CONFISSÕES DE UMA ATRIZ PORNÔ

Quase uma desconhecida por aqui, a brasileira Dunia Montenegro é uma das maiores estrelas dos filmes adultos na Espanha. Ela revela como entrou nesse mundo e conta tudo o que rola atrás das câmeras

 

Por Daniel Setti, de Barcelona

 

SE, NESTE EXATO MOMENTO, Luciana da Silva passeasse pelas ruas da Tijuca, bairro carioca onde nasceu há 35 anos, escutaria as inevitáveis grosserias machistas normalmente dedicadas a portadoras de silhuetas avantajadas. Para azar dos conquistadores de calçada, porém, lhes passaria despercebido que Luciana, esta mulata de 1,67 m, sorriso fácil, sobrancelhas arqueadas, olhar desafiador, fartos seios siliconados e um magnético complexo curvilíneo traçado por glúteos e coxas é Dunia Montenegro, uma das maiores estrelas pornôs da Espanha.

Radicada na Península Ibérica desde 1996, quando largou bicos como sorveteira e faxineira no Rio de Janeiro e foi atuar em um espetáculo de dança baseado em ritmos tradicionais brasileiros nas Ilhas Canárias, ela debutou em go-go dancing e striptease em 2003. Sobrava-lhe, então, uma “raiva do mundo” pelo fim de um casamento de seis anos com um espanhol. No ano seguinte, se inscreveu em um casting de filmes de sexo explícito em Barcelona e, aprovadíssima, rebatizou-se (“Dunia é um nome internacional, qualquer um pode escrevê-lo direito”) e mudou de vida: “Entreguei minha casa, vendi o carro e vim para Barcelona; com duas ou três cenas tinha o salário de um mês. E deu bastante certo.”

Oito primaveras após sua estreia em Sexstyle (2004), uma improvável fusão de orgias e hip-hop, Dunia coleciona protagonismo em mais de 300 cenas distribuídas em 115 DVDs, ou lançadas individualmente na rede, e participações em programas na televisão espanhola – dos quais ela já desistiu, cansada de ser reconhecida na rua –, além de uma legião de admiradores. “Recebo cartas do mundo inteiro; alguns fãs aparecem na porta da minha casa, outros vêm da Alemanha só pelos meus shows”, gaba-se a voluptuosa amazona ébano, em cujas especialidades figuram os espetáculos ao vivo em feiras eróticas ou festas privadas. Exibicionista confessa, adora essas performances. “Já entrei em cena exausta, doente; mas lá em cima tudo vale pela cara de deleite do público.” Filmou e se apresentou na Finlândia, Alemanha, Suíça, Itália, República Checa, França, Hungria e na Meca do gênero, os Estados Unidos; colaborou com atores lendários do porte de John Stagliano, Lexington Steele e Rocco Siffredi.

O pulo da gata – e o tabu Brasil
Desde que, há três anos, reduziu consideravelmente o ritmo como atriz e, inspirada pelas musas Tera Patrick e Jenna Jameson, saltou para o outro lado das câmeras, as conquistas da carioca abrangem também os ofícios de diretora, produtora e agente de 50 estrelas X-rated, das quais cobra 20% de comissão por trabalho conseguido. Não revela o quanto fatura por mês, mas vive no Eixample, o bairro mais badalado da cidade catalã, onde também mantém um pequeno escritório, e viaja a torto e a direito pela Europa em alegres bate e voltas ociosos. Mesmo assim, é quase anônima em seu país de origem. “Adoraria ser conhecida no Brasil, é uma das frustrações da minha carreira de atriz”, entrega a articulada pantera à Status em um café da agradável rambla Enric Granados, em Barcelona. “Desde que comecei, nunca parei de trabalhar. Então como vou deixar o que conquistei aqui e tentar a sorte lá por alguns meses? Além disso, minha família está aqui”, diz, se referindo à irmã mais nova e à filha de 13 anos, que vive com seu ex-marido.

