VIDA NA VERTICAL

O americano Alex Honnold não se cansa de colocar a escalada em um novo patamar: ele sobe quilômetros sem recorrer a nenhum equipamento de segurança que o salvaria da morte em caso de queda. Até hoje ele nunca errou

 

Por Mario Mele

 

Alex escalando a via Phoenix no Yosemite Valley, na Califórnia

EM UM QUARTO DE HOTEL, DE FRENTE ao laptop, o escalador americano Alex Honnold tenta explicar à Status que ainda guarda algum comportamento de um ser humano normal. “Nesse momento”, ele escreve, por e-mail, “eu e minha namorada estamos nos preparando para ir ao casamento de um amigo que acontece daqui a uma hora. Quer outra prova? Quando estou faminto sou capaz de devorar um pacote de bolachas.”

Honnold, 27 anos, às vezes ainda fala com a ingenuidade de uma criança. O jeito que escala, no entanto, deixa até os melhores do mundo em pânico. Ele é adepto da escalada free solo, na qual não são usados equipamentos de segurança. Neste estilo, é o atleta, o paredão de pedra e, no máximo, um saco com pó de carbonato de magnésio preso à cintura, que é passado nas mãos para estancar a transpiração. Cordas, fitas tubulares de náilon ou mosquetões que serviriam para “costurar” a via e salvar a vida do escalador em caso de uma queda estão fora de cogitação. É assim que costuma funcionar quando Honnold escala: o menor erro significa a morte.

Hans Florine faz a ancoragem para Alex Honnold na rota Nose, na Califórnia, que a dupla completou em 2h23min

Até hoje, no entanto, ele foi perfeito. E, como um atleta olímpico que bate o recorde mundial de sua modalidade, tem expandido os limites do esporte. No fim do ano passado, abusando de seu controle mental e com força muscular suficiente para permanecer grudado a agarras minúsculas, Honnold chegou ao topo de dois blocos com inclinação negativa no Yosemite (parque nacional americano localizado na Califórnia), cada um com mais de dez metros de altura. Sem usar cordas, ele também tem escalado rochedos de mais de mil metros de altura (chamados de big wall) que jamais haviam sido conquistados com tanto risco. “Alex mostra uma calma notável durante suas escaladas em free solo”, diz Hans Florine, respeitado escalador americano, famoso por subir paredões velozmente, a maioria das vezes ancorado por cordas de segurança. “Alex é filosófico sobre a existência, e nunca ter caído o faz dar ainda mais valor à vida.”

Em junho, Florine e Honnold escalaram juntos por uma boa causa: bater o recorde de velocidade da Nose, a mais emblemática via do Vale do Yosemite, uma das mecas mundiais da escalada em rocha. Enquanto escaladores de alto nível costumam demorar entre três e seis dias para chegar ao topo do monólito El Capitan por essa rota, Florine e Honnold gastaram apenas 2h23min46s. Na tentativa bem-sucedida, a dupla diminuiu em 13 minutos a melhor marca até então, que pertencia a Dean Potter e Sean Leary, outra dupla americana especialista em escaladas a jato. “Mas não acho que termos batido esse recorde significa que atingimos um novo nível”, pondera Honnold, com modéstia. “Apenas tivemos um bom dia de escalada, em que tudo fluiu bem.”

Desprotegido
Neste ano, além de ser veloz e reforçar seu nome como o maior escalador free solo da atualidade, Honnold mostrou aptidão à escalada endurance. Em maio, ele e Tommy Caldwell, um dos melhores escaladores de paredões da atualidade e um dos heróis pessoais de Honnold, foram notícia nos meios especializados ao escalar os três maiores maciços do Yosemite (El Capitan, Half Dome e monte Watkins, combinação conhecida como a Tríplice Coroa da escalada) em apenas um dia. Eles foram a primeira dupla a fazer isso em estilo livre (forma tradicional de escalada em que não são fixadas agarras artificiais na parede, mas se utiliza corda como segurança) e enfrentaram passagens graduadas em 9b, nível bem avançado da tabela de graduação brasileira de vias de escalada.

Duas semanas depois, Honnold encararia o mesmo desafio, dessa vez sozinho. Precisou de cerca de 18 horas para subir mais de dois mil metros de parede exposta. Começou atacando o Half Dome antes de o Sol aparecer. A correria era tanta que ele se esqueceu de levar o saco com o pó de carbonato de magnésio, e teve que pedir emprestado a outro escalador. “Foi uma bela conquista”, é tudo o que ele disse depois de fazer um esforço físico comparado ao de um triatleta de ponta em dia de competição do Ironman. A diferença é que Honnold admite nunca ter se esforçado para ter a disciplina de um superatleta, que pensa em cada caloria ingerida e fica bitolado com os treinos.
O impossível é fugir da preparação psicológica, que conta muito. O próprio Tommy Caldwell, que há tempo não se intimida com paredões quilométricos, assume que nunca tentou escalar nada tão grandioso no estilo desprotegido. “Já caí inesperadamente em lances considerados fáceis, quando uma agarra quebrou ou minha sapatilha escorregou”, justificou ele. “Se estivesse escalando em free solo em alguma dessas vezes, eu já era.” Segundo as estatísticas, nos últimos 40 anos, cinco escaladores americanos, que levaram a escalada em free solo a sério acabaram mortos.

