AS VIAGENS GOOGLE

De carro sem motorista a elevador espacial, não faltam ideias mirabolantes no laboratório da empresa pontocom. Status selecionou algumas delas

 

Por Fabrícia Peixoto
Ilustrações Sandro Castelli

 

EM ALGUM LUGAR DA CALIFÓRNIA, nos Estados Unidos, um grupo de cientistas se debruça sobre uma questão, literalmente, de outro mundo: como construir um elevador de proporções gigantescas, saindo do planeta Terra em direção ao espaço. Não, os pesquisadores em questão não trabalham para a Nasa (apesar de a agência espacial americana desenvolver um projeto semelhante), mas sim para o Google. O elevador espacial é apenas um dos mais de 100 projetos com cara de ficção científica que estariam sendo desenvolvidos em um laboratório de endereço desconhecido, mantido pela empresa americana. Comentários sobre o envolvimento do Google em pesquisas mirabolantes sempre existiram, sobretudo na região de Palo Alto, sede da empresa – mas tanto os projetos quanto a própria existência do laboratório eram tratados apenas como uma divertida lenda urbana. O clima de total ceticismo se desfez em abril: depois de alguns vazamentos na imprensa, o Google apresentou ao mundo o protótipo de seu Project Glass, um par de óculos que faz o iPhone parecer um brinquedo para bebês. Desde então, muitos passaram a olhar para outros projetos que estariam sendo desenvolvidos pelo Google e se perguntar: será mesmo verdade? Status resolveu brincar de ficção científica e explica aqui alguns desses experimentos. Confira:

 

Cobertura, por favor

• A ideia de um elevador espacial é antiga: em 1895, o cientista russo Konstantin Tsiolkovsky já havia sugerido tal engenhoca. A própria Nasa, a agência espacial americana, desenvolve uma pesquisa sobre o assunto. Um dos principais desafios desde sempre têm sido os cabos de sustentação. “Ainda não temos materiais leves o suficiente para construir esses cabos, que precisam ter 35.000 quilômetros de extensão”, diz o físico Cláudio Furukawa, da Universidade de São Paulo. Os cientistas apostam no potencial dos nanotubos, cilindros de carbono que chegam a ser até 100 vezes mais fortes que o aço, mas flexíveis como o plástico. O material, porém, nunca foi produzido em larga escala (a fibra mais longa já produzida tem apenas 30 centímetros). Todo esse esforço pelo elevador espacial tem suas vantagens. “A redução nos custos de lançamento de objetos ao espaço seria tremenda”, diz Furukawa.

 

Mapa da mina
• Trata-se da busca por um antigo sonho do homem: encontrar água e outros minerais fora da Terra. Larry Page e Eric Schmidt – fundador e atual CEO e o diretor- executivo do Google, respectivamente – fazem parte dessa empreitada. Ao lado de figuras como o diretor de cinema James Cameron e Charles Simonyi, ex-executivo da Microsoft, eles criaram a Planetary Resources, uma empresa com o objetivo de prospectar minerais em asteroides. Segundo o site da própria companhia, fundada em 2010, robôs enviados ao espaço ajudarão não apenas a localizar esses asteroides como também a avaliar o acesso a possíveis minerais (como esses minerais são trazidos à Terra ou a alguma plataforma espacial ainda precisa ser estudado). Cada um dos sócios chegou a colocar até US$ 1 bilhão na nova empresa. Qualquer semelhança com o filme Avatar não é mera coincidência.

 

Olha para a frente!
• O vídeo de apresentação do Project Glass é surpreendente – e até mesmo assustador. Baseado na tecnologia de realidade aumentada, suas lentes permitem que o usuário veja um cenário real (por exemplo, o trânsito), ao mesmo tempo que informações aparecem a sua frente (uma seta pode indicar um posto de gasolina logo adiante, enquanto uma voz anuncia uma curva à direita). Por comando de voz, também é possível efetuar uma ligação (“ligue para o Pedro… discando… Oi, Pedro”), além de ditar um e-mail. São tantas tarefas a um piscar de olhos que fica difícil acreditar que alguém dê conta de tudo isso sem tropeçar ou confundir uma pessoa na rua com alguém da sua “agenda”. O Google não fala em prazos, mas jornais americanos especulam que os óculos estão “praticamente prontos” para o consumidor final, com previsão de venda para o final deste ano.

 

Esqueceu o ferro ligado? Não esquenta

• As geladeiras com acesso à internet, tão alardeadas no auge da farra pontocom, acabaram ficando caras demais e sumiram do mercado. Mas tudo indica que o Google ainda está disposto a transformar os produtos domésticos em seres inteligentes. Seu laboratório secreto estaria desenvolvendo um sistema de acionamento a distância em diversos itens, como regadores de jardim e até cafeteiras elétricas. Tudo isso poderia ser ligado e desligado pela internet, inclusive via celular – um sonho para os esquecidinhos.

 

O fim dos barbeiros
• Os carros não pilotados estão longe de ser novidade, com as principais montadoras desenvolvendo seus protótipos. Curioso mesmo é ver o Google metido nisso. Nos testes divulgados pela pontocom americana, o Toyota Prius chegou a atingir uma velocidade de 100 km/h – sem ninguém no volante. Um sistema de leitura a laser localizado no topo do veículo permite uma visão 360 graus do que se passa ao redor. Objetos e pessoas são lidos e interpretados em 3D, assim como todos os movimentos são captados. O carro também “entende” os faróis de trânsito, as rotas e o tráfego de outros automóveis. Em tese, o passageiro poderia entrar no carro, comunicar o destino e aguardar que o robô faça todo o trabalho.