PROVE ANTES QUE ACABE

Os ambientalistas mais apocalípticos dizem que algumas iguarias serão extintas nos próximos anos. Exagero ou não, decidimos fazer uma lista para que você se antecipe e guarde no cofre alguns dos melhores cafés, chocolates, vinhos e uísques

 

Por Juliana Bianchi

 


IMAGINE UM HAPPY HOUR sem uma boa dose de uísque, um plantão sem café, um jantar romântico sem vinho, ou, pior ainda, sua namorada de TPM sem uma barra de chocolate por perto. Fim do mundo? Quase. De acordo com alguns estudos e ambientalistas, nas próximas décadas é possível que ingredientes hoje considerados básicos, como o cacau, o café, a uva e até mesmo o arroz, a banana e a mandioca, desapareçam.
O aparente apocalipse gourmet não é certo – e por muitos até apontado como sensacionalista. Mas se a temperatura realmente aumentar 5,8ºC nos próximos 100 anos, como prevê o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), o uso de agrotóxicos continuar a envenenar a terra e lençóis freáticos ou o desinteresse das gerações mais novas em investir no campo com tecnologia e mão de obra perdurar, é bem capaz de as produções sofrerem forte queda e, de fato, esses alimentos se tornarem raros no mercado. “Muitos ingredientes acabam o tempo inteiro por inúmeras razões, sejam econômicas, sociais ou ambientais”, afirma Roberto Smeraldi, membro do Fórum Brasileiro sobre Mudanças Climáticas. Entretanto, não significa que isso vai acontecer de uma hora para outra. “É um processo de mudança progressivo, que faz com que a diversidade diminua ao longo dos anos”, garante Smeraldi.

Mas, como o seguro morreu de velho – e, nesse, caso, comendo e bebendo do melhor –, consultamos alguns dos maiores entendidos nos mais queridos ingredientes sob ameaça para ajudar você a preparar um estoque com o que há de mais refinado, antes que acabe.

 

CHOCOLATE

Fruto que dá origem ao chocolate, o cacau está entre os mais ameaçados pelas grandes variações climáticas. Diego Badaró, fundador da Amma Chocolate e organizador do primeiro Salon du Chocolat realizado no Brasil, no início de julho, aponta algumas das regiões produtoras mais interessantes, mas ressalta: “Só os grandes artesãos saberão escolher os melhores grãos em cada terroir e trabalhá-los de forma a tirar o máximo sabor de cada.” Veja as regiões imperdíveis.

Brasil
Com diversas microrregiões que dão nuances diferenciadas ao chocolate, os grãos produzidos em Itacaré (BA) geram chocolates com notas de frutas tropicais, como banana e pitanga, além de um toque terroso. Infelizmente é pouco valorizado pelas chocolaterias nacionais, mas basta pegar uma barra com 85% de cacau da marca Amma para encontrar essas sutilezas.

Peru

Chocolates extremamente aromáticos e de sabor ímpar são o resultado dos grãos de cacau de alta qualidade produzidos na região de Piura, ao norte do país. Com baixa produtividade, só aparece em edições especiais das lojas de chocolates mais finas, como a Cacau Noir, no Rio de Janeiro.

Jamaica
Os grãos produzidos no país dão origem a um dos chocolates mais exóticos do mundo, com notas amadeiradas e de especiarias, como pimenta. Mas para prová-los no Brasil é preciso contar com a sorte, uma vez que não são importados com regularidade.

Haiti
Apesar do baixo investimento na produção local, o cacau produzido no Haiti gera chocolates ricos e muito aromáticos, com acidez equilibrada e notas de café. Difícil de encontrar, alguns de seus traços podem ser percebidos em chocolates feitos com grãos de São Domingo e outras regiões do Caribe. Na Folie (SP), a doceira Carolina Carnicelli promete fazer macarons com chocolate dessas regiões para o Dia dos Pais.

Madagascar
Um dos grãos de cacau mais puros e raros do mundo dá origem a um chocolate com sabor frutado e acidez equilibrada, com toques de limão, tangerina e laranja. Para provar o melhor, visite o chocolatier francês François Pralus, em Paris. O cacau vem direto de sua fazenda. No Brasil, as chocolateries La Nuit e Saint Phylippe (ambas em São Paulo) costumam ter, mas é sazonal.

 

CAFÉ

Mais do que o produtor, o que vale aqui é a origem, as características que o terroir e a cultura local proporcionam aos grãos, garantem os consultores em cafés Ensei Neto e Cecília Sanada, do Octávio Café. Conheça abaixo os eleitos de cada um.

Guatemala 
As regiões vulcânicas de grande altitude do lago Atitlane de Huehuetenango resultam em cafés excepcionais. Em Huehuetenango, notas florais, de rosas e jasmins se harmonizam ao caramelo. Em torno do lago encontram-se cafés reconhecidos por seu corpo e aroma, com notas picantes e acidez floral.

Etiópia
De acordo com Ensei Neto, as regiões de Yirgacheffe e Limmu, onde a produção ainda vem de pés que crescem desordenadamente dentro da floresta, geram grãos míticos com notas de frutas amarelas, como banana e papaia.

Jamaica
Produzido a 2.500 metros de altitude na região sul de Port Maria e ao norte de Kingston, nas encostas das Montanhas Azuis, o café Blue Mountain tem notas florais, de nozes e chocolate, com intenso aroma aveludado, deixando sabor marcante na boca. No exterior, 500 gramas de grãos torrados podem ser encontrados por R$ 100.

