ALEXIA DECHAMPS

Um dia, cansou de ser loira e linda e imaginou entrar num universo que fosse radicalmente diferente de tudo o que ela – menina fina e chique do circuito Búzios-Punta, de família binacional – tinha vivido até então. Virou puta

 

Por Vivi Mascaro

 

No palco, bem entendido. Pegou o livro da Gabriela Leite, a hoje lendária fundadora da Daspu, pediu uma adaptação para teatro à Marcia Zanelatto, coautora do livro, e encarou aquela habitual via-crúcis do patrocínio a que está condenado todo aquele que insiste em montar uma peça no Brasil. “Ser puta no Brasil não é mole, não”, brinca ela. “A concorrência é grande e é complicado sair atrás do dinheiro.”

Encontro Alexia em raro final de tarde nublado num bistrô-confeitaria da rua Amauri, naquele epicentro de restaurantes badalados de São Paulo, e sinto que ela vive um momento de madura leveza. É a última semana da temporada de Filha, Mãe, Avó e Puta na cidade. Na semana seguinte, ela já estaria de volta ao Rio, para uma terceira reestreia, agora no Teatro Leblon, Sala Marília Pêra (sempre às terças, quartas e quintas). Para encarnar a ex-prostituta Gabriela Leite nas várias etapas da vida dela, Alexia cortou e pintou o cabelo, depois recorreu a uma peruca, adotou óculos e postura de velhinha, tremendo esforço de tentar se enfear, o que, no caso dela, convenhamos, é bastante difícil.

O resultado são cadeiras extras, filas na porta, uma e outra sessão a mais, a cada semana. “Uma loucura, a audiência”, diz. “Baixa um silêncio profundo, ninguém se mexe na cadeira. De repente, todo mundo explode em gargalhada.” A história de Gabriela contada por Alexia (“em uma hora, que é o tempo adequado a uma peça de teatro”) mexe, claro, com o tema da sexualidade feminina – “o clássico sex for sale” –, mas também com as fantasias masculinas. É uma aula, digamos assim. “Está lá o terrível dilema do tamanho do dito-cujo, que tanto incomoda os homens”, conta Alexia (relaxem: na versão da ex-profissional, é a qualidade que interessa às mulheres). Querem mais um exemplo de aprendizado rápido? A peça de Gabriela Leite explicita aquela recorrente dúvida: puta goza? “Goza, sim”, conta a atriz. “Na versão dela, tem homem capaz de cumprir a fantasia feminina mesmo quando a parceira é uma profissional do sexo.” E por aí vai. “Me identifiquei com a Gabriela. E aprendi que, entre quatro paredes, quando as pessoas se gostam verdadeiramente, vale tudo.” Por essas e por outras é que às vezes, saindo do teatro, tem sempre alguém dizendo (como aconteceu certa noite em Brasília): “Como você é corajosa!”

Queridinha do circuito Búzios-Punta, Alexia se encontrou encarnando no palco a prostituta Gabriela, fundadora da provocadora grife Daspu

É encantador perceber a naturalidade com que Alexia – cujo pai, belga-argentino, é graduado em engenharia em Harvard e cuja mãe é um ícone daquela Búzios encantadora dos pescadores, antes da chegada do asfalto e da turistada – fala das coisas da vida. “Aquela Alexia não existe mais”, decreta. Fico impressionada como ela se refere, insistentemente, muitas vezes, ao período em que ficou hibernada, reclusa, vivendo as dores da transformação, até chegar aonde chegou hoje, “produzindo meus próprios projetos, focando no teatro, mais madura, vivendo minha independência”. “Foram uns três anos, talvez mais”, lembra. Não tem mais a aflição de estar na novela das 9 (como já esteve, pelas mãos de Gilberto Braga). “Meus valores mudaram, no meio desse difícil caminho. Depois de tantas idas e vindas, estou mais quieta, mais sábia, mais feliz.”

Vale também para o amor. “A vida me ensinou a ir mais devagar, cansei de me machucar”, afirma ela, que diz fazer análise “desde que nasci”. “Mas, às vezes, quando percebo, já estou dentro, já caí de cabeça.” Hoje, ela procura “lealdade e parceria”. Com o pedigree que tem, ela podia ter se casado com homem rico, mas o sonho de Alexia é mais simples: “Me realizar como atriz, trabalhar muito, me divertir”. A espiritualidade é descoberta recente, na experiência adquirida em Abadiânia, Goiás, na figura do iluminado João de Deus. “Vou praticamente toda semana.” Acabou de voltar de lá. “Estou mais conectada, acredito em energia, em sinais, em pressentimentos, em cura espiritual.”

Outra coisa na qual a Alexia de hoje quer esquecer a Alexia de antes é no quesito homem. “Aprendi a gostar de ho-mem”, diz ela, reforçando a diferença. “Homem com atitude para uma mulher com atitude”. Eu pergunto: “Mas não tem muito homem bobo por aí?”. Alexia responde que sim, “mas também, com sorte, a gente acha homem interessantíssimo, posso dizer que já conheci alguns”. Ela diz isso, com um sorriso maroto nos lábios, e vai embora, leve e solta, como se flutuasse numa nuvem de felicidade.