugar no ranking dos maiores produtores mundiais da droga, atrás apenas do Afeganistão. Nos últimos cinco anos, a área cultivada com papoula em Mianmar dobrou de tamanho. A papoula (Papaver somniferum) encontra nas montanhas birmanesas solo fértil e mãos acostumadas a cultivá-la. Chegou à região ao final do século 19, quando tribos das colinas vieram do Sul da China, fugindo da Guerra do Ópio entre o gigante asiático e a Grã-Bretanha (de 1839-42 e de 1856-60) pelo monopólio do comércio do ópio.
A derrota na guerra fez com que a China entrasse em recessão, aumentasse impostos e reprimisse os camponeses de tribos nômades, como os Pa-O, Karen, Lisu, Lahu, Akha, Mien e os Hmong, que acabaram migrando para as montanhas da Tailândia, do Laos e de Mianmar.

Hoje, apesar da paz aparente na borda tailandesa, o Triângulo Dourado não morreu. Mudou-se para o interior de Mianmar, onde a papoula ainda é plantada em larga escala, principalmente nas montanhas do Estado de Shan. É vendida através da porosa fronteira de 2.100 quilômetros com a China. De acordo com o UNODC, em 2008 2,2 milhões de chineses consumiram 45 toneladas de ópio de Mianmar. São os principais consumidores do produto birmanês e, junto com os indianos, financiam o mercado da droga no sudeste asiático, avaliado em US$ 2,4 bilhões anuais.

Apesar de manifestar apenas interesses turísticos, não obtive por parte dos oficiais de Tachilek a autorização para acessar as montanhas. A preocupação das autoridades em evitar estrangeiros na região faz sentido: em Shan, assim como no Estado vizinho de Kachin, as plantações de papoula vicejam tanto em razão do clima frio e das altas altitudes como da pobreza e dos conflitos envolvendo grupos paramilitares de grupos étnicos. Em meados de 2011, nas cercanias da cidade de Loilem, um bando rebelde denominado Shan State Army atacou de surpresa um comboio da polícia local, matando seis homens. Além disso, os rebeldes de Shan e uma milícia constituída pela etnia Pa-O, que apoia o governo, entram em confronto regularmente.

Papoulas destruídas antes de terem sua seiva extraída

Segurança zero
Meu plano B passa pela milenar Yagon, a maior cidade de Mianmar, com cinco milhões de habitantes. Aterrisso na cidade vindo de Bangcoc, com visto de turista – o de jornalista leva mais de 60 dias para ser avaliado, e pode ser negado. Enquanto o sudeste asiático se moderniza rapidamente, Mianmar parece preservada em âmbar. Os homens ainda vestem seus longos sarongues até o tornozelo e, por todos os lados, se vê os rituais de cerimônia de monges noviços na rua, passando montados em elefantes, ou em carruagens de bois floridas, em meio a carros quase tão velhos quanto os de Cuba.

Do hotel telefono para meu único contato para entrar no Estado de Shan, Zaw Phyo, um simpático médico birmanês da ONG francesa AMI (Aide Médicale Internationale), que fornece ajuda humanitária em Dala Township, um subúrbio de Yangon, aos refugiados das minorias étnicas vítimas do ópio em Shan. Encontro com Phyo às nove da noite em um barzinho no centro da cidade.

Sem pressa, ele me explica o quadro que encontrou quando visitou os campos de papoula de Shan. “Mulheres sem ter onde dar à luz, saneamento zero, casos de malária, HIV.” Pergunto se pode me colocar na região em segurança. “De jeito nenhum. Mas posso te indicar uma guia que pode te levar até uma vila bem próxima de onde militares, policiais e representantes da ONU estiveram recentemente em operação de erradicação da papoula. Você pode voar para o Lago Inle como turista convencional sem grande dificuldade. E depois ir de barco com ela até a sua casa, em Samkar. Ali acontece um grande mercado, que costuma reunir as etnias envolvidas no plantio e venda de ópio. Mas tome cuidado com quem fala. Você pode estar sendo espionado por quem menos espera.”

Soldados vigiam a região em busca de traficantes

Cerca de 256 mil famílias estão envolvidas na produção de ópio em Mianmar, segundo estimativa da ONU. Cada hectare cultivado com a papoula para a produção da droga gera uma renda de US$ 1 mil, bastante dinheiro em um país no qual um terço da população de 60 milhões de pessoas vive com uma renda média de um dólar por dia. Para retirar os camponeses do plantio da droga, o novo governo nacional busca apoio da ONU e da comunidade internacional para juntar US$ 500 milhões. Com estes recursos, o governo espera que em três anos o país esteja fora do ranking dos maiores produtores de ópio do planeta. O programa desenhado por Mianmar em parceria com as Nações Unidas prevê suporte ao cultivo de culturas alternativas, como alho, tabaco ou cana-de-açúcar, irrigação das propriedades, subsídio para novos sistemas agrícolas e compra de equipamentos, projetos de microfinança comunitária, vacinação maciça e investimento em saúde e infraestrutura, como pavimentação de estradas.

