SEGURA, COWBOY

Peões brasileiros desbancam os americanos na maior competição de rodeios do mundo e fazem fortuna nos EUA

 

Por Fabrícia Peixoto

 

valdiron Oliveira tenta segurar-se sobre o animal

ROBSON PALERMO precisa de alguns segundos para se lembrar de todas as lesões que já sofreu pelo corpo. “Mais fácil falar das principais”, diz. Aos 28 anos, o peão mato-grossense contabiliza duas fraturas nas pernas e duas na coluna. Também já “estourou” a rótula do ombro esquerdo, o que o levou à mesa de cirurgia, e teve a clavícula deslocada. No momento, sua escápula direita está trincada – mas nada é capaz de tirá-lo da maior competição de montaria do mundo, organizada pela Professional Bull Riders (PBR), nos Estados Unidos. “Já nem sei mais o que é montar sem alguma dor. Já me acostumei”, diz ele. Desde que se mudou para terras americanas, há três anos, Robson não sai da lista dos dez melhores do ranking. No ano passado, terminou a competição em terceiro lugar, e ainda venceu o rodeio de Las Vegas, o mais importante do ano e que encerra a temporada. Junto com as vitórias e com a fama, veio também uma conta bancária recheada em quase US$ 2 milhões em prêmios. “Não tenho isso tudo, não. Faltam aí uns US$ 25 mil ainda”, conta o peão à Status, com um ar de ingenuidade misturado ao forte sotaque do interior.

O atual campeão mundial, Silvano Alves, em disputa pelo bicampeonato

O caso de Robson Palermo está longe de ser uma exceção. Nos últimos 11 anos, os brasileiros conquistaram seis campeonatos de rodeio nos Estados Unidos, destronando os americanos em um dos esportes mais importantes naquele país, com direito a fãs fervorosos e finais transmitidas ao vivo pelos principais canais de televisão. São jovens de 20 a 30 anos que, depois de se destacarem em eventos pelo interiorzão do Brasil, conseguiram se qualificar para os milionários torneios americanos. A mudança para os Estados Unidos, nesses casos, é obrigatória, e o fato de não falarem um “ai” em inglês é mero detalhe. “Quando cheguei a Oklahoma, em 2007, eu não falava nada da língua e, para piorar, estava nevando. E eu sem telefone, sem nada. Eu só pensava: e se não aparecer ninguém para me buscar?”, relembra o goiano Valdiron Oliveira, 33 anos. Segundo colocado no ano passado, ele era um dos favoritos ao título este ano e estava na dianteira da competição, quando caiu do touro em um rodeio na cidade de Uncastle e ficou desacordado depois que o animal pisou em suas costas, levando o peão a fraturar o osso da face. No mês seguinte, Oliveira voltou a cair e levou mais um pisão, no mesmo lugar. Continuou na disputa, com dor e tudo. “Quero ganhar um campeonato. Vim para cá para isso. Meu plano é ficar mais uns quatro anos aqui”, conta o paulista, que mora com a mulher e dois filhos em um rancho próprio, na cidade de Decatur, no Texas.

O peão Silvano Alves cai do touro

Sem dúvida, o gosto de segurar o troféu de melhor do mundo, com seu prêmio de US$ 1 milhão, é o grande objetivo desses jovens interioranos – mas o fato é que é possível sorrir mesmo não chegando lá. O campeonato da primeira divisão, o Built Ford Tough Series, tem 32 etapas no ano e, em cada uma delas, os oito melhores são premiados. Os que conquistam a melhor pontuação chegam a fazer US$ 80 mil em uma única noite. Na grande final de Las Vegas, o prêmio para o campeão sobe para US$ 250 mil, além de uma camionete. “Se não se machucar e tiver um desempenho razoável, um peão consegue fazer uns US$ 300 mil por ano, tranquilamente”, diz Palermo, que estreou em um grande rodeio quando tinha apenas 17 anos. Casado há cinco anos e com dois filhos, ele vive na cidade texana de Tyler, mas os dólares ganhos com os rodeios estão mesmo no Brasil, boa parte em investimentos bancários. “Para fazer dinheiro, é melhor aqui. Mas para investir é melhor aí”, diz o peão milionário.