Os motivos de não haver entrado no mercado nacional não param por aí. Admiradora das atrizes brasileiras Babalu e Mônica Mattos, Dunia chegou a orçar filmagens em São Paulo, o epicentro erótico nacional, mas teve que desistir por causa das cifras altíssimas. “Lá elas pedem pelo menos o dobro dos 500 euros por cena, a média aqui”, observa. (E isso porque Dunia é do primeiro escalão: algumas atrizes cobram a mesma quantia por duas cenas.) Tampouco lhe atrai o aspecto mais conservador, em sua opinião, da sociedade brasileira em relação à europeia. “No Brasil não teria coragem de começar minha carreira”, admite ela, que só estrelou duas cenas para uma produtora nacional, a Brasileirinhas. “Nem passaria por minha cabeça.”

“Temos ritmo e fazemos por prazer”
Quando o autor desta reportagem conheceu Dunia, na concorrida Feira Erótica de Barcelona, em 2006, na qual abocanharia um dos muitos prêmios de sua trajetória – o de melhor cena de sexo original pela produção Café Diablo –, ela acabara de descer do palco. Após deixar em transe uma plateia de marmanjos ao se masturbar com um vibrador enquanto lambia um pirulito, despia-se de um traje de colegial safada e desvendava os olhos, a morenaça ainda irradiava a determinação dos iniciantes. Rumava séria, suada e a passos firmes em direção a um dos estandes atrás de uma nova meia sexy, explicando o porquê de seu sucesso: “Na Europa, há muitas meninas do Leste Europeu, lindas, mas frias; nós brasileiras temos ritmo e fazemos por prazer.”

De volta a 2012, ela mantém a mesma opinião. “Que os leitores saibam que eu gostei de cada cena que fiz”, garante Dunia que, produzida, reluz exuberante: cabelos ondulados à altura do ombro, sombra nos olhos, calça jeans apertada e uma trinca infalível de tons vermelhos que fazem combinar a sandália de salto, as unhas e o tomara que caia. O acúmulo dos sotaques carioca e canário lhe conferem uma pronúncia única de sua palavra preferida: pôrrrno. “Você pode fingir muito bem, mas quando desfruta, as pessoas reparam. Durante uma cena às vezes tenho que lembrar: ‘Estou fazendo um filme; sei que o negócio está bom, mas vamos pensar na câmera, no foco’.” Endossando-a, toma a palavra o rei do pornô espanhol, Nacho Vidal: “Trabalhamos juntos e, longe das câmeras, transamos. Caramba, ela se diverte muito e dá tudo de si.”

 Dos bacanais intermináveis à ilha de edição
Na mesma velocidade que a mitologia em torno dessa aparente capacidade de sentir prazer durante as rodagens, alastrou-se o burburinho a respeito do perfeccionismo da Dunia diretora. “Ela me dá conselhos sobre como posar melhor, maquiagem… Dunia quer que tudo seja perfeito”, escancara a jovem morena espanhola Amanda X, que estreou na indústria recentemente graças ao agenciamento da “deusa” brasileira, ao lado de quem também contracenou. Trintona tal qual Dunia, a loira pornstar Michelle Branch se desfaz em elogios: “É a minha favorita.”

No entanto, nem sempre tudo foi tão profissional assim. “Quando comecei éramos todos loucos do sexo”, relembra Dunia, que não faz ideia do número de pessoas com quem já transou, enquanto beberica pouco a pouco uma caña (um chope). “Juntava a galera toda, era uma loucura. Já teve caso de sair na quarta-feira para tomar um café e chegar em casa na terça da outra semana, sem repetir ninguém. Acordar sem saber onde estava. Mas no fundo você se sente vazia.”

