DIOGO NOGUEIRA

Um dos sambistas mais assediados do país, o cantor diz que já fumou maconha, que a promiscuidade na escolha do samba-enredo das escolas de samba cariocas é inaceitável e que as mulheres ficam doidas em seus shows

 

Por Tom Cardoso
Fotos Ricardo Fasanello

 

O cantor João Nogueira (1941-2000), um dos maiores sambistas da história do Brasil, sonhava em ver o filho Diogo jogando no Flamengo, seu time de coração. João achava que o garoto levava jeito. O filho era forte, voluntarioso e, definitivamente, não herdara a preguiça do pai, o “chinelinho” do Politheama, lendário time de várzea fundado e comandado por Chico Buarque. Diogo, porém, não vingou como jogador. Passou pelos juvenis do Vasco e do Fluminense e, após se transferir para o Cruzeiro de Porto Alegre, sofreu uma grave contusão no joelho e acabou dispensado do time gaúcho. Na época (2005), a mãe de Diogo passava por dificuldades financeiras e o recém-aposentado futebolista, longe de levar uma vida de Tufão, teve que se virar.

Diogo se virou e explodiu. Provou, em poucos meses, que não tinha o menor cacoete como atacante. Seu talento era outro. E estava impregnado em seu DNA: o de cantor. Foi tudo muito rápido. Ao participar como um dos convidados do show de 40 anos da cantora Beth Carvalho, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Diogo chamou a atenção dos executivos da gravadora EMI, que enxergaram ali um talento a ser explorado. Afinal, ninguém pode ser filho de João Nogueira impunemente.

Hoje é um dos intérpretes mais populares do País – seus últimos discos ultrapassaram as 100 mil cópias vendidas, marca expressiva para os dias de hoje. O público do cantor é composto, na sua maioria, por mulheres, o que já fez com que ele vivesse dias de Wando (morto em fevereiro, que ficou famoso por colecionar calcinhas jogadas pelas fãs durantes os shows). Ele perdeu a conta de quantas vezes foi atingido no palco por calcinhas voadoras, mas, ao contrário do folclórico cantor brega, não as guardou – doou todas as peças para o sortudo assistente de palco.

Diogo não joga na defesa. Em entrevista à Status, concedida em um raro momento de folga, o cantor fez questão de responder a todas as perguntas de forma objetiva, sem rodeios. Um grande papo.

– Sambistas como Bezerra da Silva, Dicró e Moreira da Silva sempre foram associados à malandragem. E o sambista de hoje? Ele não perdeu um pouco dessa malandragem? Você, por exemplo, acaba de gravar um samba com participação de um padre católico, o padre Omar…
–  Você está tendo uma visão preconceituosa do sambista. Onde está escrito que todo sambista tem que ser, necessariamente, malandro? O sambista era discriminado nas décadas de 40, 50. Depois disso, surgiram músicos como meu pai, Beth Carvalho, Martinho da Vila, que não tinham nada de malandros. Os sambistas dessa geração não tinham problemas com a polícia. O problema era outro.

– Qual?
–  A geração do meu pai sofreu muito com a entrada pra valer da música americana no Brasil, a partir da década de 80. Ninguém queria mais ouvir samba. Muitas boates e casas de shows foram fechadas. Foi uma época difícil para eles. Quando havia um brasileiro fazendo sucesso, era sempre um roqueiro. Depois veio a música sertaneja, com as duplas. Só conquistamos o nosso espaço novamente em meados da década de 90. Quando comecei a cantar sambas, no bairro da Lapa, o ambiente era outro: o samba já havia voltado a fazer sucesso entre a garotada.