Ao mesmo tempo, o país aumenta a repressão ao cultivo da papoula. Desde setembro do ano passado, policiais, soldados e moradores locais destruíram mais de 21 mil hectares de plantações (o equivalente a 21 mil campos de futebol), o triplo da área erradicada durante a temporada anterior de crescimento. A ação teria impedido que cerca de 30 toneladas de heroína chegassem ao mercado internacional. Apesar das ações de erradicação, o UNODC estima que a área total de cultivo em Mianmar teria crescido cerca de 10% entre 2011 e 2012. Não obstante, o órgão da ONU afirma que o novo regime político e o atual cessar-fogo no país são a maior oportunidade em anos recentes para a comunidade internacional apoiar Mianmar e atacar a questão do ópio e, por extensão, os conflitos internos.

Líderes locais se reúnem com policiais e representantes da Onu para tratar de alternativas ao plantio da droga

Elo entre potências
Com a expectativa de novos ares para o povo de Mianmar, viajo rumo a Samkar observando uma paisagem marcada por cenas rurais: gados pastando, arrozais sendo cultivados. Chego a Nyaung Shwe, capital do distrito de Taunggyi, na parte sudoeste de Shan. Em um típico restaurante birmanês, encontro Khin Khin, a guia indicada por Zaw Phyo. Faz 40 graus Celsius à sombra, mas Khin Khin usa o seu traje tradicional e o longo turbante colorido na cabeça, com nós em forma de flor. Ela está pintada de thanaka, o pó com o qual as mulheres locais cobrem suas faces para proteger-se do sol. Me saúda, pede um chá com leite e abre o sorriso. “Por que você quer ver os campos de papoula?” Respondo também perguntando: “Por que Mianmar resolveu combater finalmente as drogas?”

A guia toma mais um gole de chá, pousa a xícara e, com a paciência zen dos orientais, explica. “Somos um país estratégico para as potências asiáticas. O reino do meio entre Índia, China e Tailândia.” A guia continua: “Nosso território tem o tamanho da França, é tocado ao norte pelas montanhas do Himalaia, ao leste por montanhas e florestas, e ao oeste e ao sul pelo Golfo de Bengala e o Oceano Índico. Mianmar desperta o interesse desde 1855, quando Lorde Randolph Churchill, pai de Winston Churchill, impulsivamente anexou nosso país ao reino britânico da Índia.”

Monges budistas noviços brincam diante de soldado

O domínio inglês só acabaria em 1947, mas sem tempo para comemorações. O assassinato de Aung San, que liderara o movimento de independência, desestabilizou a nação e pavimentou o caminho para os militares assumirem o poder. Foram décadas de um governo marcado pela corrupção, tráfico de heroína e violações dos direitos humanos, incluindo a realocação compulsória de comunidades e trabalho forçado. Em 1988, as forças militares mataram mais de mil pessoas que lutavam pela democracia. Em 1990, as eleições nacionais decidiram por um sistema parlamentarista, mas a junta militar recusouse a reconhecer o resultado. Em 2007, sufocaram a bala e sangue a revolta liderada pelos monges budistas, chamada de Revolução Açafrão (por causa da cor das suas túnicas).

Khin Khin diz que Mianmar quer entrar para o jogo da política e da economia mundial. “A China quer negociar a sua passagem para o Índico e a sua segurança. O mesmo se diz da Índia. Ambos estão de olho nas nossas enormes reservas de gás natural. Os norte-americanos também querem entrar no negócio. Mas todos querem que, antes, o governo acabe com as papoulas, as metanfetaminas e as milícias.” Saímos em caminhada pelo mercado, a essa hora bastante movimentado pelas etnias dos vilarejos vizinhos. O sol abaixa no horizonte e decidimos experimentar uns noodles no estilo Shan. Khin Khin olha em meus olhos e diz que não promete nada, mas… “temos que guardar segredo, pois isso é muito perigoso, mas vou tentar te ajudar”.

