GRÉCIA NO LIMITE

Ao tirar a própria vida, o farmacêutico septuagenário Dimitris Christoulas conseguiu chamar atenção para a crise vivida pelo povo grego. Mas o que acontece com um país que vê suas taxas de suicídio aumentar mais de 24% nos últimos anos?

 

Por Nadia Shira Cohen (texto) e Paulo Siqueira (fotos), de Atenas

 

A carta de suicídio de Christoulas

EM UMA AGRADÁVEL e ensolarada manhã de primavera em Atenas, o farmacêutico Dimitris Christoulas, um aposentado de 77 anos, acordou, vestiu-se como de costume, de blazer, camisa e calça social, tomou o metrô até a praça Sintagma, parou em frente ao Parlamento grego e deu um tiro na cabeça com uma cartucheira. “O governo acabou com a possibilidade de eu poder sobreviver com uma pensão digna, que paguei sozinho durante 35 anos sem nenhuma ajuda do Estado. E, sendo que a minha idade avançada não me permite reagir de forma dinâmica (embora se um colega grego pegasse uma Kalashnikov, eu estaria bem atrás dele), não vejo outra solução senão pôr, de forma digna, fim à minha vida, para que eu não me veja obrigado a revirar o lixo para assegurar o meu sustento. Creio que a juventude sem futuro um dia pegará em armas e enforcará os traidores na praça Sintagma (que em grego quer dizer Constituição) como fizeram os italianos em 1945 com Mussolini.”

Christoulas planejou cuidadosamente essas últimas palavras escritas em um pedaço de papel dobrado em seu bolso, que ele assumiu que seria encontrado pela polícia e posteriormente revelado ao mundo. Segundo informaram algumas testemunhas, ele ainda teria berrado “não quero deixar dívidas a minha filha” antes de desferir um tiro contra sua própria cabeça. Mais tarde, muitos viriam homenageá-lo no local onde cometeu seu último ato, deixando mensagens de solidariedade.

O próprio Christoulas em um porta-retrato, em sua casa

Este não é o único incidente triste de pessoas devastadas tentando saídas extremas em um país aleijado pelo aumento do desemprego, cortes severos nas pensões e salários, novos aumentos na tributação e medidas impopulares impostas pela União Europeia, FMI e Banco Central Europeu. A lista de vítimas da crise grega é crescente e alarmante. Desde o começo do ano, o país tem assistido, em estado de choque, a duas pessoas, por dia, colocarem um fim a suas vidas por causa da frustração política, do desespero e da humilhação insuportável. Além de Christoulas, por exemplo, um professor de geologia de 38 anos se enforcou em um poste de luz em Atenas, um sacerdote de 35 anos pulou da varanda de seu apartamento no norte da Grécia e um estudante de 23 anos deu um tiro na cabeça em Tessalônica.

Segundo a polícia local, a taxa de suicídio entre os homens gregos aumentou mais de 24%, chegando a 1.730 casos. Só em 2011, 450 pessoas tiraram suas vidas, a maioria culpando a crise grega por sua decisão. As cidades de Tessalônica e Atenas registraram o maior aumento nesse tipo de autoagressão desde 2009, quando o País tinha uma taxa de suicídio de 2,8 por 100 mil habitantes, ou pouco mais de 300 ao ano (das mais baixas do mundo).

Sua filha única, Emy

Ato político
Christoulas poderia ser apenas um dos muitos gregos que trabalharam a vida toda para criar um futuro que nos últimos anos desapareceu, enquanto o país se via num colapso econômico quase completo. A decisão de tomar a própria vida pode ter parecido mais um ato desesperado, porém reduzir seu suicídio a isso seria negar suas intenções políticas e o autossacrifício perante seu povo. Não foi por coincidência que ele começou sua carta de despedida em retrospecto a uma outra era de extrema injustiça política, quando Geórgios Tsolákoklu (1886-1948) governou brevemente a Grécia, após a Segunda Guerra Mundial, e o país ficou aos pedaços com a morte de 300 mil pessoas por fome e na guerra civil que se seguiu. Aquele período, chamado de “A Queda da Grécia”, aparenta ecoar na atual turbulência política e no desespero econômico. Christoulas era apenas um rapaz na época. Ainda assim, essa tragédia grega ficou gravada em sua mente e foi um catalisador para o homem que ele haveria de se tornar: um ativista ou, mais apropriadamente, um contumaz defensor da Justiça.