– João Nogueira, seu pai, fundou, em 1979, o Clube do Samba, que era uma espécie de ponto de resistência do samba no Rio. Você ainda não havia nascido (Diogo é de 1981), mas certamente soube pelos seus pais que o Clube do Samba quase o arruinou financeiramente…
– Sim, claro. Foi um processo muito difícil para ele. Os funcionários do clube montaram uma gangue e processaram meu pai. Ele perdeu tudo. O Ministério do Trabalho impediu até mesmo que ele recebesse direitos autorais pela execução de suas músicas durante 25 anos. Ele ficou arrasado. O Clube do Samba era uma casa de shows muito importante da época, muito mais que um reduto do samba. Caetano Veloso e Gilberto Gil cantaram lá. Meu pai não era um cara ligado em grana. O que o deixou deprimido foi ficar sem um espaço para cantar e receber os amigos.

– As comparações com o seu pai o incomodam?
– Ser comparado a um dos maiores intérpretes da música brasileira nunca vai me incomodar. Procuro fazer meu trabalho. Não fico preocupado se vai ficar parecido com o do meu pai. Se ficar, ótimo, sinal que estou chegando lá. Meu pai, por exemplo, tinha o maior orgulho quando o comparavam ao pai dele, meu avô.

– Seu avô também era músico?
– Sim. Era amigo do Pixinguinha. Um grande violonista e cantor de serestas. Morreu quando meu pai tinha 11 anos.

– Você vem de uma família de músicos, mas o seu sonho era ser jogador de futebol.
– Comecei na base do CFZ, o clube do Zico. Joguei nos juvenis do Vasco, do Fluminense, até virar profissional e tentar a sorte no Cruzeiro de Porto Alegre. Eu já tinha 23 anos e precisava tomar uma decisão na minha vida. Ou vivia do futebol ou tentava fazer outra coisa. Eu tinha perdido meu pai, e minha mãe, que tinha ficado no Rio, passava por dificuldades financeiras. Estava fazendo pré-temporada para jogar o Campeonato Gaúcho e acabei, durante o treino, sofrendo uma grave contusão no joelho. Encerrei prematuramente minha carreira.

– Nem tentou operar e voltar?
– O Cruzeiro de Porto Alegre não quis nem saber: rescindiu meu contrato. Eu tive de voltar para o Rio para ajudar minha mãe.

O cantor com o príncipe Harry em show realizado no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro

– Em que posição você jogava?
– Eu era atacante.

– Jogava bem?
– Não era um craque, mas estava longe de ser um perna de pau.

– Teria uma vaga no atual time do Flamengo? O time não está bem no Brasileiro…
– Olha, rapaz, com o joelho inteiro, voando, eu tinha vaga, sim. No Flamengo do Zico, do Júnior e do Leandro, não. Não ficaria nem no banco. Mas nesse time aí… Eu fico vendo os jogos do Flamengo (Diogo é rubro-negro) pela televisão e pensando: “Porra, esses caras não jogam nada. Eu podia estar aí” (risos).

– Você ainda joga?
– Sim. Toda quarta-feira eu vou à academia fazer reforço muscular. Tenho o meu time, o Trem da Alegria. Não e fácil ganhar da gente, não. O time é uma mistura de ex-atletas, jogadores desempregados e metidos a boleiros.

– Já enfrentou o Politheama, o time do Chico Buarque?
– Não. Eu joguei algumas vezes no próprio Politheama, quando era garoto. Meu pai era o centroavante – mais fácil falar que ele era o “banheirista” do time. Não voltava nunca para marcar. Ficava ali, parado, encostado no goleiro, sem fazer nada (risos).

– E o Chico? Dizem que ele só é titular do time porque é o dono da bola…
– Pura maldade. Ele joga direitinho, não é bobo não.

– Depois de encerrar precocemente a carreira de jogador, você foi fazer o quê?
– Eu estava meio perdido. Não sabia se retomava os estudos, se operava para voltar a jogar. Enquanto não me decidia, comecei a cantar em rodas de samba para me divertir. As pessoas sempre diziam que eu tinha uma voz bonita, parecida com a do meu pai. Pediam para eu dar canja em alguns shows. Até que fui convidado para participar de shows da Beth Carvalho e da Alcione. Aí minha vida mudou. Montei uma banda e comecei a fazer shows no teatro Rival, no Rio, e nos Sescs, em São Paulo. Gravei meu primeiro disco, que vendeu 100 mil cópias.