Brasil

Mais uma vez temos duas opções: o Jacu Bird Coffee e o café do Chapadão de Ferro, na região de Patrocínio, no serrado mineiro. O primeiro, produzido nas montanhas de Pedra Azul, no Espírito Santo, a partir dos grãos maduros consumidos e excretados pelo pássaro jacu, gera um café de corpo agradável, sabor suave, com notas de melaço e nozes. Já o segundo, com características florais intensas e toque de chocolate, é um dos raros cafés produzidos inteiramente em perímetro de vulcão extinto.

Iêmen
Berço da cafeicultura e do serviço do café, o país ainda possui algumas das variedades mais antigas do mundo em suas regiões de altitude, mas dificuldades políticas e no plantio estão rareando sua produção. Os grãos, secos ainda a com a casca, geram bebidas com notas de frutas vermelhas e chocolate. É raro encontrá-lo no Brasil.

 

VINHOS DE BORDEAUX

Acostumados a ministrar palestras sobre os vinhos de Bordeaux, região francesa apontada como crítica pelos relatórios ambientais, José Luis Borges, vice-presidente da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS), e o enólogo Breno Raigorodsky elegeram os cinco rótulos imperdíveis.

Château Haut-Brion

O primeiro vinho a determinar a sofisticação da região é a principal escolha de Raigorodsky e do influente crítico americano Robert Parker, que o apontou como o melhor vinho do mundo. Seu corte de Merlot, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc gera vinhos com notas de frutas negras, chocolate e cedro. Suas safras não custam menos de R$ 3.500 a garrafa.

Château Lafite-Rothschild
Este outro Premier Grand Cru Classe da região do Médoc produz anualmente de 15 mil a 25 mil caixas do chamado “vinho do rei”. As garrafas da safra de 2003, que mereceram nota 100 de Robert Parker, podem ser encontradas no Brasil por cerca de R$ 6 mil, cada. No nariz e na boca, prepare-se para uma complexa mistura de frutas maduras, notas de tabaco, couro e baunilha.

Château Latour
É da pequena área de apenas 47 hectares em torno da torre de Saint-Lambert que saem, até hoje, as uvas que dão origem a mais este Premier Grand Cru, famoso por sua regularidade e potência ao longo dos anos. Com o mesmo corte clássico de cabernet sauvignon, merlot, cabernet franc e petit verdot usado na região, a complexidade
da safra de 82 está à venda por cerca de R$ 12 mil.

Château Pichon-Longueville
Comtesse de Lalande
O Pichon-Lalande se tornou queridinho dos grandes colecionadores após Robert Parker pontuar sua safra 1982 com a nota máxima e anunciá-lo como “um dos vinhos monumentais do século passado”.

Château Pichon-Longueville
Com a mesma origem do Lalande – a família se separou na década de 1860 –, o Pichon-Longueville é vizinho do Latour, ao sul de Pauillac. O corte de cabernet sauvignon e merlot lhe dá notas florais, de frutas maduras e cogumelos selvagens. Na Grand Cru, safra de 2006 por R$ 972.

 

UÍSQUE

É praticamente impossível encontrar uma unanimidade nessa área com tantas opções de single malts – uísques produzidos com grãos processados em uma mesma destilaria – e blends de sabor excepcional. Mas, para ajudar na escolha, contamos com os paladares apurados de Marcelo Serrano, eleito o melhor bartender de São Paulo, Márcio Silva, consultor de bebidas, e da sommelière Alexandra Corvo, que começa a se debandar para os destilados.

Yamazaki 25
Este single malt japonês foi apontado como “o melhor do mundo” este ano pela Whisky Magazine. Com notas de chocolate amargo, cereja, amêndoa e alecrim, ele foi envelhecido por 25 anos em barris de cerejeira na mais antiga destilaria do Japão: a Suntory. Sua produção gira em torno de 12 mil garrafas ao ano e cada uma está sendo negociada no exterior por até R$ 3 mil. O problema é encontrá-la.

Johnnie Walker Blue Label

Em cada dez mil barris analisados pela destilaria escocesa apenas um alcança o nível de excelência necessário para compor o blend deste que é considerado a joia da coroa da família Walker. Com produção artesanal em pequenos lotes, tem corpo e sabor marcantes, com notas tostadas, florais e de frutas secas. Todas as garrafas, encontradas no mercado por cerca de R$ 450, vêm com seu número de série marcado.

Talisker Single Malt
Produzido na ilha de Skye, na Escócia, este single malt clássico é envelhecido por pelo menos dez anos. Com notas de sal marinho, turfa e frutas secas, já ganhou diversos prêmios mundiais. Custa, em média, R$ 463.

Lagavulin 16
Com pronunciado sabor defumado, este single malt da ilha de Islay, na Escócia, é digno de estrela. Após descansar 16 anos em barris anteriormente usados para armazenar vinhos Jerez, ganhou notas de chá Lapsang Souchong e cereja, sem perder o forte ataque de turfa.

Macallan 32
Esta edição especial de um dos três single malts escoceses mais apreciados no mundo vale uma longa pausa. Após passar um período extra de maturação em barris de madeira antes usados por vinhos Pinot Noir orgânicos da Borgonha, ganhou notas de madeira, pimentas e chocolate. Apenas 306 garrafas foram produzidas e destinadas especialmente ao mercado japonês. No Brasil, a versão de 18 anos não sai por menos de R$ 750.