Os anos de bacanais captados ou não pelas câmeras parecem ter originado uma nova Dunia. Embora ainda grave uma ou outra cena – a mais recente é de fevereiro – e atue em festivais, eventos privados como despedidas de solteiro e em sessões de web cam interativa produzidas em casa (“frila” de três horas diárias que rende entre 2 mil e 2,5 mil euros ao mês), ela hoje prefere profissionalmente uma ilha de edição a exibições de talentos, digamos, específicos, a exemplo de fist fucking, duplo anal e squirting. “Maltratei muito meu corpo”, avisa. “Sentia prazer, mas fiz coisas superextremas que nem acredito que consegui. Eu tinha um pouco de raiva, sabe? Como quem sente raiva e bebe três garrafas de vodca, ou se injeta heroína: prejudica o corpo, mas aproveita. E se não fossem sempre os mesmos atores, talvez pensasse diferente.”

O preço
Na esfera pessoal, a Dunia 2012 também mudou, emulando vagamente a adolescente que, implacavelmente vigiada pela avó católica e o avô militar – é órfã desde os 17 anos –, perdeu a virgindade quase aos 18. Manifesta-se “de volta ao armário”, após namorar algumas garotas, e plenamente apta a passar até dois meses sem sexo. “O cine adulto me fez muito mais conservadora e tradicional”, avalia. “Prefiro esperar uma pessoa de quem goste, com quem tenha química. Te ligarem para dizer ‘bom dia’ é muito melhor do que qualquer suruba”. O problema, reconhece Dunia, é que conciliar sua profissão e príncipes encantados dá, de fato, tanta dor de cabeça quanto imaginam os leigos. “Com os poucos namorados que tive desde que sou atriz, foi aquela coisa: não pode apresentar à sogra, estamos juntos e os amigos ficam vendo vídeos e fotos suas no celular…
é constrangedor”, desabafa.

Dunia (à dir.) e a atriz espanhola Sasha Jones prestes a gravar uma cena de lesbianismo

Curiosamente, tudo complica ainda mais quando o escolhido é alguém do ramo. “Tive uma relação com um ator e havia mais ciúme do que nunca (risos)”, conta. “As pessoas de fora pensam que é só trabalho, mas eu e ele sabíamos que não, que existe feeling, que muitas vezes termina a cena e os atores vão juntos para casa. No início, por exemplo, fazia isso com todos. Meu namoro mais longo durou um ano, mas porque ele morava fora.” Ela não esconde também que o efeito colateral mais delicado de sua opção é o fato de ser mãe, e o assunto ser um tabu entre ela e a filha: “Talvez se eu voltasse no tempo, não teria feito pôrrrno. Dificulta muito as relações pessoais. Por outro lado, já está feito, sou uma das atrizes mais reconhecidas, não renego, nunca vou renegar. Consegui tudo a que pude aspirar, e adoro dirigir. Mas me dói um pouco esta parte familiar”.

 

A CARTILHA DE DUNIA

Solicitada a passar aos leitores de Status cinco dicas para uma noite de sexo memorável, a artilheira Dunia não titubeia. Com faro de gol e segurança de craque, enumera rapidamente uma a uma as suas armas ofensivas sem vacilo. Basta correr para o abraço:

1. Aquecimento
“A prévia é muito importante. Uma foto no WhatsApp, uma ligação telefônica sexy, comprar uma lingerie… Quando a gente começa a imaginar, já
está desfrutando.”

2. Escalação sem segredos
“Ser sincero, sabe? Cada pessoa é um mundo. Não ter tabus e falar claramente sobre o que fazer, e comentar sobre o que não gosta. A sinceridade é tudo.”

3. Visão de jogo
“Estar muito atento à outra pessoa. Observar o outro. Até no cine adulto isso vale, não é tão frio como parece. Os bons atores sabem que precisam buscar a química com as atrizes para fazer um bom trabalho.”

4. Catimba
“Usar massagem, óleos, sem pressa. Paciência, talvez…”

5. Preparo psicológico
“Não se preocupar com o orgasmo. Acho que as pessoas estão muito aflitas para saber se estão fazendo bem, se o cara tem um grande, se vai ter orgasmo… Aí já estragou. Sexo é como uma coreografia. É preciso desfrutar o prazer que está sentindo.”