O atual primeiro-ministro Antonis Aamaras, em um comício

Dois meses e meio depois de Christoulas tirar a própria vida, os gregos reuniram-se numa demonstração de apoio ao recém-eleito primeiro-ministro, Antonis Samaras, do Partido da Nova Democracia, no mesmo lugar onde o sangue do aposentado havia sido derramado. Mensagens, flores e ursos de pelúcia adornavam uma árvore próxima ao local onde Christoulas se matou. O clima em Atenas estava tenso naqueles dias que antecederam as eleições parlamentares. Os gregos e o mundo em geral estavam ansiosos esperando para ver qual partido político prevaleceria e assumiria a tarefa de tentar salvar um país à beira do desastre. A dúvida estampada no rosto de todos era se o recém-eleito Parlamento votaria para manter a Grécia na zona do euro, um passo importante na estabilização da moeda e de toda a União Europeia. A Nova Democracia deverá permanecer no poder ao longo do próximo ano.

Muitos gregos têm tentado entender como eles chegaram à atual situação. Eles sabem que a crise financeira do país se deve ao fato de que, na última década, a Grécia acumulou uma dívida de US$ 100 bilhões que explodiu em 2009 causando o colapso do governo. O calote exigiu um plano de resgate de US$ 130 bilhões de outros países europeus, como França e Alemanha, em troca de medidas rigorosas de austeridade que reduziram drasticamente a maioria dos programas de serviço social, principalmente o sistema de pensões, levando o país a uma recessão extrema.

Muitas lojas de varejo da capital Atenas (no detalhe) foram substituídas por cozinhas improvisadas para distribuição de sopas

As consequências catastróficas da política e o estado da economia podem ser vistos claramente em qualquer esquina em Atenas. Lojas de varejo foram substituídas por cozinhas improvisadas para distribuição de sopas, e caixas de papelão estão com alta demanda devido ao aumento do número de sem-teto invadindo as ruas. Desde março deste ano, 2.074 lojas na capital fecharam as portas, e em áreas mais residenciais da cidade, como Patission, esse número é ainda maior, com 26,21% das lojas fechadas. O desemprego está por volta de 20% e, para jovens com menos de 25 anos, em 51,1%, número que dobrou apenas nos últimos três anos. As pensões foram cortadas pela metade e ainda correm o risco de mais cortes. Aqueles que trabalharam duro a vida inteira com a ideia de um dia se aposentar não conseguem pagar o aluguel e estão a um passo de revirar o lixo em busca de alimento.

Não é de estranhar que muitas das pessoas que se encontram em situação semelhante, e com um futuro ainda mais incerto, optaram por tirar a própria vida. A psicóloga Eleni Bekiari, da organização Klimaka, em Atenas, que trabalha com famílias vítimas de suicídios, acredita que os mais vulneráveis são aqueles que costumavam ter uma situação confortável, nunca tinham estado em dificuldade, e que agora se encontram sem trabalho ou com sua loja fechada. “O suicídio é associado a perdas na vida”, ela explica. “Então, aqueles que estão sofrendo grandes perdas durante essas crises estão em maior risco de cometer suicídio, é claro. O gatilho é sempre uma perda, perder o emprego ou perder alguém, perder o papel perante a família, perder o orgulho ou o senso de dignidade.”

Tabu
Para muitos gregos que perderam seus empregos ou pensões e não têm família a quem recorrer, a falta de inclusão social pode ser insuportável. Embora, historicamente, a Grécia tenha tido a menor taxa de suicídio na Europa, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, a Eleni acredita que esse número não seja real, pois o suicídio nesse país carrega um estigma pesado, fazendo com que muitas mortes não tenham sido registradas nos últimos anos. O principal motivo é a forte influência da Igreja Ortodoxa, que condena o ato de tirar a própria vida como um pecado grave e não oferece enterro religioso aos suicidas.

