MARINHEIRO DE PRIMEIRA “VIAGEM”

Fernando* tinha tudo para se dar bem naquele minicruzeiro com gatas soltinhas. Mas o “Tio” se empolgou demais, tomou o que não devia e acabou morrendo na praia

 

Em depoimento a Paulo Sampaio
Ilustração Victor Diógenes

 

SE ALGUM DIA VOCÊ TIVER a oportunidade de embarcar em um “navio-balada”, cuidado para não naufragar na pista. Especialmente se, como eu, você estiver na faixa dos 40.

O minicruzeiro até Búzios duraria três dias, e eu dividi a cabine com um amigo dos tempos de colégio que estava se separando da mulher e que, naquele momento, encarnava o típico “baladeiro emergente”. O comportamento deslumbrado do Oswaldo fazia lembrar o de um dos alegres visitantes da Fantástica Fábrica de Chocolates Wonka, do filme de 1971 de Mel Stuart. Logo no embarque, depois de fazerem nossas fotos com boias ao redor do pescoço, nos deparamos com três gatinhas de shorts e a parte de cima do biquíni, todas com um copão de gim-tônica na mão. “Oiê”, saudou Oswaldo. “Oi”, disseram elas.

“Mas já no gim?”, pensei eu, intrigado, tentando fazer uma projeção do estado de todo mundo naquele barco, depois de um fim de semana a bordo.

Assim que chegamos à cabine, Oswaldo esfregou as mãos e bateu palmas, dançando com o indicador e o polegar levantados, antes de abrir a mala e tirar de lá uma garrafa de Stolichnaya.

Pegou dois copos de cima do frigobar, colocou gelo e serviu as doses. “Uhu! Bebe aí, brother, num vai ter moleque para encarar o nosso pique com as mina nessa porra desse navio!” Comecei a entrar na onda. Disse: “Ó, vamos combinar uma coisa: quando um de nós usar a cabine pra transar, põe uma cueca na maçaneta do lado de fora como sinal de ‘ocupado’.”

Só para fazer o registro: nossa primeira dose de vodca foi ingerida por volta das 19h do dia do embarque, uma quinta-feira. Subimos para a piscina, onde, logo depois das orientações de um marinheiro sobre como proceder em caso de naufrágio, o primeiro de 15 DJs começou a tocar.

Oswaldo quis dar uma volta pelo navio, mas decidi voltar à cabine para dar um tapa no visual. Chegando à porta, quem está ali por perto? Uma das três garotas do gim-tônica. Tava cheia de graça, calibradinha de tudo. Sorriu, deu uma resvalada no salto e se apoiou no meu ombro pra não cair. Segurei firme na cintura dela e já cheguei junto. Rolou um beijaço, ela fingiu resistir, me empurrou sem muita força. Mas eu já tinha aberto a porta da cabine, foi só girar com ela lá pra dentro. “Voxê é gatchenho demaix”, disse a menina, engrolando o texto. Seu nome, segundo ela, era Mirela.

Caímos os dois ao mesmo tempo na cama. Mirela começou a abrir minha calça com cara de criança gulosa, eu ajudando. Apesar de aparentemente apressadinha, ela deu uma reduzida no ritmo quando ficou cara a cara com meu mastro; saboreou com a maior calma. Começou com uns beijinhos e linguadas de leve na cabeça e foi descendo. Mirela era um caso de talento nato. Dessas que você se pergunta como, com aquela idade (chutaria uns 23 anos, no máximo), sabe exatamente o que fazer. Tem mulher de 40 anos que não chega aos pés. Boquetaço. Ficou ali chupando, esquecida do tempo. Avisei que ia gozar (questão de cavalheirismo), e ela enfiou tudo na boca. Carái, véio! Finalizei o ato com louvor. Nem deu tempo de darmos aquela descansadinha básica e a mina já estava levantando, no maior pique, soltando um simples “te vejo mais tarde”.

Como já não tenho os tais 23 anos, dei uma dormida para recuperar a energia. Acordei, tomei uma chuveirada, bebi mais uma vodca e fui pra pista que funcionava ao redor da piscina.

O cochilo e o banho ajudaram a recarregar a pilha, mas percebi que ainda assim estava para lá de Marrakech. Para rebater, fui buscar mais uma bebida e o Oswaldo apareceu para me acompanhar. Já era madrugada e a balada a bordo bombava. Demos aquela checada geral nas gatas que estavam literalmente na pista e acabamos estacionados ao lado de duas morenas, baixinhas e gostosas, que pareciam mais descontraídas que as outras mulheres da festa.

Assim que perceberam que éramos inofensivos, apesar do jeito afoito do Oswaldo, as duas logo nos acolheram sem resistência. E fomos dançando, eu e uma das morenas, rostinho chegando sempre perto, minha mão resvalando para a cintura dela. De vez em quando a mina subia para o convés, parecia ir dar umas voltas, mas sempre voltava pro meu lado. E a noite passando. Lá pelas tantas, por volta de umas 5h, ela colocou na minha boca algo que parecia ser uma pastilha. Aceitei rindo. Ela riu de volta. Nos aproximamos. Beijo. Olhares promissores. Dancinha mais perto. A sensação da pele era aguçada, tudo em câmera lenta, tesão no máximo. Ela ainda dançava de costas para mim, com o cabelo encostando no meu nariz e o bumbum batendo na minha calça, bem na altura do meu pau. Pensei: cacete, já tive o boquete dos sonhos e agora estou prestes a comer essa morena por trás. Cara, que vontade de trepar ali mesmo. Ela tomou outra pastilha. Eu quis também. Estava me achando o cara. E a viagem estava só começando!

Até que, de repente, bateu.

Primeiro, foi um pânico. Achei que estava paralisado, que tinha tido um AVC. Dancei um pouco, para ver se espantava a sensação. Piorou. A mulher mantinha o pique da sedução, caras, bocas, dancinha sexy, e isso só me deixava mais desesperado. Queria segurar a onda, estava com tudo na mão, era só arrastá-la para a cabine. Mas a coisa foi degringolando. Eu tentava falar, pedir socorro – mas a boca estava seca, a pupila dilatada. E a gata dançando. Não havia a menor possibilidade de ser ouvido ou receber um aconselhamento no meio daquela selvageria. As porradas que saíam das caixas de som estavam mais aceleradas, mas estava convencido de que não conseguiria sair mais do lugar. O dia amanhecendo. Em minutos, eu vivi horas. Estiquei o braço, o Oswaldo achou que eu queria confraternizar e acenou para mim, como quem diz: “é isso aí!” Apesar de não estar enjoado, a sensação de desamparo, o pânico me levaram a um sufoco. Algo acontecia com o meu corpo e, certamente, já não era mais o tesão ensandecido. O vômito subiu e veio como um jato. Antes de apagar por completo, deu tempo só de ouvir o grito derradeiro da gatinha: “ai, o tio gorfô!”

*Fernando, 42 anos, é administrador

 

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