CAPITÃO CAVERNA

Sem diploma ou qualquer formação profissional, ele é o homem que melhor conhece o maior complexo de cavernas do Brasil, no interior de Goiás. Com vocês, Ramiro Hilário dos Santos

 

Por Eduardo Petta (texto) e Caio Vilela (fotos), de São Domingos (GO)

 

CINCO EXPLORADORES ENTRAM NA CAVERNA. No terceiro e último dia da aventura, uma pedra desaba e fecha a passagem de saída. Sem ter o que fazer, com parca merenda, os homens esperam pelo resgate, que chega ao décimo dia. A operação é delicada. A caverna está distante da cidade, e os espeleólogos, longe da entrada. Dez homens morrem soterrados na operação. No vigésimo dia, a equipe de resgate consegue se comunicar pelo rádio com os membros da expedição. O líder do grupo, Roger Whetmore, pergunta quantos dias o resgate estima para salvá-los. Dez dias é a resposta. Questiona então ao médico do lado de fora se conseguirão sobreviver esse tempo sem comer carne. “Não”, diz o doutor. E se sobreviveriam caso comessem a carne de um deles. “Sim”, responde a voz no rádio. Segue-se um silêncio. Roger diz aos companheiros que esta não é uma boa ideia. Eles insistem. Jogam os dados. Roger não participa, perde, é sacrificado e jantado pelos amigos. Dez dias depois, os outros quatro são salvos. E mais tarde condenados à pena de morte.

O livro O caso dos exploradores de cavernas, ficção do jurista norte-americano Lon Fuller, saltou à minha memória enquanto percorríamos, eu e o fotógrafo Caio Vilela, o longo caminho entre Brasília e São Domingos, no interior do cerrado goiano. Nosso objetivo era desbravar algumas grutas do maior complexo geoespeleológico do Brasil, localizado no Peter (Parque Estadual de Terra Ronca), e conhecer de perto o mitológico guia Ramiro Hilário dos Santos, o homem que participou de todas as expedições de salvamento na região, respeitado por sociedades de espeleologia do mundo todo. Nascido e criado praticamente dentro das cavernas, hoje, aos 54 anos de idade, para todos que frequentam o Peter, Ramiro é rei da carbureteira, o mestre dos caminhos labirínticos do mundo da escuridão, capaz de cuidar sozinho do manejo das trilhas de todas as cavernas.

Ramiro caminha em fazenda da região

Deixamos Brasília às nove da manhã. Ao anoitecer e 500 km depois, finalmente, chegamos a São Domingos, uma típica vila do sertão de Goiás. Um pequeno centro antigo, cercado pela igrejinha e casas coloniais ao longo de uma represa e uma extensão de cidade com casas e tijolos e janelas de alumínio. Tomamos um quarto em uma pousada frequentada por caminhoneiros e caixeiros viajantes, mas depois descobriríamos que é melhor ficar pertinho das cavernas, seja no camping do Ramiro, seja em algumas pousadinhas simples da proximidade de Terra Ronca. Afinal, São Domingos fica a 70 km do parque por estrada de terra, boa em tempos de seca (maio a outubro), mas intransitável na época da chuva (novembro a abril).

Antes de o dia raiar estávamos comendo poeira nesse chão, entre galhos retorcidos e palmeiras do cerrado, até chegar, duas horas depois, à casa de Ramiro. Encontramos o homem mexendo em seu material de cavernas. Mostrou-nos suas carbureteiras antigas, cordas de resgate, e álbuns de fotos. Logo começou a remexer em suas memórias. “Eu praticamente nasci dentro de uma caverna. Comecei a guiar quando tinha 7 anos. Aqui eu brincava de esconde-esconde, casei e batizei meus quatro filhos. Isso aqui é minha vida, menino.”

O guia na entrada da caverna Terra Ronca II

Foi o avô de Ramiro, fugindo da seca do Sertão baiano, que trouxe toda a família para morar naquela região, há quase 100 anos. Montou um altar debaixo dos 90 metros da monumental abertura da gruta de Terra Ronca, chamou um padre e armou uma missa para os colonos da região. Diz a lenda que naquele dia deu-se um milagre de cura. Alguns viram a imagem de Nossa Senhora da Aparecida e começava ali a veneração da gruta, cuja tradicional festa de Bom Jesus da Lapa, em 6 de agosto, reúne milhares de fiéis e romeiros de todo o nordeste goiano.

Ramiro veste o seu macacão cor de vinho, coloca a carbureteira na cabeça, mochila nas costas e nos leva para a travessia da Terra Ronca, distante 100 metros da porta da sua casa. No caminho, acho que ele está falando sozinho. “Não, estou rezando”, diz. “Oro para que nada nos aconteça, ninguém se machuque. Nunca ninguém se feriu seriamente comigo guiando.”