Efeito manada
Afinal, o que explica a ascensão dos brasileiros ao topo do rodeio internacional? “Acho que tem a ver com uma curiosidade, uma vontade de desbravar arenas não conhecidas e estar entre os melhores do mundo”, arrisca Rafael Vilella, um dos principais narradores de rodeio do País. Para ele, a explicação não deve ser buscada no dinheiro. “É claro que a premiação em dólar ajuda, mas o rodeio brasileiro tem muita grana também”, completa Vilella, lembrando que o campeonato aqui paga R$ 1 milhão para o grande vencedor. Os profissionais da área também costumam levantar a explicação do “efeito manada”: ou seja, os peões estariam mais seguros para encarar o mercado americano por saberem que há outros montadores na mesma situação que eles por lá. Seguindo essa tese, o grande desbravador seria mesmo o paulista Adriano Moraes, que em 1993 deixou de lado uma carreira promissora no País para se arriscar nos Estados Unidos – sem amigos ou qualquer referência de sucesso por lá. Um ano depois, já era o campeão mundial, título que voltou a conquistar duas vezes mais, tornando-se o primeiro tricampeão do mundo.

Robson Palermo voa do touro

Silvano Alves recebe o prêmio de US$ 1 milhão, acompanhado da família

Churrasco e sertanejo
E, apesar de todo o sucesso dos brasileiros, engana-se quem imagina algum tipo de retaliação do público americano. Ao contrário do futebol, em que o torcedor quer ver seu time ganhar e o outro se danar, no rodeio o público está interessado em um bom espetáculo. “O americano que gosta mesmo de rodeio quer ver o show, quer ver o peão superar os oito segundos em cima do touro. Acho que por isso gostam dos brasileiros, porque somos bons”, diz Marco Eguchi, 23 anos. Há menos de um ano nos Estados Unidos, Eguchi é o novato do grupo e ainda não tem rancho próprio, como os veteranos. “Por enquanto, prefiro dividir o apartamento com os companheiros. É melhor, a gente faz companhia um pro outro”, conta o paulista de Poá, que divide o teto com Paulo Lima e Emílio Rezende, também montadores recém-chegados. A regra de que brasileiro vive “em bando” quando está no Exterior se aplica bem ao universo dos peões. Avessos às baladas locais e com um círculo de amizades extremamente restrito, eles preferem juntar as famílias nos fins de semana para um churrasco com pagode e música sertaneja. “A gente nem lembra que está na mesma competição, porque na verdade o peão compete mesmo é com o touro”, diz Marco. Nem o forte assédio feminino parece ser capaz de tirá-los da linha. “Elas caem em cima mesmo, demais da conta. Mandam bilhete com telefone para a gente ligar, sabe? Mas a gente sabe se esquivar”, diz Oliveira.

Peões brasileiros posam juntos para foto

Tudo indica que, este ano, um brasileiro sairá novamente vitorioso das arenas americanas. A menos de um mês para a final do campeonato, o paulista Silvano Alves segue com a melhor pontuação, com Oliveira logo atrás. A rápida ascensão de Alves tem impressionado os profissionais da área. Com apenas 24 anos e vivendo nos Estados Unidos há menos de três, o peão de Pilar do Sul, que mal fala inglês, tem tudo para levar o bicampeonato para casa – foi dele o prêmio de US$ 1 milhão como o melhor do mundo no ano passado. Com todos esses prêmios, não seria a hora de voltar para o Brasil? “O dinheiro é bom, claro, mas a gente gosta mesmo é de montar”, diz o atual campeão mundial. “E quero montar aqui até quando Deus quiser. Aí, sim, volto para a terrinha.”

O TAMANHO DO SHOW

US$ 1 milhão é o prêmio pago ao vencedor da principal disputa nos EUA
US$ 80 mil é quanto um peão consegue arrecadar em um único rodeio
45 peões participam do campeonato mundial a cada ano
7 títulos foram conquistados por brasileiros desde que a liga foi criada, em 1994