EM NOME DO PAI

Para entender o craque Neymar Jr. é preciso, antes de tudo, conhecer o homem que faz sua cabeça: Neymar da Silva Santos. Saiba como ele ajudou a forjar a personalidade do jogador mais badalado do Brasil

 

Por Andrea Assef, de Santos
Fotos João Castellano
Ilustração Daniel Vincent

 

QUANDO O ATACANTE NEYMAR SOUBE QUE SERIA PAI – fruto de um relacionamento rápido com uma garota de 17 anos –, em maio do ano passado, falou primeiro com a mãe, Nadine. Depois contou para Eduardo Musa, o Duda, assessor que cuida da sua imagem. “Você tem que ligar para o seu pai”, disse Duda. “Eu não! Liga você”, pediu o craque. Quando ele criou coragem de contar para o pai, Neymar da Silva Santos, o tempo fechou. “Tive uma conversa bem séria com ele. Foi um vacilo, mas aquilo tinha sido avisado”, diz Neymar pai. “A gente conversou muito antes. Eu disse: o dia em que você começar a tocar em uma mulher vai ser que nem droga. Você nunca mais vai parar na sua vida. Vai morrer pensando nisso.” Seu Neymar continuou: “Você tem mãe e irmã (Rafaela, quatro anos mais nova que o artilheiro). E se essa menina que engravidou fosse a sua irmã? O que você desejaria para ela? Cuidar do bebê ou dela? Cuidar dela. O bebê não precisa de nada por enquanto. Mas você vai ter que cuidar dessa mãe para que ela cuide bem do seu filho.” Seu Neymar reuniu a família (Neymar Jr, dona Nadine e Rafaela) e foi conhecer a família de Carolina Dantas, a jovem mãe que esperava Davi Lucca, hoje com 11 meses. “Agora temos outra família. Ontem o Davi passou o dia com a minha esposa e minha filha”, disse ele, sorridente, à reportagem de Status em seu escritório, na cidade de Santos.

São poucos os jovens (celebridades milionárias ou não) que podem contar com uma reação tão sensata e generosa de um pai numa situação desse tipo. Este é o seu Neymar, o homem que está por trás de cada passo, de cada gesto de uma das maiores estrelas do futebol mundial. Desde que o assunto chegou à mídia, chamou a atenção a forma como foi tratado: o próprio Neymar anunciou que seria pai, protegeu o quanto pôde a identidade da mãe, acompanhou o parto do filho, e, na medida do possível, tem sido um pai presente. Por isso, é impossível entender o sucesso dentro e fora de campo do jogador de 20 anos, que tem 11 patrocinadores como Nike, Claro e Unilever, e fatura cerca de R$ 3 milhões por mês, sem ter uma boa conversa com o seu pai. Ex-jogador de times de segunda divisão e com uma carreira de pouco sucesso nos campos, Neymar pai é um craque na hora de administrar a vida pessoal e os negócios de Juninho, como o artilheiro é chamado entre os familiares e amigos. “Costumo dizer que o Neymar filho é o gênio da bola e o Neymar pai é o gênio das finanças. Ele administra muito bem as aplicações, os imóveis, os investimentos”, diz Wagner Ribeiro, empresário de Neymar Jr.

Homem de hábitos simples, seu Neymar é inteligente e perspicaz. E tem uma lucidez inacreditável para quem viu a vida mudar em vários milhões de reais em poucos anos. Não faz muito tempo, seu Neymar andava numa motoca – sempre com o filho na garupa – e morava com toda a família num cômodo na casa da mãe, em Cidade Náutica 3, bairro de São Vicente. Além da motocicleta, seu Neymar tinha a Filomena, uma Kombi azul e branca, caindo aos pedaços, que ele adorava. Hoje a família mora em um triplex de frente para o mar, em Santos, tem iate, carros importados e dinheiro para algumas gerações. Mas seu Neymar controla os gastos com mão de ferro. Inclusive do filho. Aliás, os estudiosos em educação infantil das mais diversas correntes e, principalmente, os pais cada vez mais ansiosos na busca de fórmulas para criar os filhos deveriam passar um tempo com o seu Neymar. “Sou o pai do não. Esta é a palavra que os meus filhos mais escutam de mim. Não podia ir na balada com 15 anos, não podia dirigir antes dos 18 anos, como os amigos. Não podia fazer um monte de coisas”, diz ele. Quando o Neymar era pequeno vivia pedindo brinquedos para o pai, como qualquer criança. “E a vida era muito dura. Nós tivemos momentos financeiros difíceis”, lembra. “Muitas vezes eu não pude dar um presente para meus filhos. Eu dizia que não era possível, mas que a gente ia buscar. Fiz o Neymar sonhar muito. A única possibilidade que eu tinha, na falta de grana, era fazer meus filhos sonharem”, conta ele. E o Neymar filho dizia: “Então ano que vem, não é, pai?”