Ramiro cruza rio subterrâneo dentro da caverna Terra Ronca

Apesar do temor que provocam em muita gente, cavernas para Ramiro são sagradas, lugares de bem onde o homem encontra-se consigo mesmo na escuridão, nas entranhas da Terra. Com a agilidade de um gato, ele nos revela todo o esplendor da Terra Ronca, nos conduzindo de uma claraboia a outra numa travessia de seis quilômetros que levou quase cinco horas.

Iluminamos o caminho com a chama de carbureto de nossos capacetes. As sombras das estalactites e estalagmites dançam nas paredes. Ramiro nos conta que a vida nas cavernas desde criança sempre foi uma diversão. Ali corria, brincava com os irmãos e amigos de escondeesconde. Aos poucos foi ganhando intimidade com os salões, acompanhando os primeiros grupos de espeleólogos franceses que chegavam. Depois, os “feras” brasileiros. De tanto andar com os bons, virou um deles. “Ramiro é o maior especialista daquela região, um espeleólogo na prática”, afirma Ericson Cernawsky, do Grupo Pierre Martin de Espeleologia. “Seu faro de mateiro é fundamental para quem chega de fora para explorar aquelas cavernas.”

Maravilhado com a beleza da Terra Ronca, pergunto ao Ramiro porque o Peter não vinga como destino de ecoturismo. “Aqui é muito longe, as estradas são indecentes, não tem infraestrutura. Pior. A maioria delas possui acesso fechado por porteiras de arame farpado, pois estão em terras que não foram desapropriadas”, lamenta o homem, lembrando que dentro do parque vivem 180 famílias e milhares de cabeças de gado..
E já morreu alguém? Você já salvou muita gente? “Morrer nunca morreu. Mas já perdi a conta de quanta gente tive que resgatar.” Há dois anos, ele comandou o resgate de quatro mulheres de um grupo de Brasília, que ficaram perdidas três dias numa das cavernas da região. “Foi difícil achá-las, pois a caverna en que estavam tem muitos túneis e salões, alguns deles estreitos. Elas deram sorte que conseguimos encontrá-las. Estavam muito fundo na caverna.”

Ele observa estalactites no interior da caverna São Vicente

Ramiro nos acompanha pela caverna São Vicente, considerada a mais perigosa do Brasil por conta de seus rios caudalosos, cachoeiras e fendas abissais. O lugar é tão perigoso que Ramiro levou junto outro guia, o “Gato”, de 34 anos, treinado por ele desde os 15 anos. O rapaz é apenas um dos meninos da região treinados por Ramiro para dar continuidade à exploração sustentável do Peter.

Não é pouca coisa a ser preservada. Com 57 mil hectares, o Peter, criado em 1989 e declarado Reserva da Biosfera pela Unesco em 2000, talvez seja o principal conjunto espeleológico da América Latina. Conta com cavernas que datam de mais de 620 milhões de anos. Sete das 30 maiores cavernas do País ficam aqui. A maior delas, Angélica, tem 14.100 metros de extensão. O parque conta com mais de mil cavidades subterrâneas, sendo que apenas 40 delas foram mapeadas. O parque, naquele trecho do sertão goiano, ainda abriga uma grande diversidade biológica. Segundo dados da Secretaria do Meio Ambiente de Goiás, já foram registradas mais de 150 espécies de aves e quase 50 de mamíferos. A vegetação formada por cerrado, cerradão, matas de galeria e veredas é o habitat de animais como lobo-guará, tatu-canastra, veado-campeiro, onça-pintada e arara-azul.

De acordo com o espeleólogo Ricardo Martinelli, que visita a caverna São Vicente há cinco anos, o perigo são as “inúmeras cachoeiras em seu interior”. O rio desaparece no rochedo calcário, passando por uma série de corredores subterrâneos que se prolongam de forma labiríntica, deixando relevos nas paredes. Distante 3,5 quilômetros da entrada, chegamos num trecho chamado Caldeirão. E ali ficamos cercados por torres contorcidas, ornamentadas por florestas de estalactites e estalagmites, iluminadas pela luz fantástica das carbureteiras. Não fossem elas, seria escuridão.

Por todas as cavernas por onde passa – muitas delas descobertas por ele próprio – Ramiro sabe onde estão os salões mais bonitos, os espeleotemas mais raros. A cada peça iluminada por sua carbureteira ele se emociona, seus olhos brilham e ele vibra ao apontar nos imensos salões cortinas ou paredões dobrados, pérolas, travertinos, flores de aragonita e calcita. “Não me canso de ver essas belezas. Todo mundo deveria fazer essa viagem pelo mundo subterrâneo”, diz o guia, que costuma cobrar R$ 100 por dia de trabalho. “Amo o que faço. Se alguém quiser vir comigo e não tiver dinheiro, levo até de graça.”