ALTO, VELOZ E FATAL

O simples pensamento de estar na beira de um penhasco da altura de um edifício de nove andares causa arrepio aos meros mortais. Imagine saltar desse ponto fazendo acrobacias e, em apenas três segundos, atingir a superfície da água a quase 90 km/h, sem nenhuma proteção. Este é o esporte do recordista mundial Orlando Duque

 

Por Piti Vieira

 

EXCETO PELA BRISA QUE BALANÇA seu longo cabelo negro, preso em um rabo de cavalo, o mundo está em silêncio. Atrás dele apenas a plataforma marrom de terra; à frente, o horizonte azul. Ele caminha cautelosamente até a borda rochosa do penhasco, de pouco mais de 27 metros de altura (equivalente a um prédio de nove andares), para ser saudado pelo som explosivo do oceano quebrando nas pedras lá embaixo. Apesar de seus instintos darem o sinal de alerta vermelho, ele não luta para fugir dali e faz uma verificação de última hora em seu “equipamento de segurança”: uma sunga. O coração bate acelerado. Mas a concentração é tão grande que ele não conseguiria ouvir um tiro de canhão. “Quando estou em pé sobre a plataforma, momentos antes de saltar, poderia estar tocando a minha música favorita em volume ensurdecedor, que eu nem sequer ouviria”, diz Duque à Status, sobre a extrema concentração que antecede cada pulo. Ele respira fundo e salta. Três segundos e numerosos giros e torções – que fariam uma dançarina de pole dance parecer uma amadora – depois, ele atinge a água, causando apenas o menor dos respingos.

O que a maioria de nós faria somente sob a coação de homens armados ou animais ferozes, o colombiano Orlando Duque, 38 anos, faz todas as semanas desde os 20. Sua arte? Saltos ornamentais de penhascos, em que controle perfeito do corpo, concentração máxima, beleza e muita tensão são parte do esporte. Nessa atividade, a força do impacto dos competidores com a água é nove vezes maior do que um salto de uma torre de dez metros, a maior altura nas competições – olímpicas ou não – de saltos ornamentais em piscina. Em 27 metros, os atletas chegam a 90 km/h e, ao atingir a água, voltam a 0 km/h em apenas quatro metros.

Saltar de penhascos é natural para Duque. Quando era menino, pular na água foi a primeira coisa que lhe veio à mente quando sua mãe o levou para a piscina em sua cidade natal, Cali. Aos 10 anos, ele resolveu levar a sério seu talento para os saltos, treinando seis horas por dia, o que acabou por conduzi-lo à equipe nacional de mergulho, aos 15 anos, em que ganhou inúmeros títulos. Após uma década de atividade competitiva e um ressentimento com o Comitê Olímpico Colombiano, que não quis levá-lo para a Olimpíada de Barcelona, em 1992, Duque interrompeu sua carreira, mudou-se para a Europa e foi trabalhar em um parque de mergulho em que ele era o show. “Fazia aquele tipo de salto de desenhos animados, de uma escada alta para uma pequena piscina, mergulhos através de aros em chamas, todas essas coisas que chamam a atenção”, diz o atleta.

Em um show de mergulho no Havaí, ele se apaixonou por uma dançarina de hula e resolveu ficar na ilha. Mas foi só em 1999 que ele trocou as plataformas com estrutura de concreto recoberta com material antiderrapante por penhascos reais, de rocha sólida. “Na piscina você sempre tem as mesmas condições. Tudo está sempre sob controle”, diz ele. “Mas em saltos de penhasco, nunca se sabe as condições até estar realmente lá. É um pouco mais divertido. Pular em uma piscina tornou-se gradualmente monótono, e o salto de lugares realmente altos era o próximo passo lógico”, diz ele, que já ganhou nove títulos mundiais e detém dois recordes no Guinness (salto mais alto e maior nota em um único salto).

Sem erros
Duque hoje vive em Laie, praia a 40 minutos de Honolulu, capital do Havaí. No pouco tempo que passa em casa, ele gosta de ficar com sua família, lendo na praia ou pegando jacaré. Na maior parte do ano, porém, ele pode ser encontrado no alto dos penhascos mais espetaculares do mundo. O que o leva a saltar de uma altura comparável à de um prédio de nove andares? “A melhor explicação é o estado de nervosismo que fico antes do mergulho e o alívio que sinto depois, quando volto à tona vivo e bem. Desafiamos os nossos limites e, às vezes, chegamos um pouco mais além.” O maior mergulho de sua carreira foi registrado no filme 9 dives, que conta a história de seus feitos: um salto de uma ponte de 34 metros de altura, na Itália. “Há uma diferença gigantesca entre 27 e 34 metros. O local de ‘aterrissagem’ parece tão pequeno quanto uma cabeça de alfinete, e a água é dura como concreto. O menor erro e… Não, é melhor nem pensar nisso”, diz ele.

Foi também durante a filmagem de 9 dives que Duque sentiu a maior dificuldade em um salto. “Estava em uma cachoeira no sul da Áustria. Não era difícil. A altura era de apenas 22 metros, mas a área onde eu tinha que pousar era muito pequena e eu tive que saltar de muito longe para chegar lá. Então, tudo teve que ser calculado perfeitamente. Este foi, provavelmente, um dos mais assustadores mergulhos que fiz.”

