GOLPES NO PRECONCEITO

Fomos até o Nepal conhecer as monjas budistas que superam a discriminação contra as mulheres ao incluir treinos de kung fu em sua rígida rotina religiosa

 

Por Elka Andrello (texto) e Galen Stolee (fotos), de Katmandu

 

OS PRIMEIROS RAIOS DE SOL DA MANHÃ nascem tímidos sobre o monastério Amitabha Drukpa, fincado no topo de uma montanha em Katmandu, capital do Nepal. As monjas que ali vivem já estão a postos para mais um treino de kung fu. O som de golpes e gritos quebra o silêncio e a tranquilidade do local, e acompanham os timbres dos tambores da meditação matinal. Essas mulheres são pioneiras. É a primeira vez que a tradicional rotina monástica no Nepal é quebrada pela prática da arte marcial chinesa famosa no ocidente com os filmes do ícone pop Bruce Lee.

O kung fu não faz parte do rígido treinamento monástico que compõe o sistema milenar budista. A luta foi introduzida como parte do treinamento espiritual das monjas há apenas três anos. Tudo começou com o visionário Gyalwang Drukpa, uma das maiores autoridades do budismo e líder da linhagem tibetana Drukpa, também conhecida como “a linhagem do dragão”. Ele estava em viagem pelo Vietnã quando viu monjas locais treinando kung fu. Era algo complemente fora do padrão e Drukpa ficou encantado. Reparou que aquelas religiosas se destacavam em relação às demais por sua atitude autoconfiante ao lidar com os homens e as mulheres da comunidade. As meninas exibiam um jogo de cintura único ao prestar assistência às pessoas, e inclusive socorriam homens bêbados, atitude inédita para uma monja, já que a maioria costuma ser tímida e medrosa. “As monjas que eu encontrei nessa viagem ao Vietnã são muito espertas e rápidas para absorver tudo o que acontecia ao seu redor. Elas são capazes de se defender e também de ajudar. E é isso que eu tenho sonhado em ensinar no meu monastério”, conta Drupka.

As atividades no monastério começam de madrugada e reservam uma hora e meia do dia à prática do kung fu

Na Ásia, a escolha do caminho monástico pode não ser exatamente seguir um chamado religioso. É comum, entre as famílias, que algum dos filhos tome os votos monásticos de não matar, não roubar, praticar o celibato, não se enfeitar, entre outros, e passe alguns anos no monastério para, depois, entregar os votos e constituir uma família. Também entre as mulheres seguir uma vida religiosa pode representar uma oportunidade para estudar e se desenvolver. Os monastérios, além de ensinar o budismo, são instituições de ensino tradicional, uma opção importante para os mais pobres encaminharem seus filhos. Além da educação recebida, é uma alternativa para as meninas escaparem dos casamentos arranjados, prática comum em vários países da região, onde ainda hoje garotas são obrigadas a se casar com homens muitas vezes mais velhos.

Nessa perspectiva, raspar a cabeça, meditar, receber uma boa educação e ser tratada com dignidade e respeito pode ser um caminho bastante atraente. Prova disso é o número crescente de meninas que procuram monastérios, principalmente os que incluem estudo de idiomas entre suas atividades. “É bem mais difícil ser mulher do que homem, seja no Ocidente, seja aqui no Himalaia. Aqui é ainda pior devido às barreiras culturais que colocam a mulher sempre em segundo lugar. Eu me preocupo com isso e trabalho por mudanças que possam elevar a situação da mulher”, diz Drukpa. As monjas de seu monastério vêm de países como Nepal, Índia e Butão. “As mulheres aqui na região do Himalaia supostamente têm que ficar dentro de casa cuidando das tarefas domésticas e das crianças. Não podem fazer nada além disso”, protesta a jovem monja indiana Yodrom. “Mas nós somos iguais e merecemos as mesmas oportunidades, merecemos ter liberdade”, desabafa. Mesmo no ambiente monástico as mulheres são discriminadas. Ao longo da história, muitas vêm sendo privadas dos ensinamentos mais elevados, transmitidos apenas aos homens. Na maioria das vezes, durante as cerimônias e meditações, elas têm que ficar no fundo dos templos e, em muitos casos, enquanto os monges rezam pela iluminação, as monjas rezam para nascer homem na próxima vida.

Por tudo isso, Gyalwang Drukpa e suas monjas lutadoras de kung fu são um marco. As meninas agora sabem se defender, não têm medo de interagir com as pessoas e circulam com a cabeça careca erguida pela montanha onde moram. Os treinamentos diários ajudam as monjas a desenvolver o autoconhecimento, ingrediente importante na prática espiritual. Além da habilidade física, o kung fu trabalha o desenvolvimento pessoal por meio da disciplina e da persistência no aperfeiçoamento dos golpes.