Quando o dinheiro começou a aparecer – ou melhor, a jorrar – a partir do contrato com o Santos e da chegada dos patrocinadores, seu Neymar sentou no cofre. “Não é porque você tem a facilidade de comprar as coisas que vai entregar tudo para ele fazer o que bem entender.” Até o ano passado, Neymar ganhava uma mesada de R$ 15 mil. E para ganhar “brinquedos” como um Porsche Panamera Turbo teve que fazer por merecer. Neymar pai lança desafios, faz apostas com ele. Se você fizer isso, ganha aquilo. A brincadeira entre pai e filho existe desde o começo da carreira do jogador. No início, as apostas eram mais modestas. Em 2009 e 2010, Neymar ganhava roupas, relógios e aparelhos eletrônicos. Mas o jovem atacante queria mais. No final de 2010, pediu o Porsche e seu Neymar lançou o desafio: conquistar o Campeonato Sul-Americano Sub-20 com a Seleção Brasileira, ser o artilheiro e marcar dois gols na final.

O jogador cumpriu todas as metas e ainda fez uma graça ao marcar o segundo gol na partida contra o Uruguai: imitou o gesto de um motorista ao volante. De volta ao Brasil, ganhou o carro de R$ 750 mil. E para a Olimpíada foi lançado algum desafio? “Opa! Como ele já me tomou muita coisa eu lancei mais uma meta. Eu disse que se o Brasil trouxer a (inédita) medalha de ouro no futebol, o Juninho pode pedir o que quiser para mim, desde que esteja ao meu alcance. Ou melhor, ao alcance dele. O legal do Neymar é que ele sempre se coloca na posição de filho. Por mais que já tenha seus 20 anos e seja independente economicamente, ele ainda pergunta se pode trocar o celular. Isso me deixa emocionado e eu penso: ‘Caramba, a gente não pode errar com ele.’”

Inteligente e perfeccionista, seu Neymar comanda uma equipe de 15 pessoas na NJR Sports, que cuida de tudo o que gira em torno do Neymar Jr, do blog aos contratos e ações dos patrocinadores. O escritório fica em uma sala de 60 metros quadrados em um prédio simples, no centro de Santos. Na portaria basta dizer que vai falar com seu Neymar e subir. As entrevistas com o Neymar pai são cronometradas: 20 minutos; dez para a repórter e dez para o fotógrafo. “Pode ser pior. Outro dia vieram quatro veículos estrangeiros e cada um teve sete minutos”, conta Helena Passarelli, que trabalha com Eduardo Musa na gestão de carreira do jogador. Afinal, todos querem saber quem é o mentor de Neymar Jr, uma das maiores estrelas do futebol do mundo.

Corretíssimo
Neymar da Silva Santos, 47 anos, nasceu em Santos e é o filho do meio de dona Berenice e seu Ildemar (já falecido). Conheceu a esposa, Nadine, quando ela tinha 16 anos e ele 18 anos e jogava na base da Portuguesa Santista. Casou aos 26 anos na igreja São Pedro “O Pescador”, em São Vicente. Neymar Jr. também foi ao casamento. “O Juninho não foi convidado. Ele apareceu. A gente deu uma relaxada e quando percebeu o Neymar Jr. já estava lá há dois meses”, conta. Até os 32 anos, seu Neymar ganhou a vida como jogador de futebol. “Parei porque me senti velho e não tinha mais expectativa de sucesso na carreira. Ficava longe da família, indo de contrato em contrato”, lembra ele, que jogava no Operário de Mato Grosso quando decidiu parar. “Ele era bom de bola. É que não teve muitas oportunidades”, diz Roberto Antônio dos Santos, o Betinho, o homem que “descobriu” Neymar Jr. (assim como tinha feito antes com outra estrela do futebol, o Robinho). Atualmente, Betinho é técnico de avaliação das franquias do Santos. Ele viaja por todo o País visitando os clubes que têm parceria com o Santos em busca de novos talentos.
Em 1998, Betinho era treinador de futsal e foi assistir a um jogo do Tumiaru, tradicional clube de São Vicente da segunda divisão, contra o Recanto da Vila, de Santos. “De repente, eu vi um menino de uns 6 anos correndo na arquibancada. Ele era magrinho, ágil e com boa coordenação.

