CARMELITA MENDES

“No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho”, recita a top Carmelita Mendes, citando aquele que é – a provocação é minha – a terceira personalidade mais famosa de Itabira, Minas Gerais, a terra dela: o poeta Carlos Drummond de Andrade

 

Por Vivi mascaro

 

TERCEIRA? É que, além de Carmelita, a terra gerou outra top do primeiríssimo time, Ana Beatriz Barros. “O que tem na água de Itabira para produzir tanta mulher linda?” – eu pergunto a Carmelita. Ela ri, mas corrige: “Lá é terra de minério de ferro, da Vale do Rio Doce. Acho que influi mais na personalidade, uma certa determinação, vontade de ferro.”

Carmelita é assim, mas a verdade é que não houve muitas pedras no caminho dela – ela jura que não. Estava lá no seu cantinho, sossegada, estudando ciências biológicas e sonhando com o dia em que, graduada na faculdade, iria se entregar ao estudo de peixes, golfinhos, borboletas ou bactérias. No entanto, aquela allure que ela desenvolveu desde o início da adolescência, o tipo esguio, o 1,78 m que logo se prenunciara, os traços finos, a beleza suavemente exótica, o perfil de deusa afro que teria enlouquecido Pablo Picasso, tudo isso era sinal de que outro caminho profissional ia se abrir para ela. A mãe bem que deu a maior força. “Nunca tinha pensado em ser modelo”, diz Carmelita. De mais a mais, aos 9 anos sofreu uma queda que lhe custou uma cicatriz no rosto. Aquilo a incomodava. Nada, porém, que uma maquiagem não disfarce. “Hoje, não me vejo fazendo outra coisa senão moda.”

Não deu outra. Aos 17 anos, já trocava a terra de Carlos Drummond pela terra de Fernando Sabino – quer dizer, Belo Horizonte. “A moda sempre foi muito forte em Beagá”, lembra. Começou em 2005 no Amni Hot Spot, agora Minas Trend. Dois anos depois já estava frequentando os desfiles do São Paulo Fashion Week. Causou, de cara, um espanto. Modelos negras (e negros) eram raridade e Carmelita já pisou na passarela com a elegância categórica e a maturidade precoce de quem surgia para ser a Naomi Campbell aqui dos trópicos. Em 2009, o definitivo reconhecimento tributado pelo mundinho: modelo do ano, Prêmio Moda Brasil.

Ser negra atrapalhou ou ajudou? – quero saber. “Não ajudou nem atrapalhou”, responde ela, garantindo que de racismo só sabe de ouvir falar, nunca de sentir na pele. “O que ajuda ou atrapalha é seu corpo, seu jeito de ser, sua atitude profissional.” Mesmo porque a concorrência das modelos negras tem aumentado muito no Brasil. “Tinha a Rojane, aquela de cabeça raspada. Hoje tem meninas lindas como a Manu de Paula (parênteses rápido: que já foi capa de Status), a Gracie Carvalho, a Samira Carvalho…”

Modelos negras eram raridade e Carmelita Mendes já pisou na passarela com a elegância categórica de quem surgia para ser a Naomi Campbell dos trópicos

É com Samira, aliás, que Carmelita divide um apartamento no único lugar que, segundo ela, consegue se comparar com São Paulo em charme, agitação e oportunidades: Nova York. O pied à terre fica em Manhattan, na rua 36. Carmelita vive hoje na ponte aérea São Paulo-Nova York, com escapadas eventuais – e sempre a trabalho – para lugares como a Polônia ou a Colômbia, Itália ou Turquia. No ano que vem, entra na agenda dela o destino que é o sonho de dez entre dez top models: Paris.

Paris, claro, é um up grade. No entanto, sonho por sonho Carmelita prefere ficar com outro, aquele chamado Victoria’s Secret. Com o corpão que tem, ela há de chegar lá. “Adoro fazer biquíni, moda de praia”, anima-se. E a mística das Brazilian tops também facilita, não é? Só pelo time fixo da grife mais sexy de lingeries já passou Gisele Bündchen e ainda estão Adriana Lima, Alessandra Ambrosio, Manu de Paula, Laís Ribeiro, Flávia Oliveira e Izabel Goulart. Enquanto espera a hora chegar – “e sei que vai chegar” –, Carmelita assiste de camarote a cada desfile da Victoria’s Secret. “São sempre lindos. O último teve show da Rihanna. O penúltimo foi com a Katy Perry.” Com tanto holofote, com o frisson que cria, desfilar para a Victoria’s Secret faz com que o cachê seja quase um detalhe. Um milionário detalhe.

O lado B da carreira de modelo, dizem, é a rivalidade, as rasteiras e cotoveladas trocadas, em dissimulado acaso, nos camarins e nos bastidores. É assim mesmo? – eu pergunto à Carmelita. “Já ouvi falar em baixarias, em modelos barraqueiras, mas nunca presenciei e nunca vivi”, diz, com aquele jeitinho bem mineirinho que ela não perdeu. “Como não me sinto ameaçada no trabalho, acho que também não ameaço ninguém.”
Conta a lenda que a profissão tem outro carma: o assédio. Lenda ou realidade? “É bem real”, confessa Carmelita, enquanto aperta a mão do namorado, o booker Michael – que faz tipo marcação cerrada. “Mas sou muito segura do que quero.” Segura a ponto de já ter sido fotografada de busto nu e ter considerado natural. “A nudez é linda quando não há vulgaridade.”

Continuar nas passarelas, nas campanhas e nos editoriais de moda enquanto der – e casar, ter filhos, quem sabe voltar a estudar, dessa vez numa faculdade de moda. Morar em São Paulo e de vez em quando escapar até Nova York – a lazer – e Itabira, a terra com a qual o poeta Drummond manteve até o fim da vida uma ambígua e sofrida relação de amor e distanciamento. Carmelita vê as coisas de um modo mais simples. Adora Itabira e adora Drummond. “Se quiser eu recito também ‘E agora, José?’, você quer?”