Uma das grandes lições da arte marcial, de acordo com o líder Drukpa, é aprender a ser derrotado e, mesmo assim, encarar novos obstáculos e desafios. “A mulher precisa ter confiança, especialmente para se desenvolver na prática espiritual. Aqui na minha organização elas recebem muita teoria, mas é importante ter experiências práticas para completar o aprendizado. Aí entra o kung fu, atividade que vejo como uma prática tântrica assim como a ioga, em que o corpo se conecta com a mente, proporcionando um completo entendimento dos ensinamentos mais profundos”, explica o religioso.

A rotina das monjas é puxada. As atividades começam às três da manhã e acabam às dez da noite. As monjas se dividem entre a prática de kung fu, sessões de meditação, estudos budistas e estudos convencionais acadêmicos. Ainda são responsáveis por todo o trabalho realizado no templo, como jardinagem, trabalhos no escritório, na cozinha, além de receber os visitantes. Mas os treinos de kung fu, que tomam 90 minutos diários das meninas, são a parte favorita do dia. “O kung fu nos ajuda a ter menos preguiça e conseguir ficar sentada sem se mexer por muito mais tempo durante as meditações, além de trazer uma sensação de felicidade”, conta a monja Yudrom. O treinador Getun, professor convidado do Vietnã, é um ilustre campeão da modalidade no país. Os treinos começam com a repetição dos movimentos já conhecidos pelas monjas e evoluem para golpes novos. Elas treinam a modalidade solo e também o uso da vara. “É a parte mais difícil”, diz Uancho, monja adolescente vinda do Butão.

 

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Meditação turbinada
No início, Gyalwang Drukpa titubeou em levar o kung fu para seu monastério. “Existe esse mal-entendido de que é uma luta violenta que serve para machucar, o que é o oposto dos ensinamentos budistas”, diz. A arte marcial criada na China a partir da observação dos movimentos dos animais, foi historicamente usada como técnica de defesa pessoal. Mas quem se aprofunda nos estudos do kung fu aprende que se trata da busca da perfeição por meio da superação, uma combinação perfeita com as palavras de Buda. “Eu treino kung fu há três anos para melhorar a minha concentração durante a meditação. Cada vez tenho mais foco e sou mais eficiente nas minhas atividades no monastério”, diz a monja Chime Lhamo.

Na história das artes marciais, acredita-se que algumas monjas que integravam o famoso templo Shaolin, na China, aprendiam kung fu. Fechado durante a Revolução Cultural (liderada por Mao Tsé-Tung a partir de 1966) e reaberto na década de 80, o local tornou-se centro de treinamento de kung fu e atração turística. Os monges Shaolin recebem os mandamentos budistas de não violência e praticam somente a autodefesa.

As monjas do monastério Drukpa treinam o estilo Shaolin. Do mesmo modo que os monges chineses, elas praticam para autodefesa. “Além dos benefícios internos, o kung fu é muito eficiente para a defesa pessoal. Se você não sabe se proteger, como você poderá ajudar às pessoas?”, pondera Gyalwang Drukpa. “Internamente, é como uma dança que faz fluir a energia de uma maneira pacífica e integra a pessoa com o meio externo.” Ao derrubar o preconceito contra a mulher e elevar sua condição na comunidade, as monjas kung fu são a prova viva disso.

 

O MONASTÉRIO AMITABHA DRUPKA

A linhagem Drukpa do budismo tibetano existe com esse nome desde o século 12, e pode ser traduzida como a “Linhagem do Dragão”. Sua autoridade máxima é o tibetano conhecido como sua santidade Gyalwang Drukpa. Líder antenado com a sociedade contemporânea, o religioso passa a maior parte do tempo viajando pelo mundo e conduzindo cerimônias em seus seis monastérios localizados no Tibete, Índia e Nepal e proferindo palestras em centros de estudo ao redor do planeta. Em 2012, um monge brasileiro foi ordenado lama nessa linhagem, pela primeira vez na história. Conhecido como lama Jigme Lhawang, ele organiza peregrinações para lugares sagrados. A próxima será para Ladakh, na Índia, em outubro, e é aberta ao público.
Informações: www.drukpabrasil.org

 

O BUDISMO E O KUNG FU

Interpretado à primeira vista como uma luta, o kung fu tem um significado bem mais profundo. Mais do que ser capaz de dar golpes precisos, um praticante da arte marcial não fará grande progresso se suas habilidades físicas não estiverem acompanhas por desenvolvimento emocional e intelectual. A força física precisa estar alinhada à disciplina, força de vontade e compreensão dos próprios limites. Por isso, o princípio do kung fu é harmonioso aos fundamentos budistas e sua prática vem sendo assimilada na rotina das monjas nepalesas.