O cantor com o pai, o sambista João Nogueira

– É verdade que, se dependesse de você, só usaria bermuda, camisa e chinelo? É estranho, porque você está sempre na “estica”. Afinal, você está mais para o estilo metrossexual ou desleixado?
– Em casa eu fico à vontade, normalmente de sunga. Agora, se sair de casa com pouca roupa, estou ferrado. Meu público é 80% feminino.

– Como assim “ferrado”? Você é muito assediado?
– Muito. A mulherada fica doida nos meus shows. Eu tenho os pés no chão: sei que isso ocorre por causa da fama e não me deslumbro nem caio na tentação. Às vezes é complicado. A mulherada hoje está pegando pesado.

– Você já teve o seu dia de Wando?
– Sim. Uma vez uma menina da plateia tirou a calcinha na minha frente e jogou no palco.

– Você pegou a calcinha?
– Não sou louco. Minha mulher é brava, não me perdoaria (risos). Eu dei a calcinha para o assistente de palco. Ele até parou de trabalhar. Ficou cheirando a calcinha o show inteiro (risos).

– Recentemente, você fez show no Complexo do Alemão para o príncipe Harry. Como foi a experiência? Tem acompanhado de perto o processo de revitalização do Rio?
– Foi uma experiência maravilhosa cantar no Alemão. O Rio de Janeiro, realmente, está mudando. O Complexo do Alemão estava todo em obras. A violência diminuiu e tenho fé que a cidade irá passar por uma grande transformação até sediar a Olimpíada, em 2016. Não acho que esse processo de revitalização seja de “mentirinha”, como ouço muita gente dizer. O Rio já é outra cidade.

– Qual é sua posição em relação à liberalização das drogas? É contra ou a favor?
– Eu sou a favor da liberalização. Mas é preciso ser feita com calma, de forma organizada, com cautela.

– Você já usou drogas?
– Fumava maconha quando era adolescente; hoje não fumo mais. Mas não tenho o menor problema em dizer que gostava de maconha. Todo mundo já fumou seu baseadinho alguma vez na vida. Você não fumou?

Diogo Nogueira com a mulher, Milena

– O entrevistado é você.
– Hoje eu bebo minha cervejinha, gosto de um bom vinho…

– Você compôs seguidas vezes o samba-enredo da Portela. Qual é a sua opinião sobre os atuais desfiles de escola de samba? Para os puristas, o Carnaval perdeu faz tempo sua identidade. Para os realistas, a festa ganhou em profissionalismo e força econômica.
– Eu ganhei, como compositor, quatro carnavais seguidos. E eram sambas com uma linha mais tradicional. Deixei de fazer, pois cada vez mais os enredos têm que ter algum tipo de ligação com os patrocinadores. É uma promiscuidade inaceitável. E pelo jeito nada vai mudar. Não querem mudar, não vão mudar. A tendência é ficar ainda pior.

– Como foi cantar no Teatro Karl Marx, em Cuba?
– Foi maravilhoso. O teatro é lindo. Gravei um DVD inteirinho ali. O povo cubano é muito parecido com o brasileiro, muito alegre, com um talento para música impressionante.

– Mas não tem a mesma liberdade.
– Pois é, mas isso está mudando. A gente sente uma energia diferente ali, um cheiro de mudança.

– Quais são seus próximos projetos?
– Eu lancei um songbook (Sambabook) com a obra do meu pai. E vou fazer também um do Martinho (da Vila). Devo entrar em estúdio em breve para lançar um disco só de canções inéditas. As músicas vão surgindo. Nada na minha vida é planejado.

O sanbista em Cuba, onde se apresentou no Teatro Karl Marx e gravou um DVD