Monstro
Escalar o mais rápido possível é um desejo perseguido por Honnold há anos. “No meu caso, segurança vem em primeiro lugar”, suaviza ele. “Diversão em segundo e velocidade em terceiro. Mas depois que aprendi a escalar vias big wall em série, tem sido uma inspiração poder voltar a tempo do jantar depois de uma escalada longa.”

Honnold foi ensinado a tomar decisões próprias desde criança. “É claro que com segurança e bom-senso”, diz sua mãe, Dierdre Wolownick. “Quando ele era pequeno, já dava sinais de independência, parecia saber o que era bom ou ruim para ele.” Pode ser que esse traço na personalidade ainda influencie algumas atitudes, mas até dona Dierdre acredita que ele seria exatamente o mesmo escalador que se tornou se não fosse por isso. “Sei que ele sabe o que faz e, por isso, parei de me preocupar toda vez que ele sai para escalar”, afirma ela.
Para Stecey Pearson, que namora Honnold há três anos, às vezes é difícil entender como nenhum bloco de pedra parece ser capaz de intimidá-lo. “Ele é diferente de outros atletas, está sempre envolvido com escaladas realmente assustadoras e tendo sucesso com isso”, diz ela.

“Alex Honnold é um monstro.” Esse tipo de comentário é comum em sites de escalada, principalmente quando ele faz algo quase inumano na rocha, como escalar pela primeira vez na história uma difícil via sem corda. Bem diferente do que acontecia há nove anos, quando, aos 18 anos, Honnold ficou com um distante 39º lugar no campeonato nacional juvenil de escalada. Ele lembra que, naquela época, passou por um momento de depressão ao perder o pai precocemente, vítima de ataque cardíaco, aos 55 anos. Para se libertar do trauma, pediu a van de sua mãe emprestada. Encheu-a de equipamentos de escalada e um saco de dormir e, como um nômade, passou a circular pelos paredões da Califórnia, Nevada, Utah e British Columbia. “Eu era tímido demais para conhecer novas pessoas, então simplesmente comecei a escalar sozinho e, aos poucos, fui melhorando.”

Até que, em setembro de 2008, Honnold escalou o Half Dome, no Yosemite, mítico paredão de granito de quase 1.500 metros de extensão vertical. Nas rodas de escalada, não se falava em outra coisa. Choveram patrocínios e, a cada dia, ele recebia 20 novas solicitações de amizade pelo Facebook – hoje ele tem uma fan page, que conta com mais de 32 mil seguidores. As pessoas perguntavam que equipamentos deveriam comprar, enquanto ele só queria saber de escalar mais e mais. No mesmo ano, a produtora Sender Films, uma espécie de 20th Century Fox do montanhismo, pediu que ele repetisse algumas escaladas free solo, incluindo a do Half Dome. O resultado foi o filme Alone on the wall, que se tornou um marco do cinema outdoor, ganhou prêmios na Europa nos anos seguintes e colocou Honnold em revistas do mundo inteiro.

Há quem diga que a fama subiu à cabeça, e que ele se sente superior por escalar perigosamente. Em matéria publicada recentemente pela revista americana Outside, um ex-parceiro de escalada reclamou de Honnold, que teria tirado um sarro depois que ele demorou a vencer um lance na rocha aparentemente simples. “Agora”, declarou o colega, “se você não estiver entre os melhores escaladores do mundo, você é um lixo para ele.”

Mas Honnold parece não se achar grande coisa. Procurado por uma editora para lançar uma autobiografia, ele recusou, dizendo não acreditar que já tenha vivido o suficiente para reunir suas histórias em um livro. Ele também não quis abandonar a simplicidade com que vive. No máximo, deu um upgrade na van em que mora em torno de seis meses por ano, colocando um isolamento térmico e um fogareiro de duas bocas – ele garante que o veículo é bem mais confortável do que as pessoas imaginam. Em setembro deste ano, Honnold deixou provisoriamente a casa móvel para ir escalar na Tanzânia. Como sua mãe gosta de dizer: “Alex quer levar uma vida vertical desde o dia em que nasceu.”

 

A SUBIDA RECORDE AO EL CAPITAN

El Capitan é o monólito de granito do Vale do Yosemite, Califórnia, que há algum tempo é o foco da escalada mundial. Sua principal rota, a Nose, é a mais exposta e desafiadora, e desde os anos 1980 se tornou uma espécie de 100 metros rasos da escalada. Atualmente, os escaladores donos da ascensão mais rápida são os americanos Alex Honnold e Hans Florine. É a primeira vez que Honnold figura nessa lista. Ao contrário de Florine, que já se juntou a cinco diferentes escaladores para estabelecer novos recordes de subida. Na primeira vez, em 1991, com Dave Schultz, fez isso em 4h48min. Em junho deste ano, com Honnold, diminui o tempo pela metade (2h23min). Mas é incrível pensar que, em 1958, a primeira expedição que chegou ao topo do El Capitan, liderada pelo lendário escalador Warren Harding, demorou 48 dias para completar a via.