O atacante e o filho, Davi Lucca, de 11 meses

Perguntei: ‘quem é aquele garoto?’ E me disseram que era filho do Neymar, que estava jogando pelo Recanto e tinha acabado de perder um pênalti”, conta Betinho. Quando acabou o jogo, Betinho foi falar com o Neymar que queria levar o garoto para fazer um teste no Tumiaru. Nos seis anos seguintes ele seria o treinador de Neymar Jr. Nessa época, seu Neymar trabalhava na Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Começou como mecânico e alguns anos depois virou chefe da seção. Aplicado, fazia cursos de aperfeiçoamento no Senai. Por isso, era Betinho que buscava e levava Neymar Jr. para os treinos. O treinador tem uma dívida eterna com Neymar pai. “Em 2002, o Santos tentou tirar o Juninho de mim. Meu coração apertou. O Neymar foi contra toda a família e não aceitou. Ele disse: ‘O meu filho não precisa disso agora; o Betinho precisa”. Ele sabia que o Neymar Jr era a única chance de Betinho chegar a um clube grande. Inclusive, em 2004, quando o Santos voltou a chamar Neymar Jr, o pai disse que ele só iria se o Betinho fosse junto. “Ele é um cara correto e fiel”, elogia Betinho. “Hoje ele é cidadão do mundo, mas o abraço é o mesmo.”

Situação parecida viveu Wagner Ribeiro, que há anos é empresário do artilheiro. “O que já teve de gente, empresários, grandes empresas fazendo propostas para ele me deixar. Mas o Neymar pai sempre foi corretíssimo”, diz Ribeiro, que até hoje se espanta com o forte vínculo entre pai e filho. Ele viu isso de perto quando Neymar Jr. tinha 13 anos e eles viajaram para a Espanha para que ele treinasse no Real Madri. “Até na hora de acordar. Eles rolavam na cama como duas crianças, estavam sempre se abraçando”, conta Ribeiro. O empresário lembra uma passagem emblemática. Neymar Jr. tinha 14 ou 15 anos e jogava no sub-15 do Santos. Era um jogo do campeonato paulista e o Santos perdeu. “O pai deu a maior bronca nele na porta do vestiário. Disse que ele tinha jogado sem alegria, de maneira burocrática. O Juninho saiu chorando”, lembra Ribeiro.

Marcação cerrada
Para o pastor Belmiro Paiva Neto, da igreja Peniel, frequentada por seu Neymar e família, o filho ouve muito o pai, que é o espelho dele. O pastor acompanhou a vida da família desde que Juninho tinha 10 anos até dois anos atrás, quando mudou para uma unidade da igreja mais distante. “Ajudei o casal em uma época difícil, em que eles passavam por dificuldades. Eu ia até a casa deles e nós orávamos para as portas se abrirem”, conta o pastor Belmiro. Ele lembra que seu Neymar costumava participar dos jogos de futebol da igreja. “Ele era tranquilo, mas quando o filho entrava para jogar ele ficava nervoso e defendia o Juninho o tempo todo”, lembra. Fora dos campos, seu Neymar continua defendendo o filho das “armadilhas que têm por aí.” A verdade é que seu Neymar só fica sossegado quando Juninho está na concentração. “Quando ele não está concentrado a gente tem que estar atento para deixar ele se divertir, viver, para que as pessoas não façam um julgamento errado dele. Eu consegui conscientizar o Neymar Jr. do que ele está representando para muitas pessoas”, afirma seu Neymar. Quanto ao assédio, principalmente feminino, ele diz que o filho é que tem de estar bem informado: “Isso é com ele. Eu não me meto.”

A família da Silva Santos reunida: dona Nadine, Neymar Jr. ainda garoto, a irmã, Rafaela, e seu Neymar

Mas também não deixa Neymar solto, sem alguém do staff por perto, nas baladas. “Ele é o anjo protetor do Neymar Jr., mas é linha duríssima”, diz Eduardo Maluf, o empresário campo-grandense que é sócio de Neymar Jr. na loja oficial do atacante. Segundo ele, seu Neymar diz “basta” uma vez. E, claro, o filho obedece na hora. “A ligação entre eles é muito forte”, comenta Maluf. Quando chegou em Londres para a Olimpíada, Neymar Jr. ligou para o pai: “Você não está aqui?” O pai respondeu que iria dali a alguns dias pois estava resolvendo alguns negócios da empresa.

– Caramba! Está me largando, pai?

Seu Neymar, quase que vendo um filme sobre toda a história da família passar, disparou de bate-pronto:

– Está maluco, filho?

Os torcedores agradecem. A estrutura que permite ao craque dar show no campo estará lá, firme como sempre.