Por isso, muitas famílias sofrem em silêncio e, na maioria das vezes, encobrem o ato como sendo morte acidental. “O silêncio em torno de suicídios na Grécia é particularmente difícil para as famílias das vítimas. Elas se sentem sozinhas e isoladas, pois não podem falar sobre o assunto ou pedir ajuda”, conta Eleni. “E isso torna o processo muito perigoso para elas, pois também correm o risco de se matar.”
Alguns estudos mostram que muitas vítimas pedem ajuda a um membro da família ou profissional de saúde no momento que antecede o ato. Essas pessoas nem sempre dizem que estão pensando em suicídio. Em vez disso, não conseguem dormir ou passam o tempo todo cansadas. As famílias são muitas vezes incapazes de perceber tais sinais ou, mesmo percebendo-os, têm vergonha do que veem, tornando ineficaz a descoberta. Esse foi o caso dos três filhos de um homem que permanecerá anônimo. Ele tinha 60 anos quando se sentou em um banco no parque seco e deserto de Peristeri, município da Grande Atenas, e cortou os pulsos, sangrando lentamente até a morte. Segundo os filhos, o pai foi ao banco naquela manhã e nunca mais voltou. Não é difícil imaginar o que ele descobriu quando olhou seu extrato bancário. Ironicamente, ele decidiu matar-se a poucos metros de uma igreja que havia dez anos estava em construção com recursos suados de doações dos fiéis do bairro.

Flores e presentes foram deixados em uma árvore na frente do parlamento grego e ao lado de onde Christoulas se matou

Para Emy Christoulas, filha única de Dimitris, talvez o suicídio de seu pai seja um pouco mais fácil de aceitar. Nada pode tirar a profunda tristeza que ela sente, “e que sempre ficará comigo”, diz ela. Mas o fato de a morte dele ser, para ela, um sacrifício político em prol do futuro da sociedade grega sempre fará dele um mártir. Pelo menos isso lhe deu uma razão, que é mais do que resta para a maioria das famílias após seus entes queridos decidirem tirar suas próprias vidas. “Nunca senti que esse luto tivesse que ser tratado dentro das quatro paredes de uma casa. Esse luto é de expressão pública, é uma mensagem política. Esse fato derruba as paredes e me leva para fora delas”, diz ela à Status, na sala de sua casa. A história de Emy e Dimitris é uma história de amor entre pai e filha que transcende a morte e, mesmo que tenha terminado no sentido físico, ela ainda fala com o pai todos os dias. “Em 1975, no dia 21 de abril, na Grécia, os julgamentos da Junta (período compreendido entre 1967 e 1974, quando o país foi submetido a uma ditadura militar de direita) haviam terminado. Lá estava eu, muito jovem, sobre os ombros do meu pai, marchando com muitas outras pessoas rumo à embaixada americana. Eu estava lá, porque ele estava lá. E ele estava vivendo um conceito particular de vida que passou para mim, inspirado pelos antigos gregos, de que nós devemos viver, participar, ser ativos para moldar a nossa própria vida”, recorda ela.

Provavelmente, os índices de suicídio na Grécia continuarão a aumentar à medida que a crise econômica se aprofundar, e mais pessoas, como Christoulas, tenham o impulso de fazer uma declaração política. “Esses mártires”, diz Emy, “devem ser lembretes das injustiças cometidas por grandes instituições políticas e monetárias e da falta de responsabilidade social com a qual elas têm governado nossa sociedade em todo o mundo. Talvez sejamos nós, o povo, que devamos assumir essa responsabilidade, onde há muito tempo tem havido um vácuo, uma ausência de consciência e ética”.

 

A CRISE GREGA EM NÚMEROS

• 20,9% da população está desempregada
• 51,1% dos jovens não têm emprego
• 25% é o aumento de sem-teto nos últimos três anos
• 27,7% dos gregos estão em risco de ficar em pobreza extrema
• 1 cidadão em cada 5 não tem o que comer
• 40% foi o aumento de suicídios nos últimos três anos
• 5 mil ligações foram feitas para o serviço de ajuda ao suicida em 2011 (o dobro de 2010)