Na manhã seguinte, antes do alvorecer, ela bate na porta da minha pensão. Vamos ao cais, apanhamos uma canoa com motor e logo ingressamos na beleza celestial do Lago Inle, 116 quilômetros quadrados de puro azul e água cristalina a 880 metros de altitude. Faz frio no barco e precisamos usar os cobertores que o piloto deixou para a gente. Os pescadores do Inle são conhecidos por seu estilo único de remar com o pé, que envolve equilibrar-se na popa do barco com uma perna, enquanto a outra empurra o remo. Depois de duas horas de barco, temos que parar em mais um checkpoint. “Aqui estamos no território federal dos Pa-O”, diz Khin Khin. Mostro meu passaporte, as autorizações e pago mais alguns dólares. Ainda é cedo, mas já faz calor quando chegamos a Samkar, a ancestral vila fundada em 1479.

Nossa guia Khin Khin, que viu amigas se prostituírem e parentes definharem pelo vício em ópio

Meta factível?
Quando não está em Nyaung Shwe a trabalho, Khin Khin mora aqui com a filha e os pais numa casa de dois andares toda de madeira, suspensa sobre as águas em palafitas. Mãe solteira, aos 31 anos junta dinheiro para trabalhar como guia autorizada. Para isso precisa ir para Yangon fazer o curso, mas não quer abandonar a filha só com os avós. Ela me conta que, quando criança, seus pais também trabalhavam com as papoulas nas montanhas, mas conseguiram mudar de vida, plantando tomate à beira do lago e revendendo cigarros de tabaco, que ela desde cedo ajudava a enrolar – atividade que fazem até hoje.

Ao redor da casa de Khin Khin, num velho monastério, jovens noviços lavam as suas túnicas vermelho escarlate, torcendo-as ao sol. No templo ao lado, mulheres ajoelham-se e rezam diante da estátua de Buda. Acompanhamos Khin Khin ao mercado, à beira do Inle. Os moradores ribeirinhos chegam de canoas. Os das montanhas, de caminhão, cavalo, carros de boi, bicicleta ou moto. Quase todas as barracas exibem as mercadorias no chão.

Khin Khin me chama de canto para conversar com duas mulheres da etnia Akha. “Elas moram perto das plantações.” Faço Khin Khin lhes perguntar se algo mudou depois que a ONU esteve por lá. Elas se entreolham e cochicham. Khin Khin me traduz que depois de uma longa reunião entre os líderes das milícias e os representantes da UNODC, chegaram a um acordo de ajuda, mas é preciso esperar para ver se vai funcionar. “O que elas sabem é que agora em julho é o tempo de plantar a papoula e, se não o fizerem, vão deixar de colher na próxima safra e assim vai faltar comida na mesa.” Para minha guia, vai ser difícil acabar com o ópio simplesmente destruindo as plantações. “Aqui em Mianmar, falta dinheiro e falta trabalho. Muita gente foge para trabalhar na Tailândia (segundo a UNODC existem hoje dois milhões de birmaneses trabalhando ilegalmente no país vizinho). Vai ser preciso muita ação para reverter esse quadro.”

Segundo Joshua Kurlantzick, repórter do site The Atlantic e responsável pelo blog Asian Unbound, especializado em Ásia, Khin Khin tem razão. “A Tailândia precisou de 30 anos e muitos bilhões de dólares para conseguir varrer o ópio de seu mapa (e ainda produz cinco toneladas por ano). Além disso, em Mianmar, para cada hectare destruído, outros dois são plantados. Muitas regiões são completamente sem acesso. E com o cessar-fogo contra as milícias, facilitou-se a vida dos traficantes. De 2009 para 2010, o número de tabletes de yaba – principal derivado das metanfetaminas – passou de 800 milhões para um bilhão. Mianmar vive uma situação delicada. Não vai ser em três anos que vão conseguir eliminar a produção”, afirma. Jason Eligh, da UNODC, concorda. “Talvez não consigamos em três anos, mas erradicar as drogas é o principal passo para a paz.”

Ao caminhar com Khin Khin e sua filha em uma trilha na pacata vila de Samkar, penso que se a paz for finalmente construída, terá valido cada lágrima vertida pelas mulheres camponesas, que hoje em dia testemunham desesperadas os soldados birmaneses munidos de foice e cortadores de grama elétricos deixarem para trás campos de papoula destruídos. Khin Khin me confessa que, apesar da desconfiança com o governo de Mianmar, é preciso acreditar nesse projeto, pois o ópio não faz bem para ninguém. “Tive parentes que ficaram viciados, amigas que se tornaram prostitutas, vi muita gente morrer. Lidar com os traficantes nunca é saudável. Espero que minha filha possa crescer num ambiente melhor.”