O maior equívoco sobre esse esporte é pensar que a queda do mergulhador é amortecida pela água. Ao saltar de um penhasco com mais de 20 metros de altura, uma pessoa atinge a água a mais de 75 km/h, independentemente do peso corporal dele ou dela. A alta velocidade torna o ponto de contato mais parecido com uma parede de tijolos do que um banho de espuma. Assim, a técnica de mergulho torna-se muito importante. Mergulhadores profissionais são altamente treinados e bem preparados para lidar com mergulhos avançados, incluindo combinações de acrobacias, como cambalhotas e parafusos.

A posição do corpo no momento do impacto é extremamente importante para a segurança. No salto de penhascos, o mergulhador deve cair em pé, como uma agulha (leia o quadro), para evitar hematomas, ombros deslocados e até costas e pescoço quebrados. “Por causa do alto risco de lesão, os mergulhadores devem sempre avaliar seriamente as suas habilidades antes de tentar qualquer movimento radical. No momento em que você para de ter medo, você começa a viver perigosamente”, alerta Duque. “No ano passado, eu estava fazendo um treinamento na Colômbia e caí de lado. Quebrei algumas costelas e fui parar no hospital. Como tinha perdido minha orientação no ar, e isso é a pior coisa que pode acontecer a um mergulhador, não consegui ver onde estava a água. Tive sorte. Normalmente, uma lesão grave acontece em erros assim.”

A pulsação de Duque começa a acelerar cerca de 15 minutos antes do salto. Para evitar erros fatais, um minuto antes de pular, ele foca sua atenção no mergulho a ser realizado. Tira o elástico que prende seu cabelo, fecha os olhos e se prepara para passar três segundos – uma eternidade para o mergulhador – suspenso no ar, ciente de nada além do êxtase da velocidade, da imersão, da desaceleração e da emersão. Depois é soltar um suspiro de alívio.

Circuito mundial
Com origem na ilha de Mauí, no Havaí, no século 18, o salto em penhascos era um rito de iniciação aos reis havaianos. Recebendo influências dos saltos para a água do programa olímpico, sobretudo ao nível das regras de avaliação, a modalidade só recentemente se assumiu como um esporte de alta competição, pretendendo, inclusive, fazer parte dos Jogos Olímpicos de 2020.

Orlando Duque

Atualmente, o Red Bull Cliff Diving é o campeonato mais cobiçado do salto ornamental em altura no mundo. O evento percorre o mundo – Córsega, Grimstad (Noruega), Açores (Portugal), Inis Mor (Irlanda), Boston (Estados Unidos), Pembrokeshire (Reino Unido) e Wadi Shab (Omã) – com uma elite de 12 atletas. A competição começou em 2009 e a altura de 27 metros permite aos atletas tempo suficiente para realizar manobras nunca feitas anteriormente. As notas são baseadas em três critérios: a dificuldade do salto, a posição no ar e a entrada na água.

O atual campeão da competição, o britânico Gary Hunt, é apontado como um dos principais favoritos ao título. Para desafiá-lo, os principais nomes são o de Orlando Duque, que retorna à competição, e o russo Artim Silchenko, segundo colocado no ano passado.

Duque em saltos distintos do Red Bull Cliff Diving, campeonato da elite do esporte

 

O SALTO PERFEITO

Entenda como saltar e fazer acrobacias como um profissional

Pré-pulo

Primeiro é necessário inspecionar a profundidade: 4,5 metros com fundo de areia é o mínimo. Se existirem obstáculos (corais, pedras, carros, etc.), adicione mais três metros à profundidade mínima. “Julgar a altura é difícil, então comece de um ponto mais baixo, cerca de metade da altura total da falésia ou penhasco. É assim que fazemos”, ensina Duque, que não recomenda a amadores saltar de qualquer coisa maior do que dez metros.

Pulo
Depois de descobrir a altura e exatamente o que você vai fazer, mentalize o salto. “Pouco antes de saltar, você vai ficar animado. Acontece com todos nós”, diz Duque. A chave para manter a calma, além de visualizar o salto, é fazer com que o corpo fique em uma boa posição. “À beira do precipício, mantenha a cabeça parada, olhar fixo no horizonte, com a água apenas no campo de visão. Não mexa o pescoço.” Com a cabeça e o corpo retos, salte primeiro com seus quadris, o que forçará seu corpo inteiro a ficar perpendicular à água. “Se você levar ombros ou pernas primeiro, vai acabar virando.”

Queda
“Há um ponto depois de 4,5 metros de queda onde parece que você nunca vai bater na água”, diz Duque. É aqui que a maioria das pessoas começa a surtar. Mas é possível fazer pequenos ajustes no ar. “É muito parecido com andar na corda bamba. A sensação de desequilíbrio que você pode corrigir usando os braços.” A dica é manter os ombros relaxados e usar sua barriga para manter uma posição reta enquanto você está caindo. “Você pode fazer pequenas correções, mas se já perdeu completamente o controle, não há muito o que fazer.”

Aterrissagem
Quando se salta no chão, o impacto é absorvido pelos joelhos. Na água, é exatamente o oposto. “Quando vir a água chegando mais perto, estique as pernas o mais rijo e reto possível para empurrar a água para fora do caminho”, diz Duque. “Você quer abrir um buraco na água para que todo o seu corpo passe.” Para isso, seus braços devem estar para baixo, colados ao corpo, ou para cima. Na água, abra os braços para diminuir a velocidade.