RAQUEL SILVEIRA

“O tempo corre”, diz, com um suspiro, a arquiteta Raquel Silveira. Logo ela, em quem não há o mais remoto sinal da passagem do tempo. Dela é que não pode estar falando.

 

Por Vivi Mascaro

 

Raquel Silveira organiza a Hyundai Black, a exclusiva mostra de decoração em São Paulo

Do filho Antonio, talvez, que cresceu, está a caminho dos 16 anos e no ano que vem já estará enfrentando o desafio de se mudar para os Estados Unidos, a caminho da faculdade. O tempo… De todo modo, Raquel às vezes se assusta. “Ainda me lembro do Nizan entrando no nosso quarto, num domingo de manhã, transtornado, gritando ‘o Senna morreu, o Senna morreu’. Faz 18 anos e é como se fosse ontem.”

O publicitário Nizan Guanaes foi casado com ela por sete anos. Antonio é filho dos dois. Raquel tem filha e outro filho do primeiro casamento. Luiza, 27 anos, deixou-se contaminar pelo ambiente familiar e virou publicitária. Rodolfo, 24, ao contrário, se mandou para Santa Catarina, onde faz do mar seu prazer e sua profissão: é oceanógrafo. Antonio parece que vai obedecer ao DNA do pai. Adora cinema, escreve bem, deve nos Estados Unidos se encaminhar para uma graduação em comunicações. “Está naquela fase adolescente de quem se ofende quando a gente pergunta”, diz a assumida mãezona. “Em julho vamos juntos a Nova York para começar a escolher a escola”, conta.

Raquel tem um apartamento em Nova York – que ela ganhou no processo de separação de Nizan. Fica num daqueles imponentes brownstones que fazem a mística dos bairros ricos e chiques de Manhattan. Não por acaso, Nova York é seu destino, seis, às vezes oito vezes por ano. Mas faz questão de manter na agenda uma viagem anual à Europa. Geralmente em julho. Nova York pode até ser a vanguarda do mundo, mas, bem ou mal, a Europa ainda tem suficiente informação up to date para alguém que, como Raquel, fez da arquitetura um promissor negócio.

O negócio dela se chama Hyundai Mostra Black e, ao contrário do que os desavisados possam pensar, tem a ver, sim, com design, mas nada a ver com automóveis. São ambientes criados por arquitetos, decoradores e paisagistas, numa casa do Alto de Pinheiros, em São Paulo. “Uma espécie de Casa Cor?” – pergunto. A comparação é inevitável. “Nossa mostra é mais butique, mais trendy, mais experimental e menos feira”, define Raquel. O evento Casa Cor sempre tem mais de 100 expositores, a Mostra Black, 25 profissionais – em 22 ambientes.

Estão lá os figurões Sig Bergamin (com quem, aliás, Raquel começou na profissão, como estagiária do escritório dele), Jorge Elias, Ana Maria Vieira dos Santos, Roberto Migotto, João Armentano, mas lado a lado com as figurinhas carimbadas despontam caras novas que prometem – ou que já começam a estabelecer uma reputação, a exemplo de Rodrigo Almeida, cujos objetos de design ainda não são muito conhecidos no Brasil, mas frequentam museus… na Europa. “É um Campaninha”, aposta Raquel, comparando-o aos irmãos Campana.

“Descobri que havia espaço para uma mostra diferenciada” – lembra Raquel – “quando comecei a pesquisar para o piloto de um programa de decoração e paisagismo na Band, a convite da Claudia Saad”. O programa na tevê acabou não saindo, mas a pesquisa despertou a vocação que estava meio recolhida dentro de Raquel e acabou abrindo seu apetite para um projeto dela própria. Foi há dois anos. Em maio de 2011, ela lançou a edição inaugural da Hyundai Black – já com o patrocínio da marca de veículos. Para a segunda edição, Raquel fez da mudança de endereço uma convidativa surpresa: a casa em que se instalou tem terreno de 5.100 metros quadrados, é uma residência modernista dessas dignas de antologia, envidraçada, sem muros, aberta para a rua e abrigada entre jardins luxuriantes. Tudo a ver com a proposta do projeto.

A vizinhança torceu o nariz – ou pelo menos um dos vizinhos. Protocolou uma denúncia no portal da subprefeitura e, nesses casos, mesmo quando a implicância é claramente bobinha, o evento teve de ser embargado. A abertura atrasou cinco dias e, resolvida enfim a questão do alvará, só aconteceu no dia 22 de maio. O evento dura um mês. “Esta é a temporada de arte e design em São Paulo”, pensa Raquel. Tem a SP Arte, a feira de design e logo começa a SP Fashion Week.

“Por que Black?” – quero saber. Black designa, de cara, um nicho de mercado, diz Raquel. Black é alternativo. É um conceito amplo, vai de black tie a black power. “Eu queria chegar com um jeito e uma personalidade diferente nesse mundo”, diz. Que mundo? “Sou uma empresária do décor, quem diria?” – ela se abre numa daquelas suas inconfundíveis gargalhadas.

Depois de se separar de Nizan, Raquel viveu – até 2009 – uma relação de sete anos com Paulo Ricardo, ex-RPM (com direito a casamento estrelado para 600 pessoas no Jockey Club de São Paulo). Deixo para o final esta pergunta que me intriga: “Raquel, por que é que você gosta de se casar com homens, digamos assim, espetaculares?” Mais uma vez, a gargalhada gostosa dela. “Todo mundo gosta, não é mesmo? Pelo menos é mais gostoso de conversar quando você tem um marido desses.”